No Code (LP)

10/10

Por Luiz Young, publicada em 22/09/2008

Escrita em 16/01/2007

Pearl Jam

Era 1996 e Kurt Cobain já tinha cumprido o papel de mártir e carrasco do grunge. O Pearl Jam de Stone Gossard e Eddie Vedder estavam lançando o quarto disco, porém o primeiro de uma nova fase do grupo. Os anteriores haviam vendido os tubos, a estréia Ten foi sucesso de vendas e a banda, que havia sido formada apenas quatro meses antes da gravação do disco, manteve posições românticas nos álbuns seguintes, como a ação judicial contra a empresa Ticketmaster (que vendia ingressos pros shows), letras de protesto e uma agressividade musical e de discurso – tanto que o segundo disco recebeu o nome de Versus.

Com o desgaste natural ocorrido após um primeiro disco de sucesso e exposição exaustiva, a guinada de imagem da banda, que foi vendida para os discos seguintes, não foi tão forte. Mesmo sem a divulgação massiva da estréia, os discos continham hits e venderam bem. Tudo isso, aliado à sucessiva troca de bateristas (até o No Code quatro ocuparam o posto) e a postura anti-comercial de não fazer clips, deixa o Pearl Jam no contexto de No Code: a banda possuía uma base de fãs que não estavam atrás apenas da imagem que era vendida via MTV e rádio, mas jovens interessados em coerência musical e postura, fato que o lançamento de No Code questionaria. Até que ponto os fãs mantém fidelidade a uma banda? Até que ponto fãs estão dispostos a serem desafiados e estimulados por algo diferente?

E o que fãs – e ninguém – não esperavam, porém, era que No Code fosse um disco tão diferente. Em uma viagem parecida com a dos Beatles quando resolveram fazer um disco mais espiritual, o álbum não possui os clichês Pearl Jam. Não existe a balada radiofônica, as músicas rápidas com refrões grudentos pra tocar na MTV, os solos de arena… No lugar disso entram tons quase de world music (não em tom pejorativo), canções folk beirando os anos 60 (mostrando novas influências, advindas da gravação do EP Merkinball, com Neil “never die” Young ) e uma bateria tocada com criatividade ímpar por Jack Irons – que, se não foi o baterista mais técnico que o Pearl Jam já teve, foi o que melhor entendeu a musicalidade desse período da banda, vide as diversas batidas que se sobressaem no álbum.

Com sonoridade diferente da que consagrou a banda, No Code abre com Sometimes, música que vai num crescendo, com Eddie Vedder quase declamando uma letra catártica, sobre coisas do cotidiano que o aproximam de sua espiritualidade: a igreja Pearl Jam das coisas simples e sagradas. O disco segue com letras em primeira pessoa: em Hail Hail um Eddie Vedder confessional e solitário dá um salve aos apaixonados e reconhece, através da velha metáfora de falar de uma garota, que não se encaixa no mundo: “if you’re the only one will / I never be enough? yeah”. É a maturidade chegando, com a percepção de que não se consegue abarcar a tudo. Em Hail Hail a banda deixa também um recado para os fãs que abandonam a banda nessa nova fase, em que não há MTV, rádio e revistas bajulando: “oh, I could be new. you underestimate me”.

O isolamento é novamente tratado nas entrelinhas em In My Tree, canção que começa com uma bateria impecável e depois demonstra a habilidade intrumental da banda em criar uma cama sonora para versos que demonstram sua atual fase, como na parte da música em que Eddie diz “up here in my tree / newspapers matter not to me”. Com um disco desses, nada mais importa ao Pearl Jam.

Mas em Who Are You a banda se questiona: “where we are, who are we?, who we are”. Com um instrumental em que as guitarras afiadas e afinadas aos violões e batuques de uma sessão rítmica com acentos muito diferentes para uma banda até então grunge, surge o caminho diferente que viria a mudar a carreira da banda: “off the track, in the mud / that’s the moss in the aforementioned verse”. Mais longe ainda da trilha habitual, na lama, o grupo volta seus olhos para o blues e em Smile, com uma harmônica tocada por Eddie Vedder dialogando com guitarras cheias dos médios clássicos do estilo, a banda comete uma das melhores músicas do disco. O tom meio melancólico encontra luz no fim do túnel, uma saída sem auto-piedade, sorrindo da própria desgraça, no qual o cantor pergunta “don’t it make you smile? / when the sun don’t shine, it don’t shine at all / don’t it make you smile?”.

Off He Goes é a canção folk por excelência do disco. Cheia de violões, poderia ter sido escrita por Neil Young, e isso é um elogio e tanto. É a parada estratégica, a calmaria antes da tempestade, que vem em forma de distorção com Habit, música questionadora, onde a banda renova suas intenções de inconformismo; o blues torto de Red Mosquito, outra canção a falar em inocência e sobre experiência, “if I had known then what I know now…”; e Lukin, homenagem ao baixista do Mudhoney, amigo da banda (com um Eddie Vedder raivoso nos vocais).

Em Present Tense o disco chega a um novo ponto, a banda está mais à vontade e a experimentação começa a virar experiência: “make much more sense / to live in the present tense”. Vivendo um dia após o outro, sem se repetir, mas sem trair seu passado e suas influências, o som do Pearl Jam vai adiante. Com modulações interessantes nas guitarras, a balada vai crescendo junto com a letra, ganhando violões e emoção na voz de Eddie Vedder, até explodir em versos sem bateria, com guitarras cheias de reverb que trazem de volta a sessão rítmica da banda aos poucos, terminando num instrumental poderoso, que depois volta à calmaria, pra terminar a canção no mesmo estilo que o disco começa, lá com Sometimes. É a canção emblema do disco.

Em Mankind a sonoridade normal do grupo é retomada, com palhetadas pra baixo na guitarra e solos no mesmo volume das bases, mostrando uma banda que andou ouvindo Stones. A letra pergunta o que faz o mundo inteiro fingir, “what’s got the whole world fakin’?”, e traz o guitarrista Stone Gossard nos vocais.

Em I’m Open Eddie Vedder volta a falar sobre inocência e aprendizado, numa música que começa com vocais lou reedianos, e vai num instrumental que lembra o Iggy Pop disco Avenue B e os Tindersticks de Waiting for the Moon (música que parece ter influenciado muita gente, pois, curiosamente, o disco de Iggy Pop é de 1999 e o do Tindersticks é de 2003). É um ponto do disco em que a banda tenta experimentar e acaba cometendo uma faixa esquisita, que estaria mais à vontade em um disco do Bowie, mas que faz todo o sentido dentro de um álbum quase conceitual, pois, mais lenta, puxa a última música, a folk Around the Bend, em que o mosaico da capa é fechado, com a banda se despedindo em alto estilo (a bateria, mais uma vez, faz o inesperado e emociona com tribais) e prevendo um futuro muito além do grunge de 1991 do Ten (novamente a comparação com os Beatles é válida, pois o período de tempo que separa a estréia comercial e quase ingênua para os discos mais experimentais é praticamente o mesmo). O tempo faz do grupo mais rock ’n’ roll e pronto pra envelhecer com tranqüilidade, como Yield e Binaural comprovariam.

Subestimado pela crítica, que não teve um novo Ten para receber e gostar sem precisar interpretar, e pelos fãs, que não tiveram clips tocando exaustivamente na MTV para influenciar (na época em que a MTV ainda passava clips), No Code é o disco mais subestimado do Pearl Jam, e justamente no momento mais criativo e instigante da banda.

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