Reveal (LP)
O R.E.M. chega a seu 12º álbum com Reveal, ao mesmo tempo em que inicia a terceira década de sua carreira. E ouvindo o disco dá para dizer que a banda não perdeu a mão durante esse tempo todo. Reveal é um disco inspiradíssimo que em alguns momentos relembra os primórdios do R.E.M.
O disco funciona como uma ponte entre o último álbum da banda, o experimental Up, de 1998, com os discos mais antigos da década de 80. Estão de volta os acordes simples, as “ringing guitars”, dissidentes do The Byrds, presentes em 90% das músicas antigas do R.E.M., mas, ao mesmo tempo, Reveal mantém aquele clima atmosférico recheado de efeitos eletrônicos não usuais e do clima contemplativo e não-rocker de Up. O disco também conta com arranjos orquestrados e instrumentos acústicos e o inegável destaque às melodias em detrimento da sonoridade, o que também deve agradar aos fãs do Automatic for the People, um marco na história da banda. Enfim, Reveal é a essência do R.E.M. e um presente aos fãs.
Mas também não se trata de um disco fácil. Não há hits imediatos. Imitation of Life trás o refrão mais memorável do disco (e não coincidentemente foi a música escolhida para o primeiro single). Outras músicas como All the Way to Reno (You’re Gonna Be a Star) e a delicada Summer Turns to High são bastante acessíveis, mas bem diferentes do que pode se esperar de música para tocar em rádio.
The Lifting e She Just Wants to Be, as duas músicas já conhecidas via Rock In Rio, aparecem bem diferentes na versão de estúdio. The Lifting, que presumia uma levada mais rock, surge no disco com teclados e efeitos eletrônicos, onde quase não se ouve guitarra, que só aparece no solo. Somente a bateria tem uma pegada mais forte, mas soa muito ao fundo. Mas The Lifting tem uma ótima melodia e é uma excelente forma de abrir o disco. A introdução em violão de She Just Wants to Be soa bem mais country do que se poderia pressupor pela apresentação do Rock In Rio, mas isso é só o começo. Em seguida surge o vocal e baixo e a música segue demonstrando como soa o R.E.M. como um trio. Mas dura pouco, logo no refrão entram teclado, bateria, guitarra e a música que inicialmente tinha começado bem intimista torna-se grandiosa.
I’ve Been High, como o nome poderia sugerir, é a mais “viajante” do disco. Nesse clima, os efeitos eletrônicos e teclados atmosféricos são bem vindos. Disappear começa meio confusa e desconexa, para a partir do refrão revelar o tom delicado que conduz o disco. Aliás, Reveal é um álbum bem coeso do início ao fim, nesse ponto bem diferente das variações de Up. Em Saturn Return, talvez a música mais calma do disco, só teclados, Michael Stipe alterna o seu vocal com falsete.
Beat a Drum tem todos os instrumentos, mas de certa forma é uma música contida que na sequência abre espaço para a candidata a hit Imitation of Life (alguém lembra de alguma outra música do R.E.M. com “come on” no refrão?). Summer Turns to High é bela e simples, um dos pontos altos do disco. Chorus and the Ring é outra música excelente, também com violões se sobrepondo às guitarras. Tem o vocal meio sussurrado e um som de teclado bem inocente, quase infantil. Na sequência, mais uma com violões, I’ll Take the Rain, belo refrão, mais um ponto alto do disco. Beachball encerra o álbum, mostrando uma diversidade de instrumentos muito bem colocada, tem até trompete logo no começo.
Uma coisa que se nota ouvindo Reveal é a ausência do competente backing vocal de Mike Mills. As melódicas faixas do disco abririam espaço para as harmonias vocais do R.E.M., mas, por algum motivo, quase não se ouve a voz de Mills ao longo do disco.
Para terminar, Reveal não surpreende quem conhece a banda, nem tem o potencial de tomar de assalto todas as paradas de sucesso. Mas reafirma o R.E.M. como um dos maiores nomes da música contemporânea, e antes de tudo, como uma banda que mantém a sua integridade e coerência, sem se preocupar em seguir as tendências da indústria da música em nome do sucesso comercial. Como se precisasse.


