Interpol (LP)

4/10

Por Vicente M., publicada em 07/09/2010

(publicada originalmente em 22/09/2010 como um post do blog, antes do álbum ser lançado)

Interpol

Má notícia, meninas: uma das últimas bandas que se salvavam no mundo mainstream acaba de ligar os aparelhos. Por mais que o Interpol tenha retornado aos braços da semi-independente Matador, que ofereceu seus dois primeiros álbuns aos ouvintes e a revelou como uma das mais interessantes da década, o então quarteto não conseguiu preservar o que restou de seu prestígio em Interpol, seu mais recente trabalho.

Our Love To Admire, o disco anterior, dividiu a base de fãs. Enquanto conciliava a linguagem esperada de bandas contratadas por gravadoras majors com a manutenção da identidade celebrada em seus dois primeiros discos, experimentou aqui e ali, dando pistas que era possível fugir um pouquinho das batidas comparações com o Joy Division. É o álbum mais diversificado da banda, onde conviveram a acessibilidade de canções certeiras (The Heinrich Manouver, Who Do you Think) com propostas inéditas (Wrecking Ball, The Lighthouse). Entretanto, a partir dali o Interpol abriu mão da densidade, justamente o atributo que lhe conferia toda sua celebrada peculiaridade. Os vocais de Paul Banks começaram a mudar, tornando-se mais claros e onipresentes, derrubando as brumas que surgiam quando, até então, encontravam-se com a instrumentação do trio. Apesar de Our Love To Admire ser uma boa proposta para sobrevivência no meio major, muita gente não encontrou essas qualidades e torceu o nariz para o disco.

Interpol, que sai em setembro, é um amargo capítulo na trajetória musical da banda, o que fará muito detrator do álbum anterior rever suas opiniões. Trata-se do disco mais peculiar no catálogo, pois ele musicalmente se despede do Interpol que conhecíamos e oferece uma banda voltada para os rumos mais experimentais de Our Love To Admire. Indo mais além, as músicas aproximam-se bastante do disco solo de Paul Banks, não muito na forma como foram compostas e desenvolvidas, mas no efeito que causam no ouvinte. Basicamente, tem-se a impressão que a banda perdeu-se desde o princípio, sobressaindo-se a urgência por uma maior coesão, por uma identidade. Foi-se o elemento pulsante da dupla Carlos Dengler e Sam Fogarino, com o primeiro plano atribuído aos teclados e aos vocais e letras de Banks. O Interpol nunca beneficiou-se quando soou literal, uma vez que as letras costumavam beirar o constrangimento, dando melhores resultados quando deixadas em segundo plano. O mesmo vale para os vocais de Banks: quanto menos participativos, melhor. Mas Interpol tem esses elementos onipresentes, e eles de forma alguma agregam-lhe qualidade. Musicalmente, é um trabalho enfadonho. É arrastado, sem inspiração, provocando dúvidas sobre o interesse da banda em fazê-lo por contrato ou motivação artística. É de se imaginar que no caso deles, onde menos sempre foi mais, que a experiência com outras sonoridades ou estéticas musicais simplesmente não disparem suas maiores qualidades, ao contrário de outras bandas talhadas à constante renovação. É um dos poucos casos onde o ouvinte talvez aceite um “disco novo com músicas velhas”, se soubesse antecipadamente do estrago que a mudança poderia causar. Mesmo nos dois singles já divulgados, Lights e Barricade, não se tem a mesma firmeza dos singles dos discos anteriores, o que é de se estranhar pelo fato do Interpol ser capaz de fazer hits como Mammoth e Slow Hands no piloto automático. O restante das músicas afogam-se numa incapacidade de soar interessantes, ora insossas (Safe Without), ora inebriadas em estruturas musicais pouco desenvolvidas (The Undoing). Quando descambam para a sonolência (Always Malaise), então, bate uma saudade incrível dos registros anteriores. Sonolência, a propósito, é um fator que transborda nesse álbum homônimo.

A saída de Carlos D. após o encerramento das gravações pode ser sintomática. Alguém ali deu-se conta de que as coisas já foram melhores. O disco solo de Paul Banks / Julian Plenti deveria ter sido suficiente para que o vocalista tivesse exorcizado suas vocações composicionais, entretanto, é de se imaginar que a banda simplesmente entregou a Banks as rédeas para conduzir o seu futuro. Por mais que marque o retorno ao selo e conte com um nome de peso como Alan Moulder, o resultado está aí e, quanto mais o Interpol abrir mão de sua coletividade, mais insignificante ele se tornará para seus ouvintes. Frustrante.

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