Isobel Campbell & Mark Lanegan

03/12/2008, Le Trabendo, Paris, França

Por Fabricio C. Boppré em 03/01/2009

Créditos da imagem: Foto por Natalia Vale Asari

Fui assistir ao show da dupla Isobel Campbell & Mark Lanegan para ver, sobretudo, o Mark Lanegan. Não há conotação homossexual alguma aí: Isobel Campbell é bem bonita, sabe usar muito bem sua voz doce e toca vários instrumentos, mas Mark Lanegan, bem, ele é Mark Lanegan. Para o público médio deste site seria desnessário citar suas credenciais, mas para entendimento de quem por ventura não saiba bem do que se trata, lá vai um resumo de sua folha corrida: frontman do Screaming Trees nos anos 90, cantor ocasional do Queens of the Stone Age, autor de um punhado de discos solos brilhantes, atualmente ocupando-se em parcerias com Greg Dulli, Isobel Campbell e o Soulsavers. Em seu currículo ainda constam algumas parcerias com o Nirvana. Sua voz inigualável pode ser ouvida também no disco único do Mad Season. Ou seja, o cara é algo como um pedaço ambulante da história do rock contemporâneo, ainda que sua personalidade avessa a badalações e holofotes tornem-no pouquíssimo conhecido entre o grande público. Me parece até que seus dois trabalhos com a Isobel Campbell, que carrega o apelo de ex-membro do Belle And Sebastian, fizeram Lanegan passar a ser bem mais conhecido do que era até então. Isso há de ser bom para humanidade.

O show ocorreu numa pequena casa de shows chamada Le Trabendo, situada no Parc de la Villette, em Paris. É um espaço não muito diferente de um bar, com um pequeno palco feito para shows desse tipo, para artistas de música folk ou qualquer outra coisa que atraia um público mais reduzido e ordeiro. É bem verdade que os dois discos lançados pela dupla fizeram bastante sucesso aqui na França, mas, levando-se em consideração que menos de seis meses antes eles já haviam passado por aqui (na ocasião, tivemos que sacrificar este show para ir ver o Nick Cave, que se apresentava em Paris na mesma semana) e com a crise econômica fazendo coçar o bolso de todo mundo, a aposta dos organizadores de que o pequeno Le Trabendo daria conta da audiência revelou-se acertadíssima. Chegamos cedo e o local estava fechado e vazio ainda, com duas ou três pessoas esperando. Nem sabíamos ao certo se estávamos no lugar correto, de tão deserto que o local estava… Mas essa dúvida logo desapareceu, quando uma porta perto de onde estávamos se abriu e Mark Lanegan passou por ela. Confesso que senti um arrepiozinho quando ele passou pelo meu lado, afinal, ali estava o homem de Nearly Lost You. Um cara que dividiu vocais com Kurt Cobain. O responsável por I’ll Take Care Of You, um dos meus discos preferidos.

Quando o local abriu não havia nem 30 pessoas na fila atrás de nós, e conseguimos um lugar junto ao palco, a menos de dois metros do microfone cujo pedestal era mais alto, uma aposta segura de que assim estaríamos mais próximos do mito Mark Lanegan. Mas antes dele e de Isobel Campbell aparecerem, assistimos a um pequeno show de abertura de uma cantora francesa, música bem agradável até, lembrando bastante o tom soturno dos primeiros trabalhos da Cat Power. Finado o show da francesinha, não demorou muito para que entrassem os instrumentistas da atração principal, seguidos por Isobel e depois por Mark. Sob aplausos, se aprumam rapidamente e iniciam o espetáculo com Seafaring Song, também faixa de abertura do álbum Sunday At Devil Dirt, lançado este ano.

Acho os dois discos da dupla legaizinhos, não muito mais do que isso. Aqui e ali têm músicas realmente boas, mas no geral, nem Sunday At Devil Dirt nem Ballad Of Broken Seas me pegaram muito, não. Mas ao vivo a coisa funciona bem melhor, o show foi muito bom, em função principalmente do cenário reduzido e intimista. Por não ser tão conhecedor dos álbuns citados, não posso discorrer muito sobre o repertório, então lá vão algumas palavras sobre a performance da dupla. O que primeiro me chamou a atenção foi um comportamento curioso de Isobel, que iniciou-se logo nos primeiros segundos da primeira música: ela olhava a todo instante para Lanegan, um olhar sério, que inicialmente me pareceu algo preocupado, mas que aos poucos, na minha percepção, foi revelando-se um olhar de admiração e respeito. Ela, ali no palco, fazia parte do show e ao mesmo tempo admirava a atuação de Lanegan, deixava-se guiar por ele. Um negócio muito interessante. Lanegan é a voz principal da maioria das canções enquanto que Isobel faz backing vocals e segundos vocais (além de tocar alguns instrumentos), sendo o papel de protagonista bem natural para ele. Mas a reverência silencionsa com que Isobel mirava seu parceiro era sensibilizante. E certamente ela não estava sozinha neste exercício: o local foi enchendo aos poucos, e as 200 pessoas que acabaram reunindo-se ali logo estavam todas fascinadas com o vozeirão e a presença de Lanegan.

Presença esta que merece um parágrafo dedicado. É notório o estilo de Lanegan no palco, estático, sem diálogo algum com o público, cantando como se o fizesse unicamente para si próprio, então isso não foi lá nenhuma surpresa. Ele nem precisa mesmo fazer nada além disto, cantar, coisa que faz como ninguém. E seu esmero nas canções é hipnotizante, sua voz soa pungente e emocionante como nos discos que grava. Vê-lo no palco, cantando com os olhos fechados na maior parte do tempo, se mexendo quase nada, deixa uma impressão forte e inesquecível.

Alguns momentos que posso ressaltar foram a execução de Backburner, uma música diferentona e muito boa do Sunday At Devil Dirt, com Lanegan abusando do tom grave de seu instrumento de trabalho; (Do You Wanna) Come Walk With Me, que rendeu o único sorriso de Lanegan na noite, quando Isobel errou um refrão e fez uma brincadeira com seu parceiro, que lhe devolveu um leve erguer dos cantos da boca; a belíssima The Circus Is Leaving Town, onde Lanegan brilha intensamente; e Creeping Coastline of Lights, música do I’ll Take Care Of You. Eu havia lido que nestes shows costumam rolar umas músicas da carreira solo de Lanegan, principalmente deste álbum, e Creeping Coastline of Lights foi uma ótima pedida.

Isobel Campbell e Mark Lanegan nos deram uma linda noite, e passei até a ter mais boa vontade com os disquinhos da dupla. Mas o principal legado deste show, a lembrança que sem dúvida ficará, é a dos olhares reverenciosos de Isobel em direção à Lanegan, enquanto este, impassível, cantava. Um gesto perfeito para simbolizar o que representa Mark Lanegan, não só pelo seu passado, mas principalmente pelo seu talento ainda tão produtivamente empregado.

Setlist

  1. Seafaring Song
  2. Deus Ibi Est
  3. Who Built the Road
  4. Creeping Coastline of Lights
  5. The False Husband
  6. Ballad of the Broken Seas
  7. Keep me in Mind Sweetheart
  8. Saturday’s Gone
  9. Backburner
  10. The Flame That Burns
  11. Free to Walk
  12. Rambling Rose
  13. Honey Child What I Can Do?
  14. Salvation
  15. (Do Tou Wanna) Come Walk With Me?
  16. Something to Believe
  17. The Circus is Leaving Town

Bis:

  1. Come on Over (Turn Me On)
  2. Ramblin’ Man
  3. Wedding Dress

Bandas associadas: Isobel Campbell & Mark Lanegan

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