Elbow

17/04/2009, Bataclan, Paris, França

Por Natalia Vale Asari em 20/05/2009

Créditos da imagem: Foto por Fabricio Boppré.

Comecinho dos Simpsons. “Eu já vi esse episódio”, penso comigo. Mas não consigo de jeito nenhum lembrar o que vai acontecer depois. Culpa da estrutura padrão de muitos Simpsons: uma introdução de cinco minutos muito engraçada e muito díspare do resto da história.

As músicas do Elbow são o arquétipo de um episódio dos Simpsons. Às vezes, os dois primeiros versos da letra não têm nada a ver com o restante. Starlings, por exemplo, começa com “Como o primeiro-ministro ousa recusar o meu convite?” para, logo em seguida, confessar que esse desvio inicial era só papo-furado para ir paquerar uma garota no trabalho dela. O som também pode variar muito ao longo de uma música. Às vezes são saltos inesperados, como em Newborn; às vezes são mudanças sutis, quase-estáticas, constantes, refrões instáveis. O que quer que seja, a música fica aterradoramente diferente no fim, ainda que com muitos dos ecos da estrutura inicial.

No fim do show do Elbow, sentíamos todos exatamente aquilo que achávamos que íamos sentir no início. Mas era, ao mesmo tempo, diferente e mais profundo do que achávamos que ia ser. Ainda com One day like this tinindo nos ouvidos, o Elbow partiu do palco. Partida definitiva. A platéia, solitária, acordando lentamente do hipnotismo, aos poucos percebia que não haveria bis. Não houve bis. Mesmo antes do fim súbito, já sabíamos que o fim seria de partir o coração. Mesmo já no início do show sabíamos disso.

Voltar ao início do show, em um texto, significa retomar a jornada que foi o show. Isso é imprudente. É como expor um carta de amor para o mundo, uma dessas cartas que não se mostra para ninguém, nem mesmo para a pessoa a quem a carta se destina. Com palavras mal arranjadas, sem veia de grande cineasta, sem o ritmo certo, sem a tonalidade e a harmonia, não passa de uma tolice brega. Mas escreve-se do mesmo jeito.

No início, então, houve a guerra de trompetes. O palco contava com uma pequena orquestra de quatro garotas à frente do cubo mágico mais fácil do mundo. E surgiram o cara da bateria e o cara do teclado. E vieram em seguida os outros três caras, trompetes a postos, para criar a “introdução” de Starlings. Sabe aquelas músicas em que você fica ansioso para que se comece a cantar? Starlings não é uma dessas. Nenhuma música do Elbow deixa ninguém ansioso.

Primeira música recolhendo seus tentáculos, público já conquistado, Guy Garvey pegou um papel amassado e tentou ler umas três frases em francês. Depois da pequena interrupção, emendaram Bones of You e Mirrorball, fechando a sequência das três primeiras músicas do The Seldom Seen Kid. Mirrorball, aliás, mereceu um jogo de luzes sobrenatural: dois hemisférios de bolas de espelho no palco giravam e projetavam pontos brilhantes e estrelas em todo o recinto. Correção: templo.

Mais Guy Garvey falando durante as músicas, perguntando se estávamos todos bem. E se tudo continuava bem. Se ainda estávamos bem, e que ele se sentia extremamente rude por falar em inglês. E assim foi durante as músicas, um pouquinho do humor sutil, às vezes nem mesmo engraçado, do cara que dá voz ao Elbow. E, ao contrário do que possa parecer, ele sai da história como um cara legal e gentil, e não pateta. E extremamente carismático.

Piadinhas descontraídas, nem sempre engraçadas, não dizem muito sobre o poder sobre o público que o líder do Elbow detém. Porque o público se deixa logo levar pelas suas sugestões. É claro que antes somos conquistados pela conjunção brilhante de cada um dos instrumentos do quinteto, envolvendo-nos com cada pequena textura e transição charmosa, fluida e desarmônica. E as dissonâncias é que dão corpo às músicas: nos truques de guitarra, em uma batida a mais da bateria, nos Ss encorpados e estranhos de Garvey. E, pronto, lá estamos nós em delírio coletivo.

Seguiram músicas do Leaders of the Free World, sem as cordas clássicas. Depois voltaram as garotas e mais músicas do último disco. E então Newborn, do Asleep in the Back, aquela que começa acústica e com um cadáver na banheira, termina em uma zoeira e sorrisos muitos minutos depois, e nem se sabe como se foi parar ali. Redescobri Station Approach e Weather to Fly, especialmente lindas ao vivo. E fecharam com mais do último disco, o hino de One Day Like This. Pessoas que nunca batem palma no ritmo da música em um show bateram palma mesmo assim, e com gosto.

Assim fechou-se a noite, sem bis, como lamentei já no começo. Do mesmo modo como o show terminou repentinamente, também o relato dele tem que uma hora chegar ao fim. Eis um fim nonsense, ao estilo dos Simpsons e daquela carta que você nunca vai enviar. Um show do Elbow é lindo como a expectativa do milímetro a menos que faz os nossos rostos ficarem próximos, muito próximos, ainda sem se tocar.

Setlist

  1. Starlings
  2. The Bones of You
  3. Mirrorball
  4. Leaders of the free world
  5. The Stops
  6. Station Approach
  7. Grounds for Divorce
  8. The Loneliness of a Tower Crane Driver
  9. Newborn
  10. Some Riot
  11. Weather to Fly
  12. One Day Like This

Bandas associadas: Elbow

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