Incesticide (LP Compilação)

9/10

Por Alexandre Luzardo, publicada em 2000

Nirvana

Talvez a simbologia que representa o momento exato do Nirvana ter atingido o topo foi em 1992, quando Nevermind tirou Michael Jackson do primeiro lugar da parada americana. A partir dali não havia mais “underground”, o Nirvana já não era mais a novidade, o “novo” sendo entusiasticamente propagado pelo boca a boca dos alternativos de plantão.

E a banda que está nessa situação, o auge, imediatamente começa a sofrer todo o tipo de pressão e cobranças. De uma hora para outra, tudo vira motivo para críticas, especulações e questionamentos. Uma das formas mais injustas de criticar o Nirvana nessa época era dizer que a banda tinha surgido do nada, que o seu sucesso foi da noite para o dia, fruto do marketing. O que hoje soa como uma heresia era repetido com frequência em 92. Foi a partir do lançamento de Incesticide que essa (falsa) impressão se dissipou. Tanto o Nirvana já tinha história que, além de um belo álbum de estreia (Bleach, 1989), a banda tinha ainda nas gavetas material inédito acumulado o suficiente para mais um disco completo. É um cenário bem diferente das bandas que são alçadas ao mega-estrelato sem ter repertório suficiente para mais de uma hora de show.

Pois bem, Incesticide não foge à regra das coletâneas desse tipo, com material bastante variado e multifacetado. Fazem parte do tempero de Incesticide os famigerados B-sides, apresentação ao vivo na BBC de Londres, experimentalismo puro e músicas que poderiam muito bem figurar nos discos de estúdio. O que destaca Incesticide das coletâneas similares é que a banda em questão é o Nirvana. E isso faz toda a diferença, tornando Incesticide um disco indispensável.

Logo de cara, Dive remete à crueza do som de Bleach, num hard rock ácido e agressivo. Sliver é uma das muitas pérolas do disco. Com uma melodia sensacional, deliciosamente pop e acessível (digna do Nevermind), Sliver apresenta uma das marcas registradas do Nirvana: um começo leve e tranquilo que vai progressivamente ganhando peso, distorção nas guitarras e intensidade no vocal. A progressão é envolvente, levando a um final apoteótico e frenético. Kurt Cobain mostra todo o seu carisma explorando uma simpática (e talvez simplória) letra sobre temas familiares. Sliver também é uma mostra do porquê de Kurt Cobain ser considerado uma das melhores vozes de sua geração. Mesmo estando longe de ser um vocalista técnico, Kurt canta muito, de uma forma intensa e cativante, em simetria perfeita com as músicas que compõe, ora frágeis e melódicas, ora tensas e agressivas.

Stain abusa na distorção da guitarra e retoma o peso de Dive. É outra música que entraria como uma luva no Bleach.

Been a Soon é mais pop, com a melodia baseada na harmonia do vocal de Kurt e de Dave Grohl. Incesticide mistura músicas gravadas por várias formações diferentes do Nirvana, incluindo três dos bateristas que tocaram no grupo (Grohl, Chad Channing e Dale Crover). Por Been a Son (apesar de ser uma música composta bem antes), percebe-se que a entrada de Dave Grohl no Nirvana não só proporcionou um ganho técnico na bateria, mas também um eficiente e poderoso backing vocal, que foi muito bem explorado dali em diante.

Turnaround é o primeiro cover de Incesticide. Gravado pelo Devo, Turnaround ganhou mais peso e distorção na versão do Nirvana. Mas o destaque da música é o sarcasmo da letra.

Molly’s Lips é mais um cover, do Vaselines, banda que Kurt nunca cansava de elogiar. Segue uma linha bem mais pop, com refrão fácil e marcante. É uma pena que jamais houve alguma colaboração entre Eugene Kelly e Kurt Cobain. Qualquer música resultante de uma hipotética parceria entre os dois seria no mínimo espetacular. Son of a Gun, também do Vaselines, segue a linha pop, ainda mais melódica e cativante. O arranjo soa bem tosco e garageiro, contrastando com o colorido ingênuo da melodia e da letra.

(New Wave) Polly é a mesma conhecida Polly do Nevermind, só que, desta vez, num arranjo ‘dedos na tomada’. Ficou uma Polly punk rock, mas talvez a versão mais interessante dessa música seja a ‘big rock version’ que entrou no álbum From The Muddy Banks of the Wishkah. Versões alternativas de lado, a definitiva é mesmo a de Nevermind, somente com aquele violão tosco e a voz de Kurt.

Beeswax abre a segunda metade do disco da forma mais insana possível, com uma letra que até hoje tentam interpretar (e não é querer saber o que significa, mas simplesmente saber O QUE DIABOS ELE ESTÁ DIZENDO!!!). Como curiosidade, Beeswax foi gravada durante a primeira experiência do Nirvana num estúdio, em janeiro de 1988 com Jack Endino.

Downer, com um andamento mais rápido e refrão poderoso, acabou entrando no Bleach como uma faixa bônus das reedições recentes em CD do álbum de estreia do Nirvana.

Mexican Seafood, com um letra um tanto nojenta (“now I vomit cum and diarrhea / on the tile floor like oatmeal pizza”) é da mesma sessão de estúdio de Beeswax. No refrão se sobressai o senso melódico de Kurt. A gravação é bem tosca, evidencia músicos ainda inexperientes, principalmente o baterista (na época Chad Channing) que mais parece amador, com muita energia e pouca técnica.

Hairspray Queen ganha o título de música mais insana e sem noção do disco. A melodia é baseada numa linha de baixo sinuosa de Krist Novoselic acompanhada por um vocal tão sinuoso quanto. Aero Zeppelin traz uma melodia mais arrastada pontuada por um riff muito rock ‘n’ roll que é acompanhado de maneira pouco ortodoxa pela bateria. O título da música seria uma referência a Aerosmith + Led Zeppelin? É possível. Aero Zeppelin encerra a sequência de músicas tiradas das sessões de janeiro de 1989.

Big Long Now é uma música única na carreira do Nirvana. Uma espécie de patinho feio, pouca gente presta atenção, mas, para aqueles que o fazem, Big Long Now revela uma melodia reflexiva e instigante. É lenta e arrastada, passa longe do que é conhecido como balada e tampouco soa agressiva.

Aneurysm, uma das melhores do disco, encerra Incesticide com chave de ouro. Riff destruidor, melodia bem resolvida e final apoteótico são os ingredientes da receita que dá certo.

Em resumo, com todos os seus altos e baixos e momentos distintos, Incesticide possui todos os elementos que fazem parte do que era o Nirvana. E talvez mostre, como nenhum outro disco da banda, o porquê do Nirvana ter se tornado uma unanimidade. Com muita propriedade, a banda possui componentes que agradam a todos os gostos, desde quem preza uma boa melodia pop, aqueles que cultuam a ideologia do som independente, os que gostam de peso e também os que são instigados pela originalidade de um bom experimentalismo inconsequente.

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