Washing Machine (LP)

8/10

Por Alexandre Lopes, publicada em 2004

Sonic Youth

Após três obras-primas consecutivas (Daydream Nation, Goo e Dirty), o Sonic Youth arriscou seu prestígio adquirido investindo no caráter mais estranho de seu som, em Experimental, Jet Set, Trash And No Star. Como o próprio nome do álbum já dizia, o quarteto nova-iorquino resolveu levar às últimas consequências as nuances pouco convencionais que sempre caracterizaram sua versão do punk nova-iorquino, com fusões de jazz e barulheiras guitarrísticas (o tal “no wave”, como alguns diriam). Desfrutando ainda da sua parcela de sucesso conquistada com Dirty na recente explosão do rock alternativo, o Sonic Youth não teve problemas em continuar sua história por caminhos mais tortuosos. Em 1995, com Washing Machine, não poderia ser diferente.

O disco inicia-se com a música pop mais barulhenta da banda depois de 100% e Sugar Kane, de Dirty: Becuz. A voz de Kim Gordon emula uma interpretação com um certo teor sexy em cima de uma linha de guitarra intermitente, que consiste de apenas quatro notas básicas. Aos poucos, estas quatro notas vão sendo floreadas (ou castigadas, como preferir) pelas guitarradas de Thurston Moore e Lee Ranaldo. No meio da faixa, o barulho chega a ganhar uma identidade mais forte com um crescendo turbinado por um pedal wah-wah. As batidas de Steve Shelley não deixam por menos: o baterista encaixa variações do ritmo principal, para, depois do caos guitarrístico, voltar ao feijão com arroz do início, como se a música nunca tivesse deixado de ser aquelas mesmas quatro notas repetitivas da introdução. Uma abertura e tanto para um disco e tanto.

Já em Junkie’s Promise, os dois segundos introdutórios da faixa são agraciados por uma microfonia. Thurston Moore vocifera “cem dólares costumava ser mais do que o bastante”, dando início a uma narrativa sobre um drogado que não consegue largar o vício. As semelhanças com o caso de Kurt Cobain (vide as frases “você sabe que eu me odeio, mas eu amo todo mundo” e “eu não posso fugir de mim mesmo”, sentenças bem semelhantes à psique do falecido vocalista do Nirvana) são até de certa forma gritantes, mas o próprio Thurston assegurou que não escreveu a letra conscientemente querendo abordar esta história. A faixa segue um ritmo moderado com um peso sinistro e arrastado, passa por um pequeno interlúdio crescente, e logo dá lugar a uma barulheira insana e claustrofóbica, que cessa de maneira repentina.

Após dois grandes petardos marcados pelas cacofonias guitarrísticas do Sonic Youth, Saucer-Like diminui um pouco o ritmo. Sua introdução dá um ar de suspense, mais uma vez com as guitarras anunciando um momento de explosão. Só que desta vez a tal explosão não ocorre, e o clima de suspense da introdução cede lugar a uma construção melodiosa, com os vocais falados de Lee Ranaldo. Impressionante a serenidade causada pela faixa, com dedilhados que chegam a lembrar pianos. Saucer-Like então retoma o clima de suspense da introdução, desta vez com Ranaldo adicionando mais uma vez o pedal wah-wah, resultando em uma atmosfera sinistra, dando a certeza que desta vez o tal ataque guitarreiro se consumará. Ledo engano: mais uma vez, a banda resolve retornar ao clima sublime, com a faixa acabando logo em seguida. É o Sonic Youth optando pela sutileza ao invés de caos.

Se o objetivo de Saucer-Like era frustrar o ouvinte com uma série de pistas falsas, a faixa-título aparece para dar uma balanceada nas perspectivas do ouvinte. Washing Machine é uma música com um andamento mais uniforme, pelo menos nos minutos iniciais. Logo, a música entra em um túnel sem saída, mais uma vez com as guitarras ditando o rumo nada convencional da composição. Difícil descrever em palavras o efeito que aqueles barulhos ocasionam, talvez seja algo parecido com uma enxurrada de várias guitarras com efeitos estranhos. Algo como se uma névoa pairasse sobre a canção, fazendo com que tanto a banda quanto o ouvinte percam-se em uma neblina espessa. Depois disso, o rumo é completamente diferente. A faixa muda bruscamente para um andamento experimental, com belos solos (leiam-se solos à la Sonic Youth, nada de arpejos ou escalas com quinhentas notas por minuto) de Lee Ranaldo, dilapidando a viagem que acabou de se encerrar. Surreal.

Unwind apresenta a linha mais melódica do disco até então. O tom sublime da voz de Thurston Moore alia-se ao clima singelo da canção, dando um efeito que pode chegar a ser até tedioso, de tão longa a calmaria que impera. A faixa não chega a ter uma variação de andamento tão brusca quanto as anteriores, preferindo um ritmo mais sutil. É como se Unwind estivesse preparando terreno para Little Trouble Girl, que vem a seguir.

Famosa por causa do épico “dueto das Kims” (Kim Gordon e Kim Deal, do Pixies e Breeders), a faixa chegou a ganhar um videoclipe que foi veiculado constantemente na MTV, no ano do lançamento do álbum. Com guitarras que emulam sons de piano e melodia tradicional, Little Trouble Girl chamou a atenção de algumas pessoas que nem tinham conhecimento da real sonoridade do Sonic Youth.

Com uma introdução estranha, No Queen Blues é mais uma faixa que ataca com três guitarras (Kim Gordon resolveu trocar o baixo por mais um instrumento de seis cordas em algumas músicas do disco anterior). A base principal da música, lenta e cadenciada, dá a oportunidade para Lee Ranaldo lançar uma sequência de solos harmoniosos a cada frase que Thurston Moore canta, como se a guitarra respondesse a cada sentença do vocalista. A música encerra com uma parede de guitarras ensandecida, semelhante à de Junkie’s Promise.

Em seguida aparece o momento embaraçoso do disco; Panty Lies é com certeza a faixa mais satírica que o Sonic Youth já gravou. Kim Gordon canta pausadamente, acompanhando a linha de guitarra, o que dá um certo teor humorístico à música. Como se não bastasse, no final, aparece um pequeno coro, acompanhando a mesma melodia da guitarra, causando um momento absolutamente ridículo. O ouvinte pode ficar na dúvida se a intenção do Sonic Youth era realmente gravar uma música séria ou apenas inserir um momento descompromissado dentro de um álbum tão experimental. E, ainda neste momento descompromissado, aparece uma faixa não creditada. Esta música escondida nada mais é do que uma versão sem distorções do riff principal de Becuz, aquela mesma canção pop barulhenta das quatro notas…

Em Skip Tracer, as melodias faladas de Lee Ranaldo dão as caras mais uma vez. As letras do guitarrista sempre parecem conter um ar saudosista e, nesta música em especial, Ranaldo conta a história de uma banda de Nova Iorque (talvez o próprio Sonic Youth). A faixa chega ao fim com uma rápida exaltação dos instrumentos, como se aparecessem ali urgentemente para compensar a estrutura repetitiva da música.

Assim que começa a última faixa, o ouvinte despreparado, que já percorreu com seus tímpanos os caminhos mais improváveis do rock neste disco do Sonic Youth, pode achar que finalmente irá ouvir uma música mais acessível que a radiofônica Little Trouble Girl. The Diamond Sea é ao mesmo tempo a cereja e o recheio do bolo; os minutos iniciais são talhados em uma delicada melodia agraciada com efeitos de guitarra que expressam, ao mesmo tempo, paz de espírito e melancolia inigualáveis. A voz soturna de Thurston Moore não arrisca chegar a tons altos, mas mesmo assim a melodia com letra surrealista segue uma harmonia indescritivelmente bela em sua simplicidade. Mas logo o “oceano de diamantes” se abre, cedendo espaço para mais uma grande viagem sonora, em um espetáculo delicadamente pincelado por guitarras singelas. Logo, o momento mais sublime do disco culmina em uma cacofonia de guitarras e microfonias que chegam a testar a paciência do ouvinte. O caos guitarrístico se estende até cerca de sete minutos, para depois tentar retornar aos poucos à melodia inicial, mas com um andamento mais arrastado. Este esforço dura menos de dois minutos, e The Diamond Sea se prolonga mais uma vez nos efeitos viajantes das guitarras. A viagem se encerra em dezenove minutos e trinta e cinco segundos e, se o ouvinte resistiu à vontade de apertar o stop no CD player, obteve uma longa lição sobre o que se tornaria cada vez mais disseminado no meio do rock alternativo: o princípio básico do post-rock de Slints, Mogwais e outros. The Diamond Sea é, sem dúvida, mais um clássico absoluto do Sonic Youth. “E você nunca saberá o quão perto você chegou, até que você se apaixone pela chuva de diamantes”…

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