Main Square Festival 2008 (Radiohead, Sigur Rós e Vampire Weekend)

06/07/2008, Grand Place, Arras, França

Por Natalia Vale Asari em 05/02/2009

Créditos do show: Publicado originalmente no Números & Seres em 25/07/2008

Créditos da imagem: Foto do Radiohead por Jérôme Pouille sob licença CC by-nc-nd

Momentos surreais, imediatamente gravados com nitidez na memória. E, ironia, essa mesma estranha nitidez faz com que esses momentos pareçam ilusões.

Já se intrometeram dois fins de semana entre este e aquele em que vivi um desses momentos surreais. Na pequena cidade de Arras, a 160 quilômetros e 50 minutos de trem rápido de Paris, assistimos aos shows do último dia do Main Square Festival.

Para que eu não esqueça no futuro: sim, esses shows compensam cada uma das preocupação que os precedem, desde comprar ingressos, passagens, resevar hotel (quiçá por telefone, em francês), até ficar esperando horas atrás de uma multidão cuja altura média é muito maior do que a minha. Acredite-me, futura eu, vale a pena.

Aos shows que valeram a noite.

Vampire Weekend

Apesar da preguiça, chegamos cedo para ver o Vampire Weekend. Belo acerto. Primeira banda do dia, ela abriu para um público já razoavalmente grande. Havia até uns dois ou três grandes entusiastas no meio, que cantavam e pulavam em todas as músicas. O show foi surpreendentemente bom. Os músicos são bem carismáticos e o vocalista gastou um pouco do seu francês no palco (“Nous sommes the Vampire Weekend”; “C’est une chanson qui s’appelle Cape Cod”). Ele até fez o público acompanhar o refrão de One.

E assim o Vampire Weekend passou de completo desconhecido à minha banda preferida do momento. Eu, bem, eu agora sei que as músicas desses jovens não são para ouvir na rua, com fone de ouvido, ou eu sairia por aí dançando como uma maluca. Para uma explicação menos gráfica do som da banda, o melhor é ler a opinião desse senhor sobre o disco de debute deles, opinião que casa em muito com a minha.

The Wombats, The Dø

Só para dizer que não falei deles, uma linha sobre cada banda seguinte. O Wombats tem aquele visual moderninho de bandas moderninhas que eu não entendo muito bem; um show esforçado mas uma música sem sal; e um baterista que tentava falar francês e que desistia no meio da frase. O Dø é uma banda francesa que tenta fazer um show com instumentos inusitados; cuja vocalista me lembra por que eu não gosto de Cardigans; e músicas também sem sal. Pelo menos foram duas bandas que me lembram que a noite não foi completamente perfeita, e, portanto, que ela não deve ter sido uma mera ilusão.

Sigur Rós

A segunda banda mais aguardada da noite, o Sigur Rós faz um show lindíssimo. Todo o cuidado estético estampado nas capas dos seus discos foi remontada no show. Foi tão lindo que perdoou-se até mesmo o atraso causado pelos balões-ovos, uns enfeites no palco que demoraram minutos preciosos para serem inflados.

Os islandeses abriram com Svefn-G-Englar, uma das músicas mais assustadoras e belas de todos os tempos. A banda parecia confortável nos seus trajes, apropriadíssimos no seu mundo idílico (aquele fronteiriço à Terra do Nunca). O vocalista Jón þór Birgisson estava um pouco nervoso e tímido no início, mas, logo finda a primeira música, ficou menos tenso. E como canta o rapaz. E como cada nota de cada músico combina com o visual montado pelo Sigur Rós. E quanto gente havia naquele palco.

Outro ponto alto do show foi durante a Gobbledigook, música do último disco: uma chuva linda de papel, já quase no lusco-fusco. Apesar de todos os fru-frus, o Sigur Rós é uma banda madura e muito confortável no palco. Nada de patetices para conquistar o público. Aliás, para uma banda que alterna canções em uma língua inventada (hopelandic) e em islandês, não é pouco o sucesso que eles fazem mundo afora. A maioria das pessoas nem consegue praticar seu esporte favorito nos shows (confesso, é meu também): o de cantar junto.

E é, repito, um show encantado.

Radiohead

Finalmente, a causa de toda a comoção da noite: o Radiohead. Essa foi a segunda banda que descobri e abracei depois que comecei a me interessar de verdade por música. Como nunca eles passaram por terra brasilis durante os doze anos em que fiquei esperando, fui até eles.

Confesso que nunca conheci o Kid A, o Amnesiac ou mesmo o Hail to the Thief a fundo, apesar de tê-los ouvido bastante ao longo dos últimos anos. E, acima de tudo, nunca achei que algo superaria o Ok Computer. Eis que surge o In Rainbows para bagunçar toda a minha lógica.

Há muito a ser dito sobre uma banda que se mantém íntegra por quase duas décadas; que procura novas formas e ferramentas para fazer música; que não apenas tem um discurso ecologicamente correto, mas que o coloca em prática nas suas turnês; e que abraça novas tecnologias e ciência de ponta.

Mas isso tudo não passa de uma nota de rodapé perto da música que o Radiohead alcança. O Thom Yorke incorpora cada som e emite cada nota com todo o seu corpo. O resto da banda vibra alucinada para encaixar cada instrumento e barulho no tempo certo. E cria-se um delírio coletivo, daqueles que se teme profundamente depois de tantos regimes totalitaristas fascinarem as mentes de tantos povos. Delírio inofensivo, porém. Apenas músicas que não desgrudam da alma.

Para dar uma idéia do poder hipnotizador do Thom Yorke: ao falar um mero “bon soir”, ouvi ao redor as pessoas comentando como era perfeito o francês dele. Ninguém falou isso das frases completinhas do vocalista do Vampire Weekend.

Os efeitos pirotécnicos no palco ajudaram na impressão epiléptica. O jogo de luzes era controlado por uns três ou quatro técnicos, com seus notebooks, do teto do palco (que visão privilegiada!). Havia uma intricada combinação de luzes para produzir efeitos instigantes nas barras de metal que desciam do teto. Se não me engano, a iluminação toda era por LEDs, para economizar energia. Nos telões, ao invés da costumeira visão televisiva dos shows, havia sempre seis painéis, com várias visões do palco, monocromáticas. Eram telões muito artísticos, mas não ajudavam muito as pessoas de menor estatura, que não enxergam o palco muito bem atrás do mar de cabeças.

O show foi gigantesco, com duas voltas para o bis. Acho que tocaram quase o In Rainbows todo. Tocaram também um pouco de tudo dos discos anteriores, voltando até o The Bends. No Surprises e Paranoid Android, dois dos marcos da época em que conheci o grupo, estavam lá. Nude e Faust Arp, do novo disco, foram arrepiantes. National Anthem ganhou umas vinhetas em francês, que desconfio que a banda tenha gravado no dia anterior da TV do quarto de hotel. E as músicas mais cheias de eletronices, desde Idioteque até 15 Step e Bodysnatchers, ficam muito mais envolventes ao vivo.

Pena ter sido uma apresentação tão perfeita. Agora eu não sei quando eu vou enfim acreditar que eu realmente vi Radiohead ao vivo.

Setlists

Sigur Rós:

  1. Svefn-g-Englar
  2. Sæglópur
  3. Við spilum endalaust
  4. Hoppípolla / Með Blóðnasir
  5. Inní mér syngur vitleysingur
  6. Hafsól
  7. Gobbledigook
  8. Untitled VIII (Popplagið)

Radiohead:

  1. 15 Step
  2. Airbag
  3. There There
  4. All I Need
  5. Where I End and You Begin
  6. A Wolf at the Door
  7. Nude
  8. Pyramid Song
  9. Weird Fishes
  10. Climbing Up the Walls
  11. The Gloaming
  12. Faust Arp
  13. No Surprises
  14. Jigsaw Falling Into Place
  15. Reckoner
  16. Exit Music (for a Film)
  17. Bodysnatchers

Bis 1:

  1. Cymbal Rush (Thom Yorke)
  2. Videotape
  3. Paranoid Android
  4. Dollars and Cents
  5. Idioteque

Bis 2:

  1. House of Cards
  2. The National Anthem
  3. Street Spirit

Bandas associadas: Radiohead, Vampire Weekend, Sigur Rós

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