Mark Lanegan

19/02/2015, Fabryka, Cracóvia, Polônia

Por Natalia Vale Asari em 09/03/2015

Créditos da imagem: Foto por Natalia Vale Asari

Cartazes por toda a cidade: Mark Lanegan, 19 luty 2015, Fabryka, Kraków. Sim, luty é fevereiro, disseram os nativos. Próxima quinta-feira. Brotou a semente na minha cabeça. Se eu fosse, seria sozinha, com um vocabulário de vinte palavras em polonês, cinco das quais são nomes de animais e a sexta é spelunka. Talvez dê certo. Na sexta anterior, olhei onde era a Fabryka: 45 minutos a pé de onde eu estava. Caminhável; mas havia de se levar em conta os sete graus negativos ao ar livre. E, depois do fim de semana rodeada de turistas poloneses não muito educados nas montanhas de Zakopane, não estava muito animada.

Uma resenha que se preza não fala do show ao qual não se foi. Ou seja, é claro que o culpado é o mordomo e no fim da longa história passei uma hora e pouco ouvindo O Bardo. Na minha decisão pesaram três pontos. Primeiro, a estatura dos poloneses em Cracóvia não é das piores, ao contrário dos estereótipos. Ainda do ponto de vista prático, ir e voltar me pareceu fácil: o lugar não era longe e o show deveria terminar cedo (as portas abriam às 19h30). Fui munida de horários de ônibus, itinerários de bondes, telefones de táxi. Fui e voltei de bonde por fim, com muitos planos B na manga. E o mais importante de tudo: Mark Lanegan é Mark Lanegan. Descrevi-o recentemente como o Tom Waits moderno, mas essa é só uma descrição protocolar. Para mim, ele tem o raro mérito de lançar discos que me soam instantaneamente familiares, mas frescos e interessantes. São como conversas retomadas com amigos que há muito não vejo, mas que continuam exatamente de onde pararam.

Depois de um rápido surto de hipotermia que quase me tirou de campo no último minuto (nada grave), cheguei à Fabryka. Tinha percorrido antes o caminho vicariamente pelo Google Street. Um rapaz do mesmo bonde estava me seguindo na minha frente. Ao abrir a porta, me perguntou algo. Pedi desculpas (em polonês) e disse que não tinha entendido (em inglês). Ele perguntou se eu tinha um tíquete sobrando. Não, só o meu e virtual, no celular. O vigilante da entrada não sabia que existiam bilhetes no celular (bilety telefono, foram as palavras que entendi, combinados à internacional expressão facial de ponto de interrogação), mas a moça no caixa felizmente estava melhor informada e tinha uma lista de pessoas com bilhetes teléfono para conferir. Achou meu nome. Respirei aliviada. Bilhete no celular também era uma novidade para mim.

Neste ponto pode-se notar que já se gastaram três parágrafos e nada da música ainda. E esse não é aquele outro famoso site, que destila histórias enormes antes de, quem sabe e se a lua estiver favorável, resenhar o disco em questão. Preâmbulo que passou do ponto ou não, o fato é que ter visto esse show do Mark Lanegan recompensou todo o esforço para enfrentar os contratempos reais e psicológicos. Adentrei a Fabryka por volta das 20h. Confesso, não tenho muita paciência para bandas de abertura. O lugar era pequeno. Um corredor de entrada e guarda-casacos (deve haver nome antigo e muito mais legal do que esse: galochatório?). Logo depois uma antessala com um stand e bar com cervejas nacionais. Lager polonesa ainda é lager, mas é ótima. Cara a cara com o stand de discos, garanti o Phantom Radio para nossa coleção e uma camisa que, espero, algum aluno reconheça atrás do pó de giz. Duas portas amplas abrem para a sala de shows, uma no fundo e outra perto do palco. O lugar é menor que o Trabendo. Fiquei no terço mais próximo do palco, encostada na parede, um pouco atrás de uma pilastra e um casal. O casal não deve mais estar lá, a pilastra espera-se que sim. A moça era alguns centímetros menor que eu, e o campo de visão era ótimo. Havia pessoas por toda a sala, mas bastante espaço entre elas; acho que em muitos shows aceita-se até o triplo de pessoas por metro quadrado do que havia por lá. Peguei o finalzinho do Faye Dunaways (cujo nome estava estampado por dois datashows, logo desligados e substituídos por `Dell’, e no meio da próxima banda desligados). Depois de meia música eles se retiraram. Achei que tinha tirado a sorte grande. Consultei o relógio e me dei conta que deveria haver ainda outra banda. Sim: Duke Garwood, que pensei que era uma banda mas é só um cara (Duke) e um colega (na bateria). A música deles era até interessante, mas com apenas guitarra e bateria só me lembro do No Age que faça bem. E o som estava horrível, cheio de microfonias. O próprio Duke fez piada com o fantasma da Fabryka. Maus augúrios para Marek/Mareku/Marku, como diziam os ao redor?

Um pouco depois das 21h e umas três páginas do meu livro a luz se apagou. Bem posicionada, vi a Mark Lanegan Band entrar. E Mark Lanegan de óculos. When Your Number Isn’t Up trouxe o mar de câmeras à mostra, e achei que Mark Lanegan estava falando com a platéia quando cantou “Turn out the lights!”. Mas claro que não. Lanegan apenas canta para si. Não há público, só a sua música. O problema de microfonia, aliás, consertaram. Ou eu não percebi mais. E é lindo minimalismo do show do Lanegan. São apenas umas fracas luzes azuis e outras vermelhas por trás da banda. Nenhuma mudança na iluminação durante o show. Mal se vêem os rostos dos músicos. Do Lanegan, então, muito menos. Eu ainda não sei realmente se ele estava mesmo de óculos. Acredito que sim.

Para minha surpresa, Lanegan estava mais falante que o normal. Ele se excedeu com três “Thanks very much”, um logo depois da segunda música. Ainda apresentou todos os músicos da banda na segunda metade do show. Como se não fosse suficiente, ele ainda se balançou um pouco mais do que de costume: chegou a dez centímetros do seu epicentro, o microfone, em vez dos usuais cinco milímetros, em Gray Goes Black, Hit the City e Ode to Sad Disco. Ode to Sad Disco, aliás, foram o maior hit popular do show, com um início de mosh pit; ou o mais próximo disso em um show do Lanegan em Cracóvia. E, correção, parece-me que durante “Gloria, I get down on my knees” o Lanegan chegou a 20 cm do microfone. Os “thanks very much” revelaram mais um segredo. Mark Lanegan, humano, rouco; do frio, de cigarros, de uísque e gim. Rouquidão cortante. Mas, durantes as músicas, nenhum traço de rouquidão: a mesma voz soberana de sempre. Mistérios dO Bardo.

No meio disso tudo apareceu um fotógrafo, daqueles de lentes telescópicas, que se colocou ao lado do casal. Aquele mesmo casal que não deve estar mais lá. Pediu licença para nós, claro. Não só isso: colocou ali uma escadinha de dois degraus! Satisfeito depois de 1046 fotos, ele se enveredou mais para perto do palco, e me disse que eu podia usar a escada para ver melhor o show. Ainda mergulhada em Gravedigger’s Song, não tive tempo de entender a situação. Ele queria alguém para cuidar da escada! Subi os degraus, fui metralhada por olhares de metade da sala por três segundos, e desci. A escada permaneceu ali, um estorvo para todos em volta. Umas duas músicas depois o fotógrafo voltou e, sem uma palavra, pegou a escada, lançou-me um olhar furioso, e se mandou. Ele deve ter achado que me fez uma gentileza e eu não agradeci; pior, desprezei-a. Ou só queria mesmo que alguém cuidasse da escada.

Análises sociológicas à parte, não tardou muito para One Way Street fazer-me esquecer as confusões comezinhas. One Way Street é uma das sete maravilhas do mundo. Não tenho empatia suficiente para entender que alguém não pense o mesmo. Um involuntário grito/suspiro saiu dos meus pulmões antes mesmo de eu entender qual era música, com os primeiros acordes. Eles poderiam ter tocado só One Way Street, e seria suficiente.

Sem mais os vastos conhecimentos da minha juventude, logo após do show eu diria que a maior parte das músicas eram dos últimos discos solo do Lanegan. O setlist.fm confirmou minhas impressões: Phantom Radio e Blues Funeral foram a fundação do setlist. A sensação que esses discos me passam é “dançante” — comparando com o resto da obra do Lanegan, claro. Elas funcionam irrefutavelmente bem ao vivo. A platéia estava em polvorosa, ou quase tanto quando se pode esperar de pessoas que têm que conviver com a real possibilidade de vinte graus negativos. Do último álbum, senti falta apenas da I am the Wolf. Que não é “dançante”. Por outro lado, havia um pouco de frieza e impaciência no ar quando músicas mais antigas surgiam, até mesmo as do Bubblegum. E só posso atribuir isso a também uma consequência do nefasto inverno. Como se enfastiar com One Way Street?

No fim do show, depois do obrigatório bis, o guitarrista tirou uma foto da platéia, disse algum elogio genérico, e informou que Mark iria autografar discos lá no stand. Uma confusão se alastrou na saída, com a “fila” dos casacos se juntando à “fila” dos autógrafos. O guitarrista e alguém local tentavam colocar ordem em inglês e polonês, cochichando entre si: “Ele não vai vir se estiver assim, temos que organizar as pessoas!”. Valeu segurar os cinco quilos de casacos na mão durante o show, em vez de deixá-los no galochatório. Eu saí à francesa, seguindo uns outros casais (não aquele da pilastra, que já não devia mais estar lá, ao contrário da pilastra) para achar os últimos bondes. Às 23h30 estava em casa com um copinho de malinowa wodka, me perguntando como demorei tanto a me decidir ir escutar o Mark Lanegan. Nunca deveria passar essa chance, não importa quantas vezes ele já tenha ocupado um palco à minha frente.

Setlist

  1. When Your Number Isn’t Up
  2. Judgement Time
  3. Low
  4. The Gravedigger’s Song
  5. Harvest Home
  6. Quiver Syndrome
  7. One Way Street
  8. Gray Goes Black
  9. Deepest Shade (The Twilight Singers cover)
  10. Hit the City
  11. Ode to Sad Disco
  12. Riot in My House
  13. Harborview Hospital
  14. Floor of the Ocean
  15. Torn Red Heart
  16. Sleep With Me
  17. Death Trip to Tulsa

Bis:

  1. Methamphetamine Blues
  2. The Killing Season

Bandas associadas: Mark Lanegan

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