Modest Mouse

08/09/2010, Troxy, Londres, Inglaterra

Por Natalia Vale Asari em 27/12/2010

Créditos da imagem: Foto por Tim Boddy, todos os direitos resevados ©. Permissão para uso neste artigo gentilmente concedida pelo fotógrafo.

A apenas uma hora da abertura das portas, chegamos ao Troxy. A fila para pegar os ingressos? Ah, ali, onde não há fila. Ingressos na mão, finalmente. E a fila para entrar? Ali ao lado, onde não há fila. Alívio: ali era realmente o Troxy, e ali naquele Troxy iria realmente tocar o Modest Mouse. Até o dia anterior, estávamos alertas, achando que talvez houvéssemos errado o lugar, o dia, ou a banda.

Um pouco afastado do centro de Londres, em uma região que já deve ser nas Docklands, o Troxy não tem muito charme por fora: alerta número 1. E nenhum cartaz ou luminoso anunciando o Modest Mouse: alerta número 2. No entanto, já com os ingressos na mão, e nos primeiros lugares da fila de entrada, suspiramos aliviados com os alertas falsos.

A marquise nos abrigava da chuva fina, um acidente de trânsito desenrolava-se na esquina, esperamos. Portas abriram, nenhuma revista, seguranças sem ao menos saber bem que parte do ingresso guardar. Logo em vista o stande com vinis e camisetas, cujos preços permitiram finalmente a extravagância de uma cópia em formato grande do The Moon & Antarctica. O palco estava cercado por um semicírculo de sofás, que delimitavam um balcão em uma plataforma mais elevada. Ficamos a postos ali no balcão acarpetado, a cinco passos do palco, e a meio metro acima da plateia mais da frente. Potencialmente agitado como um show do Trail of Dead, comento eu, apesar de nada ser insano como um show do Trail of Dead. Mas acreditava que pode haver até mais energia do que um Trail of Dead dentro de um homem só, e estava certa.

Uma jovem banda londrina abriu: Yuck. Apesar do nome, o show não foi desconfortável; por outro lado, tampouco memorável. No horário correto e humano das 21h, começaram a entrar os Modest Mouse. O evento todo era um “All Tomorrow’s Parties concert” (não um festival).

O Modest Mouse abriu com Dramamine, uma pérola que conheço mais por osmose do que por ter prestado atenção. Na verdade, nunca fui muito a fundo nos discos anteriores ao The Moon & Antarctica. Mas lá estava Dramamine, me ensinando a retornar aos discos antigos. E lá estavam no palco Isaac Brock, a principal figura da banda, e vários dos seus companheiros, incluindo dois bateristas. Na guitarra, nada de Johnny Marr, mas Jim Fairchild do Grandaddy. (E, pronto, posso dizer que quase vi Grandaddy também.) Não esperava por tantos instrumentos e tanta gente no palco.

Não demorou muito para o show tomar ares oníricos. A segunda música era a que eu secretamente desejava, Gravity Rides Everything. Linda, rápida, acelerada. Todas as músicas pareciam mais rápidas, incontroladas e urgentes. Gottasee-gottaknow-rightnow.

Depois desse começo com canções cadenciadas mas aceleradas, entrou a intrinsecamente inquieta Dashboard. Ainda que não tão prolixa quanto outras da banda, esta música é uma bela expressão, quase caricatura, do mais turbulento Modest Mouse. Sem contar que a letra é baseada em um filme com o John Candy e o Steve Martin.

Uma pausa para falar das músicas desse show. O último LP do Modest Mouse foi We Were Dead Before the Ship Even Sank, de 2007. O último lançamento foi o EP No One’s First, And You’re Next, de 2009, que é principalmente um apanhado de B-sides lançados anteriormente. E a banda parece não ter novos trabalhos em vista (Isaac acabou de lançar músicas com o seu projeto paralelo, o Ugly Casanova). Portanto, no papel, o show oferecia uma combinação pouco usual: apesar de ser uma banda ainda na ativa e usufruindo de plena capacidade respiratória, esse é um show de revisão, com uma coleção de músicas de todo o repertório do Modest Mouse.

A julgar pelo palco, o Modest Mouse ainda está no ápice, pelo menos no ápice de interpretação do seu catálogo, sejam as músicas da época que forem. E o show foi, sim, uma coleção coerente de músicas de toda a década e meia de carreira do Modest Mouse. Elas representaram muito do melhor de cada disco, mesmo aqueles que eu não conheço profundamente (pré-The Moon & Antarctica) e daqueles que não são tão perfeitos (pós-The Moon & Antarctica). Com isso, peço licença para deixar de mencionar músicas excelentes por falta de experiência, como Satin In A Coffin (do Good News For People Who Love Bad News), Here’s to Now (uma nova do Ugly Casanova), e Cowboy Dan (The Lonesome Crowded West).

Então, aos destaques: Tiny Cities Made of Ashes ficou extraordinária em uma versão mais enérgica do que a do disco, mas longe daquela esquisita da BBC sessions. As músicas que as multidões adoram, a épica 3rd Planet e o hino Float On, que particularmente não me agradam tanto quanto outras, foram competentes. E, finalmente, as The Whale Song e King Rat, desse último EP, representaram o de mais novo do Modest Mouse. The Whale Song, especial, com a introdução longuíssima, a letra repetida, repetida, deixou-me com a impressão de que eu sempre gostei de mandolins.

Para encerrar, Spitting Venom, uma das melhores músicas para fechar um show: a introdução com Isaac Brock sozinho, a música tranquila e pacífica (apesar da letra), e depois o velho — e, neste caso, eficiente — truque de fazer todo o resto instrumental entrar e carregar a melodia exatamente para o ponto raivoso que a letra antecipava.

Chegando ao fim, um momento de reflexão após esse apanhado de músicas. No palco, o Modest Mouse tem camadas de instrumentos, arranjadas meticulosamente, e muito mais sons sendo criados no palco do que uma audição desatenciosa dos discos aparenta ter. No cerne, são lembrados pelas letras aos borbotões, os temas e cenários modestmousianos, por vezes carregados de ciência, ficção científica e isolamento. O esqueleto e a alma do Modest Mouse, no entanto, estão no fôlego com que essas letras são cantadas. Isso significam um Isaac Brock incansável, interpretando as frases difíceis com perfeição e sem tropeçar, como se fossem frases espontâneas, frescas, e cheias de presença de espírito. De uma urgência hipnótica, o corpo inteiro envolvido em cantar.

No único momento de Brock fora das músicas, uma resposta eficaz aos pedidos de músicas aleatórias: “We could play your request… or we could play my request!”

A verborragia e a hipnose recomeçaram com Bukowski. Quem disse que o show terminou? Todos sabem que, com raras exceções, o encenamento de sair e voltar para o bis é consagrado em shows de rock, e desta vez não foi quebrado. Bukowski voltou com uma das mais geniais letras dos ratos modestos, que, confesso, eu nunca havia entendido antes.

Seguiu-se Broke, para retomar o fôlego depois da agitação. O bis terminou com The View, que para mim é uma versão muito mais inspirada de Float On. Saldo para Isaac Brock: duas camisas que chegaram ao limite de saturação em umidade. Saldo para o público: um show de urgência hipnotizante.

Setlist

  1. Dramamine
  2. Gravity Rides Everything
  3. Dashboard
  4. Satin In A Coffin
  5. Here’s to Now (Ugly Casanova cover)
  6. Tiny Cities Made of Ashes
  7. Baby Blue Sedan
  8. Cowboy Dan
  9. Float On
  10. The Whale Song
  11. 3rd Planet
  12. Custom Concern
  13. King Rat
  14. Black Cadillacs
  15. Spitting Venom

Bis:

  1. Bukowski
  2. Broke
  3. The View

Bandas associadas: Modest Mouse

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