2º Campari Rock (Mission of Burma, Supergrass, Nação Zumbi, Walverdes, entre outros)

06/04/2006, Atibaia (SP), Brasil

Por Fabricio C. Boppré em 04/2006

Créditos da imagem: Foto do Mission of Burma copiada do site oficial do evento.

Um grande evento este 2º Campari Rock, em função principalmente das apresentações matadoras de Mission of Burma, Supergrass e Nação Zumbi. A primeira edição do festival, ocorrida no ano passado, teve como atração principal um MC5 reforçado de Mark Arm, ou seja, não foi coisa pouca. Mas, desde os primeiros boatos sobre a vinda da lenda americana Mission of Burma nesta nova edição, a coisa ganhou ares de evento antológico e imperdível, que foi o que de fato sucedeu-se na Fazenda Hípica Atibaia. Mas comecemos do começo.

Após a empolgação ocasionada pela confirmação da vinda do Mission, novo fator a se comemorar: o evento aconteceria em Atibaia, cidade vizinha a Piracaia, onde mora um grande amigo, que por sinal carrega o mesmo sobrenome que eu — sim, somos primos, mas meio distantes, de modo que nos tratamos mais como amigos do que como consanguíneos. Aliás, ele, morador de Piracaia, em SP, eu morador de Florianópolis, em SC, viemos a nos conhecer pela internet alguns anos atrás justamente em função de um hobby em comum: a boa música. Tratativas feitas, hospedagem acertada, ingressos comprados, era só esperar pelo show do Mission of Burma, que teria como belos bônus os pernambucanos da Nação Zumbi (show que eu já tinha tido duas oportunidades anteriores de assistir, mas acabei perdendo ambas em cima do laço) e os valorosos gaúchos do Walverdes, já velhos conhecidos de showzinhos aqui, festivais acolá.

E o Supergrass? Bem, o Supergrass nunca foi uma banda que me despertasse atenção, na verdade, nunca gostei da música outrora cartão-de-visitas deles, Allright, e possivelmente por culpa dela nunca me preocupei em escutá-los com atenção. Até algumas semanas antes do evento, eu os considerava algo como a quarta força da escalação. Acontece que, nesse intervalo entre a divulgação do festival e sua realização, caiu em minhas mãos o Road To Rouen, disco lançado pelos ingleses no ano passado. Não tinha por que não escutar, e essa foi uma das minhas mais acertadas decisões nos últimos tempos: um belíssimo álbum de uma belíssima banda, descoberta antes tarde do que nunca — é, nunca esse chavão foi melhor aplicável. Corri atrás do resto da discografia dos caras e pronto, estava ainda mais empolgado para assistir o Campari Rock Festival. Só continuo não gostando de Allright.

Vamos aos fatos: o evento contou com uma estrutura bastante elogiável, um local de tamanho bem folgado para o público esperado, que parece ter sido de 5.000 pessoas. Antes de ter conhecimento desse número, eu estimava umas 3.000 pessoas lá, confirmando que, dentre minhas poucas habilidades, não está a de olhar para um monte de gente e dizer quantas cabeças são. O palco me pareceu legal (confesso que é um fator no qual costumo reparar muito pouco) e o som no começo estava ruim, mas foi melhorando sensivelmente ao longo da primeira metade do festival. No fim, o volume expelido pelas enormes caixas sonoras era tal que certamente será lembrado no futuro como mais um dos motivo para a perda de audição precoce a que todos nós, frequentadores regulares de shows, estamos destinados.

Chegando próximo à tal Fazenda Hípica, deu de ouvir o Gustavo Mini se esgoelando em alguma canção do último disco do Walverdes, Playback, bolachinha legal, ainda que inferior ao Anticontrole, na minha opinião. Infelizmente, a procura por vaga no estacionamento (um amplo gramado que iria se transformar num belo lamaçal caso a chuva, que estava ameaçando cair, caísse) nos fez perder o show dos gaúchos. Mas, para falar a verdade, nem tivemos chance de ficar muito chateados com isso, uma vez que a entrada se deu banhada de alívio. Explicando: junto conosco veio o filho desse meu primo, que tem 16 anos. Como a entrada era somente para maiores de 18 anos, se o pessoal implicasse com o garoto teríamos incomodação na certa, e não haveria alternativa a não ser rodar uns 50 quilômetros para deixá-lo em casa e voltar à Fazenda Hípica. Sorte que os recolhedores de ingressos estavam mais preocupados em conferir a autenticidade do papelzinho do que o RG de cada um dos ingressantes, e assim passamos incólumes. Devo citar que antes do Walverdes rolaram apresentações dos brazucas Digitaria e Montage, bandas que eu não conheço.

Entramos com o Ludovic subindo ao palco. Eu tinha curiosidade de ver estes paulistas em ação, devido ao bom álbum de estreia dos caras, Servil. O show foi intenso, visceral, guitarras no talo, com o baixista/vocalista exagerando um pouco na performance dramática. Foram prejudicados com o som embolado ainda — não dava de entender bulhufas do que o cara cantava, ainda que talvez mesmo um som cristalino não fosse ajudar muito neste sentido. Mas gostei do que vi, a gana dos caras é louvável, e sua vocação para o barulho parece bastante honesta e bem conduzida instrumentalmente. Saíram agradecendo ao público ainda esparso e ao pessoal do Walverdes, reconhecidos heróis do underground nacional.

Na sequência, subiu ao palco mais um grupo gaúcho, o Cachorro Grande. Não gosto de Cachorro Grande, portanto não me alongarei muito. Apenas sou obrigado a admitir que a jam instrumental que fizeram no final foi bem massa. Mas fora isso, boinas, terninhos e uma musiquinha mixuruca. Saíram ovacionados, confirmando meu desacordo com o mundo.

Depois, o primeiro grande momento da noite. Em total contraste com o Cachorro Grande e seu figurino, aparecem no palco três senhores, que, descontando a calça ligeiramente exótica de Roger Miller, trajavam roupas normais; experientes profissionais prestes a mostrar seu trabalho, e não a participar de alguma festinha à fantasia. Ali estava o Mission of Burma, banda lendária de Boston, pai ideológico de gente fraca como Fugazi e R.E.M., nascida no mesmo ano que eu. Um grupo que, ainda que não tenha o apelo de um Sonic Youth ou de um Hüsker Dü, é tão bom e importante quanto (se não fosse a curiosa carreira dividida em duas devido a uma interrupção de quase 20 anos, eu não precisaria estar dizendo isso).

Seu show foi espetacular: desfilaram com maestria clássicos como Trem Two, That’s When I Reach For My Revolver e This Is Not A Photograph, além de sons extraordinários do primeiro disco lançado após a volta, OnOffOn, como Wounded World, Dirt, Absent Mind e The Enthusiast. Rolou ainda 2wice, do disco novo que deve sair nos próximos tempos, e Dumbells, pelo o que entendi, solicitada por e-mail por um fã alucinado que estava ali grudado no palco. A banda, completando 4 anos após a reunião (haviam debandado em 1983 e voltaram em 2002), está afiada, tocando muito. Além de abusarem da precisão em seus instrumentos de trabalho, os caras revezam-se no vocal (incluso no rodízio o animal baterista Peter Prescott) e contam com o ótimo apoio de Bob Weston (que toca no Shellac com Steve Albini) nos efeitos extras, muito bem encaixados. Um show perfeito para quem curte um som sem frescuras (mas longe da simploriedade punk-rock-style), infestado de riffs, com doses iguais de melodia, dissonância, sujeira e quebradeira rítmica. A dica é de graça: o disco novo, The Obliterati, já pode ser encontrado pelas vias ilegais tradicionais, e com alguma sorte sai por aqui, no rastro da passagem histórica do power trio pelo Brasil. Vale a pena escutar, é uma absurdo de bom.

Pausa para o cachorro quente de 6 e a água de 3 reais, noite já escura, e, pela montagem do palco, fica claro que o próximo show é o da Nação Zumbi. Apesar de ser fã dos caras já há alguns anos (e simpatizante da ideia de que eles vem ficando cada vez melhores, a despeito da morte de Chico Science em 1997), eu realmente não esperava pelo o que estava por vir. Um show da Nação Zumbi é algo que você só tem noção depois que assiste — definitivamente, algo para presenciar, e não para simplesmente ler. Os caras geram no palco uma massa sonora avassaladora, resultante dessa química perfeita forjada por eles mesmos, que mixa percussão (toneladas), guitarra (a competência de Lúcio Maia em seu instrumento é impressionante), psicodelia e o sotaque nordestino das letras e do vocal de Jorge Du Peixe. Se nos discos já é algo bastante interessante, ao vivo é grandioso. O público em comunhão perfeita com a banda foi arrepiante — para se ter uma ideia da mágica da coisa, a chuva rápida que caiu no refrão de Mormaço (“Vai chover/Vai chover”) foi algo natural. A Nação mandou, e a chuva caiu, simples assim.

Depois do grande show dos pais do manguebeat, bem que podíamos ir direto pro Supergrass. Como não estamos em um mundo perfeito, tinha um show do Ira! no meio. Ok, estou sendo maldoso, na verdade conheço muito pouco do Ira!, mas o suficiente para saber que não gosto nem um pouco da música da banda. Assistir a um show deles só serviu para reforçar bem isso. Desculpem-me os fãs, mas o tipo de som que os caras fazem é dos mais irrelevantes de acordo com meus critérios, por isso nem vou entrar no mérito de dizer o que achei do show. Para isso, também vou relevar o fato de terem destruído um clássico do Jimi Hendrix (Foxy Lady), outro do Clash (Train in Vain) com uma risível tradução em português, além do ridículo discurso infantil contra “críticos que ouvem MPB cabeça” ou alguma merda desse tipo, proferida pelo guitarrista Edgar Scandurra.

Finalmente finado o show do Ira!, era só esperar o Supergrass para fechar a noite com chave de ouro. Pena que essa espera foi bem maior do que vinham sendo os intervalos entre as apresentações, e, passada uma hora de expectativa, as primeiras vaias começaram a ressoar — ao menos serviu para abrandar a chuva que em certo momento começou a cair mais implacável (nos fazendo lembrar do estacionamento). Finalmente apareceram os ingleses para delírio do povo que claramente estava ali em sua maioria para vê-los, e a banda retribuiu a gentileza sem maior cerimônia mandando Lenny e Caught by the Fuzz em um sequência inicial alucinante. Rolaram mais algumas dos discos anteriores até que Gaz Coombes, em seus indefectíveis suspensórios, anunciou que a banda tocaria algumas canções de Road to Rouen, o que me deixou bastante feliz. Rolaram Kiss of Life, Road to Rouen (cujos trechos iniciais de guitarra me lembram muito os sons do Led Zeppelin do Houses of the Holy), a excepcional Tales of Endurance (parts 4,5 & 6), a preferida pessoal Kick in the Teeth, além de uma sessãozinha violão/teclado com as ótimas St. Petersburg (essa protagonizada inteiramente por Gaz, em performance irretocável), Low C e Roxy, tudo isso emoldurado por um pano de fundo com a bela capa de Road to Rouen. O pessoal vibrou quando o líder da banda tirou o violão dos ombros e disse que era hora de voltar ao rock ‘n’ roll, e eu me dei por satisfeito. Pouco depois disso, cansados e temendo a confusão na saída da turba após o fim do Supergrass, resolvemos rumar para casa, trilhando o caminho da saída ao som empolgante de Grace.

O 2º Campari Rock foi bastante além das minhas expectativas, que já eram bastante altas. Curitiba Rock Festival e Tim Festival terão que se esforçar para manter o alto nível estabelecido nesse primeiro semestre de 2006 pelo Campari Rock — se tiverem êxito nessa empreitada, é certo que teremos um 2006 tão memorável quanto foi 2005, quando Pearl Jam, Mudhoney, Wilco, Arcade Fire, Sonic Youth, Flaming Lips, Stooges, entre outros, passaram pelo Brasil.

Bandas associadas: Walverdes, Mission of Burma, Nação Zumbi, Supergrass

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