Mudhoney (abertura para o Pearl Jam)

28/11/2005, Gigantinho, Porto Alegre (RS), Brasil

Por Celso Augusto Uequed Pitol em 05/02/2006

Créditos da imagem: Foto copiada do Terra/Música

O show do Mudhoney em Porto Alegre serviu, entre outras coisas, para retomarem as velhas comparações entre bandas que começaram no mesmo lugar e hoje estão em patamares um tanto distantes. Dentre os que tiraram 100 reais do décimo-terceiro, não faltou quem pensasse que o Pearl Jam seria o exemplo da corrupção de um movimento sincero pela mídia, com seus shows de estádio, sua devoção pelo The Who e a abertura da turnê dos Rolling Stones, e o Mudhoney, coitadinho, o primo que teimou em permanecer pobre e puro de coração, fechadinho em suas camisetas de quinta categoria, seus CDs de rock alternativo, seus vinis de blueseiros anônimos dos anos 40 (e dos primeiros dos Rolling Stones) e seus livros de William Faulkner, tudo com aquele riso sincero de nerd. Há, inclusive, quem considere que o único show grunge da noite foi o do Mudhoney.

É engraçado ouvir defesas iradas de um termo que, hoje, passada mais de uma década do ápice comercial do fenômeno, parece ter perdido o sentido, já que muitos finalmente começaram a perceber o óbvio: que as bandas de Seattle surgidas entre a década de 80 e 90 nada têm em comum entre si, exceto o fato de que eram de Seattle e usavam cabelos compridos. É uma relação muito semelhante à que ocorre entre as novas bandas que surgem em locais ermos do Brasil e a mídia “ligadaça” de São Paulo, que procura cenas roqueiras e movimentos onde só existe um amontoado de grupos brigando entre si, e que só se unem quando aparecem em matérias especiais na Ilustrada e na recém-ressuscitada Showbizz. Temos um exemplo claro muito próximo de nós — no meu caso, canoense que sou, a uns 10 quilômetros — mas não me deterei nele. Voltemos ao Mudhoney.

O grupo formado por Mark Arm (vocal e guitarra), Steve Turner (guitarra), Guy Maddison (baixo) e Dan Peters (bateria) prefere ser classificado como grupo de punk rock, e devem tolerar ocasionais frescuras de críticos, como dizer que eles “temperam seu lado Stooges com pitadas de Neil Young, Creedence e Rolling Stones”. Como são tudo menos chatos, não reclamam nem disso e nem quando são chamados de remanescentes do grunge — até porque o termo foi criado pelo vocalista da banda, Mark Arm, e ele deve decidir o que é e o que não grunge, afinal — e até fazem piada quando algum jornalista pergunta pela enésima vez o que acharam da morte de Kurt Cobain. Mark Arm dá risadas, e Steve Turner, o guitarrista, diz que foi um momento lamentável e que eles pensaram em parar — afinal, como iam continuar sem o seu vocalista? A ironia termina quando perguntam quem é melhor, Eddie Vedder ou Kurt Cobain. Mark Arm não perdoa: “É o Eddie. Ele não foi estúpido de dar um tiro na própria cabeça”, diz, sério. Claro. Nenhum deles está aí pra se matar e virar porta-voz de uma geração, e o Mudhoney dos muitíssimo bem humorados Mark Arm e Steve Turner, únicos remanescentes da formação original, não quer saber de lamento épico. A única semelhança que guardam com o Nirvana é a base punk do seu som (quando estava começando, Kurt Cobain não perdia um show do Mudhoney). O clima é bem diferente: as letras são diversão pura, reclamações engraçadas de gente que não agüenta mais o emprego, o chefe, o mau humor dos outros ou a falta de mulher, com algumas histórias sinistras de jovens sem futuro e outras sujeiras da estética punk e, de vez em quando, alguma melancolia inspirada pelo blues ou pelo country, duas grandes paixões dos membros da bandas e que constituem as pitadas acima relacionadas.

Foi essa banda com ambição de time paraibano na Copa do Brasil que abriu o apoteótico show do Pearl Jam com uma postura que, se nada teve de apoteótica, ficou igualmente longe da “seriedade” da maior parte das bandas ditas alternativas, que querem parecer serem sinceras e acabam ficando apenas sem-graça. O Mudhoney contou piadas, tentou falar em português — e, nisso, Mark Arm ganhou de Eddie Vedder —, não se importou com o fato de que a maior parte do público não conhecia suas músicas e pulava só pela barulheira — o que até os alto-falantes já sabiam que ia acontecer — e, apesar disso, procedeu como o mestre Iggy Pop no seu show em São Paulo: tocou apenas as músicas mais conhecidas (ou menos ignoradas). Um show para o público: para os que conhecem matarem a vontade e os que não conhecem ficarem sabendo quem é.

O Mudhoney abriu com When Tomorrow Hits, do disco Mudhoney, o segundo da carreira da banda (o primeiro é o clássico Superfuzz Bigmuff, de 1988). Daquele disco, é talvez a menos palatável, mas não houve problema. Mark Arm gastou um quarto do gogó no berreiro, e o público reconheceu o esforço, tentando participar mesmo sem conhecer a banda direito. Outro quarto ele gastou em In ‘n out of Grace, uma das mais representativas da banda tanto pelo som quanto pelas letras, e o público gostou: muitos pulos, muito griteiro e muita empolgação. Aos poucos, estavam ganhando a platéia, trajetória que prosseguiu com as boas performances de It is Us, I Saw the Light e Sweet Young Thing Ain’t Sweet no More, todas aprovadas pelo público.

Podemos dizer, com muito boa vontade, que um quinto do público tinha alguma idéia do que era o Mudhoney, e, destes, talvez uns 70% já houvesse escutado Touch me I’m Sick uma vez na vida. Pois muito mais gente aceitou a música, pulando como se os vizinhos de Kurt Cobain estivessem executando Smells like teen spirit (a abertura da música realmente lembra um pouco o clássico do Nirvana). Foi o ponto alto do show, e mesmo aqueles que não conhecian a música pegaram o refrão logo da primeira vez. O maior hit do Mudhoney, se é que podemos chamá-la assim, incendiou o pogo do pessoal da arquibancada. Suck you dry, outro grande clássico do grunge, não teve a mesma acolhida: muita gente aproveitou o momento pra descansar e, quem pôde, sentou. Assim como em 2001, o show terminou com Hate the police, cover do grupo punk The Dicks presente no primeiro CD do Mudhoney, Superfuzz Bigmuff, hardcore muito agradável para quem incomoda a mãe ouvindo Offspring no quarto. Foi muito bem recebida, e Mark Arm largou a guitarra pra encarnar Jello Biafra e fazer do microfone o pescoço dos reaças do Partido Republicano.

A estratégia de fazer um show como um Best Of só teve um problema: nenhuma música do último disco da banda, Since We’ve become Translucent, de 2002, foi contemplada, ao contrário do show de 2001, quando mandaram a então inédita Inside Job, do referido álbum, um energético rockabilly ao melhor estilo Sonics e MC5 que tem tudo para se tornar outro clássico da banda. Poderiam, também, fazer como fizeram em São Paulo, reunindo-se com o pessoal do Pearl Jam para tocar o clássico Kick out the jams, do MC5, e fazer a alegria dos fãs-de-verdade, gente que escuta a banda e todos os seus derivados, assemelhados e, no caso, antecessores. Além do mais, se fizessem o que fizeram em São Paulo, o sucesso seria mais do que certo. Mas tudo bem: durante os 40 minutos que ficou no palco, o Mudhoney agitou, divertiu, se divertiu e preparou os ouvidos para a celebração religiosa que Eddie Vedder e seus amigos estavam por começar. Missão cumprida.

Setlist

  1. When Tomorrow Hits
  2. In ‘N’ Out of Grace
  3. I Saw the Light
  4. Sweet Young Thing
  5. On the Move
  6. Touch Me I’m Sick
  7. You Got it
  8. Here Comes Sickness
  9. Pushing for War
  10. Hate the Police

Bandas associadas: Mudhoney

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