Oceania (LP)

6/10

Por Fabricio C. Boppré, publicada em 10/09/2013

Smashing Pumpkins

Começando pela boa notícia, afinal, as expectativas eram sombrias: Oceania não é um disco totalmente ruim. O novo álbum da banda de Billy Corgan tem seus inegáveis bons momentos, mas ele é feito também (e aqui vão as más notícias) de clichês de rock genérico, guitarras explosivas tresloucadas e truques outros que muitas vezes dão a impressão de terem sido enfiados nas canções durante o trabalho no estúdio, para encorparem algo muitas vezes sem corpo. Em apenas uma ocasião, The Chimera, temos uma canção de cerne exposto e descomplicado, cativante sem soar desesperada por sua atenção, e quase tão boa quanto um bom b-side mais barulhento do Mellon Collie and the Infinite Sadness. O restante — fora o trio de destaques mais evidentes, que comentarei logo mais — impregna o disco de uma aura meio decadente de larger than life bastante injustificada e também anacrônica.

Não que a eloquência seja uma novidade na história da banda: sabemos que as ambições de Corgan nunca são exatamente modestas. Mas houve um tempo em que suas visões sustentavam-se gloriosamente por meio de uma criatividade exuberante, uma máquina quase sem igual de melodias, riffs, idéias e sonoridades que se encaixavam magicamente, e parecia então que o Smashing Pumpkins podia fazer qualquer coisa sem nunca soar ruim; às vezes acontecia de soar um pouco menos do que espetacular, só isso. O problema é que hoje, apesar da fonte de todas essas canções e arranjos evidentemente não ter secado por completo, o mais perceptível em uma audição de Oceania é que a forma final dada à algumas de suas faixas — um número suficiente para sabotar o conjunto do álbum, infelizmente — é muito aquém da força e da originalidade de outrora; eu diria que metade do álbum soa ordinário ou incongruente. Que são só outras palavrinhas para ruim, claro, em se tratando de uma banda de quem nos acostumamos a esperar muito mais. Até a voz esquisitaça de Billy, que sempre fora perdoável (e às vezes até admirável), enquadrada nesta nova moldura, começa a ficar difícil de defender: não poder alternar os antigos extremos de fragilidade e selvageria, incompatíveis com este material mais mediano, aniquila-a e quase a expõe ao ridículo.

É claro que não ter a vocação para a eternidade que tem um Siamese Dream também não é um problema por si só; o problema é não saber reconhecer e calibrar isso. Em alguns dos seus piores momentos, Oceania quer soar grandiloquente e retumbante, mas com composições sem muito brilho, enxertos formulaicos e repetições de idéias antigas, acaba soando apenas exaustivo e artificial. Não obstante, enquanto a primeira e a última faixa do álbum (Quasar e Wildflower) dão a exata medida desse descompasso, nem tudo entre elas é decepcionante — como dito acima, a fonte de onde Corgan tira canções em suas formas primordiais e a criatividade para gravá-las não secou totalmente, seria estúpido afirmar isso depois de ouvir Pinwheels, Oceania e Pale Horse, três faixas que se encontram em sequência no meio do álbum. São músicas de qualidades evidentes e que lembram um pouco o espírito mais aventureiro do disco solo lançado por Corgan em 2005, nos permitindo inclusive vislumbrar o que ele poderia ter continuado a fazer na sequência daquele trabalho não fosse sua decepção com o fato (insignificante, sob qualquer ponto de vista contemporâneo) daquele CD não ter vendido muito. Aliás, confusão semelhante envolvendo expectativas comerciais frustradas já tínhamos visto acontecer entre os discos Adore e Machina, e desconfio que o significado disso seja bastante claro, explicando os desacertos de Oceania da mesma forma que já explicava os desacertos (que existiam em bem menor número, claro, mas estavam lá) de Machina, além do desacerto praticamente completo que é Zeitgeist.

Mesmo que Oceania represente algum avanço — o sabor postiço excessivo da primeira metade do disco diluí-se um pouco na segunda — em relação a Zeitgeist, continuo achando que seria mais “adequado” (na falta de termo melhor, afinal, que diferença faz eu achar isso?) Billy Corgan deixar o legado do Pumpkins em paz e continuar fazendo sob alguma outra alcunha a boa música que ele ainda tem para nos oferecer. Desamarrar-se das ambições possíveis dos áureos anos 90 seria melhor para todo mundo.

Numa notinha final: Corgan já foi um bom letrista, não? Ou será que eu era iludido pela minha paixão adolescente pela banda? Porque as coisas que se lê no encarte do Oceania, valha-me deus…

Resenhas