Up (LP)

10/10

Por Vicente M., publicada em 2003

R.E.M.

As mudanças na história de uma banda podem acontecer por diversos motivos, sendo que com as bandas de categoria elas ocorrem por forças artísticas acima de tudo. A inconformidade com a mesmice, a indiferença com o apelo popular, o middle finger para o mercado, a busca pelo desafio e pela exploração marcaram a carreira de muita gente que muitas vezes abriu mão do dinheiro fácil em prol da satisfação pessoal.

O R.E.M. pode ser considerado um destes casos onde as forças são dirigidas por decisões pessoais e instinto artístico, fazendo com que a mesma banda gravasse em uma mesma década discos com propostas musicais antagônicas.

O boom causado pelo acústico-folk interiorano Out Of Time revelou apenas um dos múltiplos lados que o R.E.M. assumiria no decorrer dos anos. Os caras trafegaram naturalmente pelos violões e arranjos melancólicos em Automatic For The People, sujaram as FMs com a distorção grotesca de Monster e mostraram que até rock alternativo poderia ser referenciado em New Adventures In Hi-Fi. Sempre ovacionados por público e crítica, os quatro rapazes de Athens gozaram nos anos 90 de uma idolatria incondicional, independente do caminho musical que um novo álbum pudesse sugerir. O R.E.M. mostrou, ao longo dos anos, que sua liberdade de criação era matéria-prima para um produto de indiscutível reputação.

Quando em 1998 o baterista Bill Berry pediu as contas, alegando necessidade de repouso e afastamento da agitada vida de rockstar (Berry havia sofrido um derrame algum tempo antes), a banda teve de enfrentar a necessidade de mudar por forças das circunstâncias, ao invés de fazê-lo pelo tradicional livre arbítrio. Dentro das possibilidades de integrar um novo músico à banda e seguir os caminhos como se nada tivesse acontecido, eles decidiram ser coerentes e assumir a postura de trio, aproveitando mudanças drásticas na carreira da banda para dar espaço a propostas bastante inéditas para quem gravou a reluzente Shinny Happy People.

O conceito de ruptura foi total. Não só na música em si, que passava a incorporar consequências de um mundo pós-Ok Computer, através de teclados e influências claramente eletrônicas, assim como no processo técnico de gravação do disco. Scott Litt, tradicional produtor de uma série de discos anteriores deu lugar à Pat McCarthy, que soube conduzir de forma competente a desilusão sonora que eles estavam procurando. O interesse na angústia celebrizada pelo Radiohead confirma-se com a mixagem do célebre produtor de Ok Computer, Nigel Godrich. O lugar do baterista foi ocupado acima de tudo pelas batidas artificiais, com contribuições “em carne e osso” de outras figuras de reconhecida competência como Joey Waronker (Beck, Smashing Pumpkins) e Barrett Martin (Screaming Trees, Mad Season). Todos esses pontos combinados produziram um álbum melancólico e angustiado.

Airportman abre com batidas de drum machine e teclados de churrascaria, recheados de efeitos de guitarras e distorções de Peter Buck. Michael Stipe praticamente sussurra descrições sobre ambientes fechados e ambições da vida moderna. O clima é claustrofóbico e sereno, a música termina e fica parecendo que o disco ainda não começou. Lotus foi vendido como single, trazendo o ouvinte para algo mais próximo de um R.E.M. reconhecível. Ainda assim, a construção do arranjo em cima de teclados e de uma estrutura pouco óbvia deixa as coisas distantes de algo fácil como Losing My Religion. Suspicion confirma a tendência do álbum em apostar nos arranjos econômicos com teclados e batidas para centrar o foco nas letras e nas linhas vocais amarguradas de Stipe.

Hope flerta com uma anarquia interna, com um instrumental bizarro de batida à-la-Atari e uma distorção monocromática. At My Most Beautiful dá um tempo e revive os altos momentos de Automatic for The People, com uma bela linha de piano (Mike Mills continua na banda!) e um poderoso acompanhamento de instrumentos e vocais. Reza a lenda que a letra foi escrita para o retirante baterista. The Apologist inicia uma série de canções deprê que ajudam a concretizar o conceito triste e introspectivo do disco. Os versos I’m sorry/I’m sorry fazem você acreditar que o cara está realmente fazendo jus ao título da canção, enquanto os outros dois músicos conseguem teimosamente reunir uma linha limpa de piano com uma sujeira de guitarras. Sad Professor mistura violões e guitarras roqueiras, sempre no clima down que contagia o disco.

You’re In The Air começa como se fosse um bolero, recheado de batalhas musicais entre guitarras e teclados, para então chegar a um acordo no belo refrão orquestrado. Aqui, como na maioria do disco, a música é quebrada, fugindo da estrutura convencional e experimentando diferentes estados de espírito num mesmo espaço. Os arranjos das faixas são inusitados, com guitarras e teclados que vêm e vão, hebriamente em dissonância com a condução principal. Walk Unafraid facilita um pouco, por causa de sua estrutura mais convencional. Why Not Smile é mais uma balada emocionante, com instrumentação simples mas com construção que remete a momentos como Nightswimming. Daysleeper faz as pazes com o estilo R.E.M. e mais uma vez privilegia o trabalho de Mills no piano. Uma bela balada que fala sobre o fato de pessoas trabalharem à noite e dormirem durante o dia. Diminished e Parakeet são climáticas, sendo essa última uma canção quase fúnebre com teclados exagerados e clima negativo. O disco termina com um lamento final, Falls To Climb, assumindo mais uma vez a sonoridade artificial e mórbida que permeia a obra.

O álbum marcou uma nova fase na carreira do então trio, revelando o lado obscuro e amargurado que floresceu com as mudanças da época. Atitudes de inovação que antes eram aplicadas por simples prazer tornaram-se uma necessidade. Esse é o meu álbum preferido do R.E.M. por proporcionar a impressão de que as dificuldades e as torturas emocionais que podem ter acontecido naquele processo foram implacavelmente transferidas para a música. Up, apesar do nome, é o mergulho mais sombrio que o R.E.M. executou em sua existência.

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