Sisterworld (LP)

8/10

Por Fabricio C. Boppré, publicada em 30/05/2010

Liars

De imediato, a música do Liars se destaca pela teatralidade, pela dramaticidade. Evoca Bauhaus e filmes de terror obscuros, com sua atmosfera sinistra instaurada através de ritmos ritualísticos, ecos, batidas profundas que dão aquela sensação terrível de paredes estreitas, e vocais que ora emulam os grandes vilões zombeteiros do cinema, ora as pobres vítimas de olhos petrificados que já não falam coisas muito compreensíveis. Um conjunto de sonoridades que a banda foi burilando ao longo de seus discos e que atinge um novo patamar de excelência neste Sisterworld, lançado no início de 2010.

Não que seja uma trajetória calculada, uma ambição adolescente materializada no encontro de dois ou três amigos que descobriram em comum as compulsivas sessões de filmes do Argento e do Romero e os discos do Morbid Angel e do Marduk nos armários. Conhecendo algo sobre a banda — e as leituras e imagens internet afora ajudam bastante nisso — percebe-se que os caras não levam nada muito a sério e taí o primeiro disco, They Threw Us All In A Trench And Stuck A Monument On Top, para dar algumas outras indicações importantes. A impressão que tenho é que ao longo de seus discos, Aaron Hemphill e Angus Andrew, núcleo fundador do Liars, foram descobrindo suas inclinações criativas, se apegando ao retorno sempre muito positivo que suas ideias iam gerando, e hoje o Liars é isso, uma banda que, sem apelar para vocais guturais, vestimentas demoníacas e instrumentos tocados em velocidades extremas, faz discos de atmosferas imersivas e divertidíssimas na base da criatividade e até, com frequência, da sutileza. Tudo bem, há algum apelo para a violência explícita, vez ou outra, mas não é o ingrediente principal — o que os caras fazem com perfeição é alternar estas opções, lançando mão de quaisquer possibilidade e influência, e não há momento em que as escolhas soam erradas; tudo colabora de maneira precisa para o efeito visceral e sui generis da música do Liars. Há de se respeitar e muito isso; são pouquíssimas as bandas que de fato inventam algo, ou que fundam para si personalidades inequivocamente originais e espontâneas. Vou além: neste tempos atuais, são poucas as bandas que eu diria, sem enrubescer, que fazem música naquela acepção antiga da palavra, aquela que a associava umbilicalmente com arte. Pois a música do Liars é arte barroca em pleno século XXI, envolvente e tétrica.

Quanto a este Sisterworld, pode não ser a obra-prima destes nova iorquinos desavergonhados, posição que é consensualmente ocupada pelo Drum’s Not Dead, muito justamente, diga-se. De meu lado, gosto igualmente de todos os discos lançados pela banda após o seu incerto debut, mas, sendo Sisterworld o último, ele é, portanto, e momentaneamente, meu preferido. Ok, a essa altura, não é lá um disco muito surpreendente. Mas é certeiro. Menos experimental? Talvez, mas produção e melodias estão em ótimos estágios, afiadíssimas do início ao fim do disco, o que é sempre uma façanha muito digna de nota. Traz toda a pinta de ápice criativo dos caras — vejamos se algum sinal de declínio irá surgir na próxima empreitada do Liars, para corroborar minha tese. Ou isso, ou eles surpreendem e pulam para o grupelho fundado pelo Radiohead no início do século e até hoje ocupado solitariamente pelos próprios — o grupo dos qualidade-e-originalidade-anos-à-frente-de-todo-o-resto. Não duvido.

Mas, antes disso, Sisterworld traz material suficiente para nos entreter por algum tempo. Começa muitíssimo promissor e alegórico com Scissor, sua introdução vocal carregada de mistério e fantasia adornada por uma leve melodia de conto de fadas, e então decapitada brusca e sanguinolentamente, sem misericórdia. A atmosfera cruel prontamente estabelecida é um pouco amenizada com a faixa seguinte, No Barrier Fun, onde o encanto ardiloso surge não do caos, mas dos violinos e de alguns truques hipnóticos de estúdio que vão, apesar da tenuidade, gradualmente elevando o clima de estranheza geral da coisa. “Algo de horrível está para acontecer” — a tensão de uma nova e violenta investida de guitarras e bateria e machados permanece à espreita o tempo todo. Mas, desta vez, o horror fica assim, subentendido.

Já é um discaço e então Here Comes All The People surge prometendo mais sustos com seus vocais dobrados, sussurrados, pausas inundadas de intenções malignas, a guitarra à distância prestes a invadir o ambiente e sujar os corredores de sangue a qualquer momento. “Life possession could be fun, counting victims one by one”, entoam uns pobres miseráveis sem salvação, delirantes. O clima fica mais opressivo no final, mas por ora a coisa segue no âmbito do divertimento diabólico que Drip trata de estender atmosfericamente, abafadamente, quase que abrindo mão de melodia ou de qualquer sonoridade mais coesa. Pode ser tudo um pesadelo, ou mera paranoia, é o que sugere este desorientador interlúdio.

Mas em Scarecrows On A Killer Slant, o sadismo dos malditos mentirosos é no talo, “AND THEN KILL THEM ALL!”, enfurecido, exaltado. É também um dos destaques individuais do disco — porque, sim, algumas músicas do Liars, tiradas de seus contextos, podem não ser tão admiráveis assim. Não é o caso de Scarecrows On A Killer Slant. Acalmando levemente o espírito, I Still Can See An Outside World traz nova mudança de tom, mas o estado de apreensão meio desnorteado e remoto vai crescendo e tornando-se intolerável à medida que vamos nos perdendo pelos corredores da mansão escura e labiríntica de leves cortinas rasgadas acariciadas pelo vento. A certeza que queríamos não ter, de estarmos nos afastando cada vez mais da saída, da luz, torna-se inconteste e de repente a coisa fica perversa de verdade, sufocante… e, enfim, alívio.

Proud Evolution destoa deste crescente clima de angústia e terror, mas é uma música tão boa que não há problema algum nisso. Feita de guitarras lúdicas, cintilantes, batidas e repetições maníacas, ruídos, tudo isso precedido, claro, por uma introdução feita de confusão e suspense, que deixa o coração na boca e os sentidos em alerta, escolados que estamos pelas experiências anteriores. É a música peculiar do Liars em um momento de brilho intenso e ainda mais formidável. Na sequência, Drop Dead traz de volta algumas guitarras de cenas anteriores, de volta ao enervante caminho em direção ao inevitável aterrorizante, que talvez houvesse ficado em suspenso ao longo de Proud Evolution. Nada inesquecível, ainda mais pelas fronteiras que faz com duas faixas brilhantes, pois o que vem a seguir é a fantástica The Overachievers. Direta, insana, uma verdadeira porrada, o momento do confronto físico, que desencadeia enlouquecido o final do disco, e agora tudo pode acontecer.

Mas é só um disco — um belo dum discaço, mas ainda assim um disco, limitado em suas possibilidades sensoriais. E a banda trata de, depois de The Overachievers, colocar as coisas em termos razoáveis e deixar todo mundo vivo. Goodnight Everything reestabelece, com instrumentos de sopro impregnados de gravidade e fatalidade, o clima mais hermético e sobrenatural dantes, esforço continuado pela faixa final, Too Much, Too Much, que rememora não somente algumas guitarras como também algumas melodias. O disco acaba e o gosto prolongado que fica é de intensa diversão, acima de tudo. Não fica claro o que é o tal do Sisterworld, mas, que é um lugar bacana para se voltar muitas outras vezes, disso eu não tenho dúvida.

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