Where You Been (LP)

8/10

Por Alexandre Luzardo, publicada em 10/2004

Dinosaur Jr.

Em 1993, quando Where You Been foi lançado, o Dinosaur Jr era uma espécie de “bola da vez” do rock alternativo. Todos estavam em busca da próxima banda que iria despontar para as cabeças da Billboard e vender milhões, e, na boa, poucos tinham as credenciais do Dinosaur Jr.

Vindo de dois grandes discos, verdadeiros clássicos do rock independente da década de 80, You’re Living All Over Me e Bug, a banda se tornou um referencial. Era o exemplo do Dinosaur Jr (e do Sonic Youth, diga-se) que Kurt Cobain perseguia ao associar o Nirvana com uma grande gravadora. O Dinosaur Jr havia fechado com a Warner e passou no “teste de integridade” ao lançar seu primeiro álbum pela major, o bom Green Mind, em 1991, mantendo sua (um tanto restrita) base de fãs. Só que o sucesso de Nevermind mudou as regras do jogo, e a expectativa para Where You Been era seguir um caminho semelhante rumo ao topo.

Não foi exatamente o que aconteceu e daria para gastar umas dez páginas tentando entender o porquê, mas não vem ao caso. O fato é que o Dinosaur Jr fez a sua parte em Where You Been, refinando o seu som sem perder o que de melhor caracteriza a banda. E estamos falando da guitarra de J Mascis. Aliás, J Mascis deveria ser o guitar hero de sua geração — o cara faz o que quer com o instrumento, solando o tempo todo e fazendo da guitarra o centro das atenções em todas as músicas. Os cínicos diriam que essa era a única opção de Mascis, já que ele não canta nada mesmo. Aliás, o vocal de J Mascis é a opção mais votada na hora de explicar por que o Dinosaur não obteve um sucesso comercial mais expressivo. Mas também não é por aí: o jeito resmungão, preguiçoso e desinteressado do vocal de Mascis era uma antítese aos vocais carregados de emoção da era grunge, e acabou por influenciar outras bandas como o Pavement, o Cake, e várias outras onde os vocalistas, intencionalmente ou não, seguem um jeito de cantar que remete ao Dinosaur Jr. Em Where You Been, o peculiar e idiossincrático vocal de J Mascis brilha em Not the Same, com um falsete à la Neil Young (grande influência do cara) e surpreende nos agudos inesperados da balada What Else Is New.

Where You Been tem muito mais a oferecer, como os pseudo-hits Start Choppin e Get Me. A primeira é o mais próximo do pop que o Dinosaur Jr poderia chegar, com riffs de apelo instantâneo e um de seus melhores refrões. E os solos! O primeiro deles pontua a metade da música com muita distorção e barulho enquanto a cozinha segura a onda, retomando o riff suingado da introdução em meio ao solo de maneira marcante. Já Get Me é provavelmente a melhor melodia que J Mascis já compôs. Pode até ser um pouco longa demais (tem quase 6 minutos), mas a melodia é tão boa que o estrago é imediato, basta uma única audição para nunca mais se esquecer dela.

Em Out There, Mascis já entra solando de cara com uma naturalidade impressionante, longe da pretensão dos virtuosos. É talento mesmo. A música é praticamente inteira acompanhada pela guitarreira desconcertante do cara, na parte final não respeitando nem os trechos com vocal. A já citada What Else Is New surpreende não só pelo agudo fora de lugar de Mascis, mas por contar com arranjo de cordas. É até supérfluo e não tem grande efeito na música, mas é quase um choque para quem se apaixonou pelo som tosco e garageiro dos primeiros trabalhos da banda. A produção de Where You Been foi do próprio J Mascis, e no geral a banda desacelerou as músicas e limpou bastante o som. A balada semi-acústica Goin’ Home mostra esse lado mais cristalino do som do Dinosaur Jr no disco. Ao mesmo tempo, a pegada não desapareceu por completo: as rápidas On The Way e Hide garantem o pique do disco em meio às músicas mais lentas.

Talvez o único ponto realmente fraco do disco seja Drawerings, que herdou exatamente a mesma base e a batida de Get Me, claro, sem a mesma melodia vocal. O pior é que na sequência do disco Drawerings vem imediatamente depois de Get Me — a repetição fica óbvia e é cansativo ouvir duas músicas tão parecidas. Trata-se de um deslize tão evidente e tão fácil de ser evitado que se torna até difícil entender por que a banda simplesmente não usou Drawerings como uma B-side ou pelo menos embaralhou melhor a ordem no disco.

Se Where You Been não supera os lendários You’re Leaving All Over Me e Bug, tanto no som quanto no impacto e na importância, o disco tem virtudes suficientes para se justificar entre os melhores trabalhos do Dinosaur Jr, talvez o melhor disco deles na década de 90. Se fez o sucesso que deveria, realmente não vai fazer diferença, e o melhor dessa história é que a grande expectativa em torno do álbum fez com a Warner apostasse alto. Resultado: o disco encalhou e hoje é facilmente encontrado em sebos a preços módicos. Vale o investimento.

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