The Suburbs (LP)

8/10

Por Eduardo Carli de Moraes, publicada em 20/01/2011

Publicado originalmente no Depredando o Orelhão em 06/01/2011.

Arcade Fire

The pain of Win Butler and Regine Chassagne, the enigmatic husband-and-wife songwriting force behind the band, is not merely metaphorical, nor is it defeatist. (…) They have known real, blinding pain, and they have overcome it in a way that is both tangible and accessible. Their search for salvation in the midst of real chaos is ours; their eventual catharsis is part of our continual enlightenment.

David Moore, na Pitchfork

“My family tree is losing all its leaves”, cantava Régine Chassagne em In The Backseat, melancólico lullaby que encerra Funeral (álbum já amplamente coroado como um dos melhores da década passada). A beleza do verso, que lamenta que árvores genealógicas percam suas folhas e sejam tomadas por esqueléticos galhos de outono, só se amplia face à gigantesca catástrofe haitiana que tatuou com uma imensa cicatriz este ano de 2010 com os mais de 230.000 mortos, 300.000 feridos e 1 milhão de desabrigados pelo terremoto.

Esta, uma das mais desoladoras situações que frequentaram o noticiário neste ano, foi também ocasião para que a banda canadense mostrasse que enxerga bem além da música (e “além do que se vê”, para usar uma expressão los-hermânica). Régine, que já havia cantado belamente sobre seu país natal em Haiti (“wounded mother I’ll never see…”), foi à mídia nos momentos de urgência e fez campanha em prol do Stand With Haiti. Além disso, a banda se engajou na arrecadação de U$ 1 milhão de dólares a serem doados às vítimas da calamidade. Meses antes, o Arcade Fire tinha feito campanha para Barack Obama nos EUA e Win Butler tinha elogiado publicamente as atividades filantrópicas de Bono Vox.

Estas atividades extramusicais do Arcade Fire já são uma boa demonstração de que este coletivo de artistas não aprecia a apatia primeiro-mundista daqueles que vivem na abundância material, mas são convenientemente cegos aos homens que morrem como moscas em todos os milhões de subúrbios do planeta. Se em alguns momentos parece que “the power’s out in the heart of Man”, como diz o poderoso épico Power Out (também de Funeral), há sempre aqueles que procuram reacender a chama necessária para encarar a desgraça e reconstruir a partir das ruínas.

O terceiro álbum do Arcade Fire, The Suburbs, lançamento de ampla repercussão mundo afora, serviu para sedimentá-los como uma das bandas que melhor representa o zeitgeist no Primeiro Mundo hoje em dia. E não surpreende que o tom lamentoso e a batalha contra a depressão sejam tão marcantes na “ambientação emocional” da banda. Não é à toa que o som do Arcade Fire é “deprê”: eles apenas canalizam o que é uma forte tendência nas sociedades industriais-consumistas “desenvolvidas” (mas que “desenvolvem”, como cada vez vai ficando mais claro, muito mais tristeza, solidão, anomia e desconexão humana do que admitem as propagandas de margarina). É só lembrar das estatísticas alarmantes da OMS (Organização Mundial de Saúde), que numa pesquisa de 2000 indicou que “o que mais mata no mundo, hoje, é o suicídio. Foram 815 mil suicídios naquele ano, contra 520 mil mortes ocasionadas por crimes e 310 mil em guerras. Ou seja, seria preciso somar as mortes decorrentes de crimes e guerras para empatar com o número de suicídios. Naturalmente, isso depende da região. Em alguns países, é a guerra que ocasiona mais mortes –– como no Iraque. Em outros, como o Brasil, são os crimes. Portanto, o mal-estar moral e ético, que pode levar a pessoa ao suicídio, manifesta-se de maneira mais forte no hemisfério norte, justamente aquele cuja cultura costuma ser considerada como a mais avançada e a mais desejável do mundo ocidental.” (Yves de la Taille, em Yves de La Taille e Mario Sergio Cortella, Nos labirintos da moral, 2005, p. 9)


Há um vasto oceano entre o Canadá do Arcade Fire e a Inglaterra do Radiohead, mas o “espírito” das duas bandas não deixa de ter suas similaridades.

Ambas retratam, a seu modo, o desconforto e a angústia do “homem moderno” vivendo em civilizações capitalistas avançadas. Ambas procuram tornar sublime o angustiante desconforto dos descontentes. Ambas lidam com um certo lirismo de cativeiro: são cantos de pássaros engaiolados. E ambas desconfiam da tecnologia, são céticas quanto ao império tecnocientífico e as prometidas maravilhas de felicidade terrestre nunca cumpridas pelo hi-tech e pelo surround sound.

Decerto que Thom Yorke entrega-se mais amplamente ao queixume, sabe fazer sua voz chorar e é um cantor mais versátil e comovente. Já Win Butler, mais contido e racional, preza mais o autocontrole e o distanciamento crítico, mas sua melancolia parece tão incurável quanto aquela que tingia Ok Computer:

I feel like I’ve been living in
A city with no children in it
A garden left for ruin
By a millionaire inside
Of a private prison…

(City With No Children)

Anos atrás, quando tentei mergulhar nos meandros de Funeral, buscando elucidar alguns dos mistérios desta belíssima obra-de-arte, cheguei à conclusão de que o Arcade Fire se defrontava essencialmente com dois desafios humanos: 1) enfrentar a morte de seres amados, penando para atravessar o luto sem sucumbir à tristeza mortal; e 2) lidar com o amadurecimento precoce imposto por vínculos afetivos rompidos. O próprio nome da banda — “Incêndio no Fliperama” — remete à uma repentina interrupção da brincadeira infantil, rompida por alguma catástrofe que nos chama à dureza do mundo adulto, mesmo quando ainda não nos sentimos prontos para aguentar seu tranco. Aqueles que estavam acostumados a viajar no banco dos passageiros são convocados para assumir o leme de suas vidas, e num ponto crítico da estrada…

A infância perdida e a pureza conspurcada são como recorrentes motivos de lamento na lírica arcadiana. Mas The Suburbs, o terceiro álbum do combo canadense, amplia ainda mais o leque temático da banda, demonstrando uma crescente confiança composicional de quem não teme explorar poeticamente alguns dos maiores espinhos da “vida moderna”. The Suburbs é repleto de fantasmas de guerra, tédio, insônia, jardins arruinados e cinzas de um passado melhor. Ao fundo de tudo, observam os shopping centers, “like mountains beyond mountains” (Sprawl II).

“I think I’ll live to see the death of everything that’s wild”, canta Butler. E mais adiante: “I hope that something pure can last”.

Sem o impulso de uma utopia, resta à banda tentar criar beleza a partir do queixume. O problema é que tanta lamúria acaba, em algumas canções, vergando mais para o tedioso que para o sublime. O que mais assombra o álbum, me parece, é o fantasma do tédio. Boredom is the devil. Logo na faixa-título, que inaugura o álbum com uma linda cruza entre Echo & The Bunnymen e Neil Young, Butler solta a confissão de que a guerra nos subúrbios, longe de comover ou engajar, gera um embotamento geral: “By the time the first bombs fell we were already bored.” Longe de elogiável, este sentimento que Butler encarna tão bem é sintomático de uma geração primeiro-mundista que só consegue opor à queda das bombas um bocejo entediado.

Na faixa seguinte, Ready To Start, a banda escancara seu desconforto com o mercado fonográfico, o big business musical, que Win Butler comparou, em uma entrevista, a um sistema de coleta de impostos (aquele mesmo, trucidado pela chacota em Taxman, dos Beatles). “Businessmen drink my blood”, canta Butler, comparando executivos a vampiros, antes de dar razão à “galerinha na escola de arte”: “Like the kids in art school said they would.” Mas o que dá o tom desta poderosa canção, das mais punky que a banda já compôs, e que remete ao Joy Division circa-1979 ou ao Gang of Four de Solid Gold, é uma crítica aos jovens que se curvam aos “imperadores” em obediência covarde. Ainda que saibam que são eles os responsáveis pelas chuvas de bombas que estraçalham os subúrbios.

All the kids have always known
That the emperor wears no clothes
But to bow down to them anyway
Is better than to be alone…

(Ready to Start)

Em outras canções, o lamento se volta às “horas perdidas” (Wasted Hours, bem mais desconsolada do que Tempo Perdido, da Legião Urbana), à perda da amizade (“All my old friends, they don’t know me now”, em Suburban War) ou às esperas infrutíferas (como em Used To Wait, em que o eu-lírico e seu osso fraturado aguardam uma carta que não vem).

Gostemos ou não desta caravana de lamentos poéticos sublimes, o fato que não dá para contestar é que o Arcade Fire se impôs como uma das bandas mais cultuadas da atualidade, impondo respeito dentro e fora dos palcos e sugerindo que, além de terem muito a dizer, estão só começando a pôr a boca no trombone. O grupo liderado por Win Butler e Regine Chassagne entra na década 2010–19 numa posição de vanguarda, pau a pau com um Radiohead, um Wilco ou um Flaming Lips.

O mínimo que se pode dizer é que o Arcade Fire trouxe para o pós-Radiohead mais provas incontestáveis da aptidão primeiro-mundista para o lamento, a angústia e a melancolia musicada. Resta saber se esta semi-depressão, sublimizada e derretida em arte, é aquilo de que a cultura mundial necessita para se sentir revigorada após Auschwitzes e Hiroximas, Vietnãs e Iraques, terremotos e bombardeios, ou se aquilo que irá injetar vida nova no caldo da civilização terá necessariamente que sair do “Terceiro-mundo Festivo”, anunciado por Wado e seu Realismo Fantástico.

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