Mellon Collie and the Infinite Sadness Deluxe Edition (LP Reedição especial)

8/10

Por Vicente M., publicada em 08/12/2012

Reedição remasterizada do clássico Mellon Collie And The Infinite Sadness.

Smashing Pumpkins

Era inevitável. Um dos discos mais emblemáticos dos anos 90, um clássico moderno, cedo ou tarde seria repaginado, remodelado e revendido para os novos (e claro, antigos) fãs. Na sequência da campanha de revisão do catálogo dos Smashing Pumpkins, chegou a vez de Mellon Collie And The Inifinite Sadness, um dos discos duplos mais bem sucedidos de uma era onde o triunfo de um álbum ainda era medido por vendas, capas de revistas, popularização via MTV e repercussão em rankings da mídia.

Billy Corgan e a gravadora EMI fizeram um ótimo trabalho com os álbuns anteriores: além de os relançarem em vinil (com destaque para Pisces Iscariot, que estava fora de catálogo neste formato), ofereceram caixas de CDs com os discos originais remasterizados acompanhados pelo resultado de um mergulho nos arquivos da banda, de onde resgataram demos, lados-b e versões alternativas de cada fase da trajetória do quarteto. Tudo muito bem dimensionado, acomodado em caixinhas diferenciadas, que efetivamente agregaram valor à iniciativa e justificaram cada centavo investido pelos fãs, numa época onde é difícil convencê-los a comprar discos “de verdade”. Com o clássico MCIS, a equipe pegou o gancho da magnitude que o trabalho ostenta, traduzindo-no numa caixa ainda mais elaborada: além da opção de quatro vinis, desenvolveu-se uma versão em CD ainda mais luxuosa e, claro, custosa.

Para justificar um preço sugerido de US$ 135, a EMI apostou em uma caixa com formato de vinil, cerca de 12” x 12” para acomodar cinco CDs e um DVD, além de um livro e um kit de découpage, uma atividade de decoração baseada na colagem de recortes sobre uma superfície. Sim, Billy Corgan espera que você recorte imagens do universo de MCIS e as utilize para decorar algum objeto de seu lar. Em termos de qualidade, o produto é coerente: os CDs e o DVD são acomodados num painel equivalente a uma capa de vinil, forrado com veludo. O livro, que merecia uma capa dura, apresenta um ensaio sobre o contexto e a importância do álbum, comentários faixa-a-faixa por Billy Corgan (nebulosos e carregados de ares poéticos inadequados), além da ficha técnica. Surpreendentemente, o livro é ornamentado basicamente por reproduções dos cinco videoclipes atrelados a Mellon Collie, além de curiosas instruções que Billy apresentou ao artista John Craig, orientando-no na época sobre suas intenções quanto à arte do álbum. A caixa ainda contém o emblemático encarte original com as letras, reproduzido em formato correspondente ao tamanho do conjunto. A proposta custosa deixa um leve gosto amargo na língua do fã que cedeu ao anseio, uma vez que o relançamento poderia ter sido plenamente representado com a mesma proposta dos anteriores, sem comprometimento da magnitude da obra.

Musicalmente, esse “novo” Mellon Collie é um deleite para os fãs que nunca tiveram acesso ao conteúdo paralelo, amplamente disponível na internet. Demos gravadas na casa de Corgan, versões inacabadas ou temporárias de músicas que chegariam ao disco, lados-b e algumas recriações propõem uma viagem pelo processo de consolidação de um disco tão rico e extenso, igualmente interessante quanto escutar o disco oficial remasterizado nos padrões de hoje. Se o fã mais xiita provavelmente já conhecia as demos caseiras de Bullet With Butterfly Wings, 1979 e Lilly (My One And Only), ele pode se surpreender com os BT 2012 mixes, recriações de algumas músicas pelo produtor / braço-direito de Corgan, Bjorn Thorsrud. Bjorn propõe desde a limpeza de algumas faixas como a cover de Isolation até a reconstrução da redentora Cupid De Locke, revelando novas nuances outrora escondidas no mix original. A análise desse material paralelo escancara auge de Billy Corgan como compositor e a incrível capacidade da banda transitar por gêneros sonoros tão contrastantes como o heavy metal (X.Y.U., Fuck You (An Ode To No One)), a delicadeza do piano (Methusela, Wishing You Were Real), o acústico intimista (Medellia Of The Grey Skies) e o alternativo noventista que os próprios Pumpkins ajudaram a concretizar (Here Is No Why, Pennies). Além disso, é recompensador navegar por canções inusitadas como Autumn Nocturne (uma favorita dos fãs, com temática intimamente ligada a 1979), Glamey Glamey (que lá adiante se transformaria em Marquis In Spades) e Jupiter’s Lament cantada feito uns Beach Boys alternativos, por todos os integrantes da banda. Há ainda algumas surpresas como duas músicas que entrariam no primeiro álbum solo de James Iha (Lover e One And Two), sugerindo que algumas composições de James foram originalmente escritas para entrar em MCIS, além de uma versão incipiente de Eye, tocada no piano, que mais tarde seria “eletronizada” para a trilha de Lost Highway. Como nem tudo são flores, há material redundante como algumas faixas da caixa The Aeroplane Flies High, já editadas oficialmente e totalmente irrelevantes nesse contexto, bem como a ausência de lados-b obrigatórios como Infinite Sadness (que continua restrita ao vinil triplo europeu). Mas o conjunto de material é expressivo e mesmo a mais despretensiosa canção carrega um conteúdo conciso, algo recorrente naquela fase particular da banda. Sua força é tão grande que ouvi-lo hoje, fora do contexto adolescente dos anos 90, não permite que eventuais exageros ou temas explorados por Corgan deturpem a imagem que ele ostenta desde seu lançamento.

Rever, portanto, um disco tão grandioso e representativo para uma geração com uma proposta atenta aos detalhes e esforçada em elevá-lo à altura que ele realmente tem é uma obrigação, da qual Billy Corgan e a gravadora não se furtaram em perseguir. Entre erros e acertos, Mellon Collie And The Infinite Sadness ganhou um projeto custoso que resultou num produto com preço acima do que ele aparentemente deveria ter. Entretanto, a oportunidade de acessar arquivos, opiniões e registros com curadoria de seu grande responsável é difícil de ser medida em valores, principalmente se for levada em conta a qualidade mais significativa que ela tem: a de reverenciar e manter pulsante cada detalhe, cada efeito que o disco produz em seus ouvintes desde 1995.

Resenhas