The King of Limbs (LP)

8/10

Por Rodrigo Quinan, publicada em 04/04/2011

Radiohead

Cercando seu lançamento, The King of Limbs rendeu uma antecipação de um dia, após o anúncio relâmpago do novo álbum do Radiohead. Para completar, ainda foi lançado um jornal junto com a edição física do álbum, que muitos fãs acreditavam que traria novas faixas. Afinal, o Radiohead chegou a ser criticado pelo álbum de oito músicas, bem menos acessível que o precedente In Rainbows.

A verdade é que, enquanto em In Rainbows o Radiohead apresentava um álbum de melodias geniais, as melhores de sua época, The King of Limbs é sombrio. Uma volta aos tempos onde escutar Radiohead era desafiador. Carregando um pouco do abstrato de Kid A e principalmente de Amnesiac, além do álbum solo de Thom Yorke, Eraser, o Radiohead articula sua nova sonoridade, que embora não seja imediatamente surpreendente, revela surpresas a cada audição.

As batidas programadas estão em absolutamente todas as faixas do álbum, sendo quase impossível perceber alguma percussão orgânica. As guitarras apenas enfeitam as músicas. Mas a impecável voz de Thom Yorke e as linhas de baixo fantásticas dão o tom das músicas em cima dos ótimos arranjos.

Que o diga Bloom, uma verdadeira confusão de sons e ideias no fundo, que se separam cautelosamente, revelando uma grande abertura. A mais difícil do Radiohead, até hoje. Morning Mr Magpie é o riff de guitarra, um palm-mute sufocadamente funky. Mais outra grande faixa, delicadamente arrasadora, com uma ótima pausa no meio e outra grande linha de baixo.

Little By Little retorna o trabalho de violão e guitarras. Se Bloom lembra, de leve, o Amnesiac, Little By Little tem um trabalho semi-acústico que já foi realizado de forma um pouco similar em Go To Sleep e algumas faixas do In Rainbows. Mas não é acessível, é preciso ouvir mais de uma vez para notar o refrão genial em mais uma faixa genial. Que falsete, Sr. Yorke!

Feral é um instrumental contorcido e bizarro, que não aconteceu no In Rainbows, tal como The Gloaming e Pulk/Pull Revolving Doors, mas fresca, para o ouvinte degustar e encontrar 1001 detalhes. Convite para uma versão cheia de artimanhas de Johhny Greenwood ao vivo?

Então, exatamente no meio do álbum, vem a preciosidade pop do disco. Esbanjando simplicidade, Lotus Flower é o tom mais acessível do álbum. A fórmula não é complexa — vale até palmas — mas o resultado é extraordinário. Envolvente e ascendente a cada trecho, Thom Yorke dá uma aula de canto. No refrão, um momento memorável: o synth — parecido com o que foi bem usado em Cymbal Rush, do Eraser — entra meio segundo antes da cantiga espetacular de Thom Yorke. No segundo, apenas as palmas. Quando Lotus Flower saiu, o clipe acabou por dar um tom de piada à música. Mas está aqui uma das beldades da carreira do Radiohead. Um ponto alto da história de uma banda que é um ponto alto na música.

Mas não há tempo para nada: Codex começa ao contrário e já emenda em outro momento inesquecível. Uma faixa ao piano, que remete a beleza de Pyramid Song, dispensando comentários. Clássica de imediato.

Assim como How to disappear completely encontra palavras para um momento espiritual profundo em meio ao caos abstrato de Kid A, aqui aparece Give up the Ghost como a sétima faixa do álbum. Como alguém que está desistindo, vem essa faixa, ao som de pássaros, arranjo acústico, coros e arranjos singelos. A faixa mais surpreendente do álbum, prova que o Radiohead é capaz de qualquer coisa.

O final retorna ao clima do álbum com Separator. O destaque para a faixa ficou por conta do título e da frase “If you think it’s over, then you’re wrong”, alimentando as teorias de um suposto segundo álbum. Dentro de campo, Separator é a faixa misteriosa perfeita para fechar o álbum. Fãs se desapontaram, querendo um encerramento bonito como Street Spirit ou Videotape, mas Separator não é balada. É mais uma faixa abstrata, com a sonoridade típica do álbum. Memorável, grandes arranjos, adequadíssima para fechar a obra, tida injustamente como a mais fraca do Radiohead desde o Pablo Honey — houve até teorias de que eram os b-sides do álbum real. Basta entender de que se trata de um novo álbum, de um novo desafio, do velho Radiohead, que voltou com mais um disco intrigante, sombrio e divisor de opiniões, tal como os já citados discos do começo da década passada. Reclamar mesmo só da curta duração do álbum: oito faixas para quatro anos. Mas não ofusca o brilho das presentes aqui.

The King of Limbs dá procedimento à discografia impecável do Radiohead e é fantástico de se escutar. LocalWords: Radiohead

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