Murray Street (LP)

8/10

Por Fabricio Boppré, publicada em 11/2003

Sonic Youth

Depois do esquisito NYC Ghosts and Flowers, de 2000, o Sonic Youth voltou a lançar um novo trabalho em 2002. Apresentado ao mundo ainda sob forte influência do choque e da desorientação americana após os atentados terroristas de setembro de 2001, Murray Street é um disco mais acessível, bastante inspirado e bem-sucedido na canalização das virtudes da banda.

Kim Gordon, Thurston Moore, Lee Ranaldo e Steve Shelley, agora oficialmente reforçados por Jim O’Rourke, demonstram através de Murray Street que, mesmo após 20 anos de estrada, continuam em um saudável processo de desenvolvimento e elaboração crescentes, agregado ao mesmo espírito barulhento presente desde o primeiro disco. Dessa vez, a criatividade aparentemente inesgotável do grupo aponta em direção a melodias mais suaves e experimentalismo mais coeso e detalhado que estendem as canções para longas durações, aditivadas pelo entrosamento entre seus membros e pela liberdade que eles têm para criar. Liberdade essa que foi sendo conquistada pelo Sonic Youth ao longo de uma discografia irretocável e integridade artística idem. Murray Street soa refrescante e selvagem, a continuação natural dessa saga. Talvez não entre numa listinha dos trabalhos mais contundentes do grupo nova-iorquino, mas, se eu fosse bolar uma para os seus melhores álbuns, não o deixaria de fora.

Na música de Murray Street, a tragédia nova-iorquina é latente mais no som do que nas letras. Através de texturas quebradiças, vocais erráticos e sonoridades que fluem exalando um sentimento etéreo de fatalidade, a banda expõe ao mundo as cicatrizes do atentado de uma maneira menos lúgubre e mais sutil do que é de se esperar de uma banda local. Para se entender a proximidade do Sonic Youth com este acontecimento histórico: o nome do álbum foi tirado da rua onde fica o Echo Canyon, o estúdio da banda, a dois quarteirões de onde se localizava o World Trade Center, derrubado pelos Boeings certeiros enviados por Osama Bin Laden. Jim O’Rourke, que estava no estúdio na manhã do ataque, disse que viu uma parte de um dos aviões aterrissar na rua em frente à janela principal do estúdio. A área foi interditada e a banda teve que suspender as gravações até poder voltar ao estúdio. Logicamente, o disco se transformou em algo diferente do que seria caso as Torres Gêmeas ainda estivessem de pé. O quão diferente, não podemos saber…

Empty Page é a faixa de abertura, uma canção que nasce devagar, baixinha, despretensiosa, com seu conjunto se montando e adquirindo volume aos poucos. Uma explosão violenta de guitarras não tarda a acontecer e logo temos uma senhora música, com direito a algo que se parece com um refrão e tudo mais. Grande abertura. E o álbum segue com as guitarras conduzindo as melodias, solando, experimentando, ou mesmo fazendo qualquer barulho. Às vezes você jura que eles estão inventando a música em tempo de execução ali, e o fazem com impressionante habilidade, tal a beleza entrelaçada à sensação de espontaneidade da coisa toda. Rain on Tin é um exemplo disso, um espetáculo de guitarras que começam furiosas ao lado do vocal de Thurston Moore, mas logo transmutam-se em um (vasto) oceano de tranquilidade e melodia, tornando-se as protagonistas únicas da música — sim, Thurston Moore cantou somente uma dúzia de palavras. Elas avançam até retornarem na metade da canção a uma violência cheia de feeling e baterias ensandecidas, apontando logo depois para um recomeço em direção a mais uma viagem melódica apoteótica, que termina após sete minutos e 51 segundos extasiantes. Encontramos outro grande momento de Murray Street na sutileza emoldurada por guitarras mais controladas de Disconnection Notice, cheia de microfonias e pequenos interlúdios ao longo de seus mais de seis minutos.

As três faixas citadas até aqui são cantadas por Thurston Moore, e sua última participação vocal se dá em Radical Adult Lick Godhead Style, na qual ele canta sobre coisas cotidianas como Nova Iorque, Lou Reed e “bubblegum disaster”, amparado por uma estridente sinfonia de microfonias que deságua em um final inaudível. Lee Ranaldo comanda Karen Revisited, que lembra um pouco o disco anterior devido à sua tortuosidade. Coincidência ou não, o resultado é irregular. Mas também é a música mais longa do álbum e tem seus bons momentos, concentrados principalmente no grandioso epílogo — que, pode-se dizer, começa após a última palavra de Lee, antes ainda dos três minutos corridos, e se estende por mais uns sete — cheio de harmonias climáticas e experimentações que desconstroem e reconstroem a melodia seguidamente.

O vocal de Kim Gordon aparece nas duas últimas faixas: na nervosa e estilhaçada Plastic Sun e na enigmática viagem conduzida por Sympathy For The Strawberry. Se por um lado Plastic Sun acaba passando meio batida com seus poucos mais de dois minutos, Sympathy For The Strawberry é arrasadora. Melodia aqui inexiste, sendo substituída por sucessões de ruído contido e guitarras em forma de ondas intensas e despadronizadas. Apesar da marcação fixa de baixo e bateria, as rédeas ficam por conta destas torrentes, que oscilam entre o nebuloso e o vertiginoso, com suas diversas graduções intermediárias ocupando novamente quase uma dezena de minutos. Para fechar seu décimo segundo LP, a banda explorou as possibilidades da guitarra com muita classe e apuro técnico, segurando um pouco a sede pelo caos barulhento, que acaba instaurando-se no finalzinho, nos últimos momentos da música. Nesse último minuto, a banda apela para riffs monstruosos e batidas colossais, um verdadeiro pesadelo que destroça o hipnotismo reinante até então. Épico de gala, grand finale para fechar também aqueles “best of” caseiros em fita K7 que gravamos para as nossas bandas preferidas que já possuem muitos discos.

A impressão maior ao final de Murray Street, analiticamente falando, é que o disco soa bastante homogêneo e maduro, com a banda pregando seu evangelho — melodia aliada às experimentações e aos megatons de guitarras — de maneira mais harmônica, equilibrando esses elementos melhor do que fizera no disco anterior. Não acho que o prestígio do Sonic Youth tenha sido arranhado em nenhum momento (até porque não considero NYC Ghosts and Flowers tão fraco como diz a maioria das críticas que eu li), mas isso não impede que a banda mostre novamente que é capaz de gravar discos memoráveis não somente para uma parcela mais restrita de fãs. Muito pelo contrário: discos como Murray Street são sempre bem vindos. E que venha o próximo, pois o reinado do Sonic Youth ainda não tem data para acabar.

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