In Rainbows (LP)

10/10

Por Natalia Vale Asari, publicada em 09/11/2008

Radiohead

Aos trinta anos, você acha que já viu de tudo, que as suas bandas preferidas já lançaram todos os seus discos preferidos e as suas músicas preferidas. O ceticismo alimentado por cada década a mais na idade. Eu tinha a certeza absoluta de que o Radiohead tinha chegado ao ápice com Ok Computer, apesar de muito admirar, encorajar e, por vezes, me comover com o som indefinível forjado desde Kid A até Hail to the Thief.

Como acontece a toda verdade absoluta, a queda do mito se deu bruscamente. Afinal, por que a melhor música de todos os tempos teria sido criada justamente durante a minha adolescência? In Rainbows me fez notar que, sim, há discos perfeitos que ainda não foram feitos. Um a cada década, e vale a pena esperar.

Claro que o sub-contexto do lançamento de In Rainbows ajudou a aumentar a admiração. Sou fã quase incondicional da postura do Radiohead: o lançamento do disco pelo sistema pague-quanto-quiser na internet; a preocupação em diminuir o gasto de energia nos shows; o vídeo para House of Cards com tecnologia de ponta. Só que isso tudo nada vale perto da música em si. O mais atrativo do Radiohead é, na verdade, a liberdade conquistada à força para fazer música sem descrição. Foi esse último componente, elevado a novas potências e levado por novos caminhos, que realmente me marcou em In Rainbows.

Nude serviu como a primeira isca. Nunca havia associado esse adjetivo a uma música: sexy. Só assim ela pode ser compreendida. Charmosa, chamativa, e a que mais tem ecos do Ok Computer. (Não é à toa: soube recentemente que ela foi concebida exatamente naquela época, e há até uma versão rudimentar dela no DVD Meeting People is Easy.) Nude também revela o que o In Rainbows tem de melhor: é um disco mais simples e direto, ao mesmo tempo que incorpora vários sabores de todos os trabalhos anteriores do Radiohead. Talvez o disco solo do Thom Yorke, Eraser, carregado de experimentalismos, tenha permitido o Radiohead voltar a elementos anteriores sem culpa.

Has the light gone out for you?
Because the light’s gone out for me

Mas deixemos Nude para depois, porque todas as músicas desse disco são especiais. Tentemos um música-a-música, apesar de sempre me parecer ridiculamente difícil tentar explicar o que cada uma provoca. 15 Step abre sem rodeios: cortante, brusca, invasiva. Uma bateria, e oito segundos depois a voz de Thom Yorke. Tudo muito alto. Uma guitarra melodiosa enche mais a música lá pela primeiro minuto, e um ocasional eco, baixo, crianças gritando se alternam e se empilham a partir da segunda metade. Apesar dos sons misturados, tudo se encaixa e faz uma perfeita trilha sonora para o lançamento de uma nave especial.

Bodysnatchers parece continuar no mesmo caminho da anterior: tudo muito alto, entrelaçado. Tão mais alto que parece que 15 Step não terminou. Nem mesmo existiu. Bodysnatchers torna impossível lembrar de qualquer outra música enquanto ela ressona. E, com esse começo um pouco inóspito, parece que o Radiohead vai continuar com experimentos à la Kid A.

Então entra Nude. Ela não só é bela por si só, mas também muda a percepção das duas música anteriores: elas ficam menos agressivas e frias, mais humanas. Os primeiros segundos da música são apenas um cântico fantasmagórico e a voz de Thom Yorke acompanhando. (“A voz de Thom Yorke” basta como descrição.) O eco, o baixo persistente, o som de órgão, a guitarra às vezes mais clara. Em nenhum momento é óbvio como essa música foi trazida do plano surreal para o mundo real. E é nela que Thom canta “Don’t get any big ideas, they’re not gonna happen”. Nada mais distante do que o Radiohead alcançou: idéias muito, muito grandes, culminadas em In Rainbows.

Segue mais outra confluência de grandes idéias. Weird Fishes / Arpeggi resume toda a primeira parte do disco. Ela inicia inquieta, com um arranjo melódico bonito, como um eco de Nude. Um piano incessante marca o pesadelo da tal viagem ao fundo do mar. E, ao fim, surgem de novo os sons carregados e mais experimentais que abriram o disco. Arpeggi acaba subitamente.

I love you but enough is enough
Enough

Então entram as duas músicas de transição do disco, depois do início febril-agitado (por vezes na música, por vezes nas letras). All I need foi a canção que mais havia me chamado a atenção nas primeiras e desatenciosas audições. Depois de tanta energia despendida no início do disco, ela até parece comum, apesar das distorções guitarrísticas que a permeiam. Na verdade, ela é mais próxima do Ok Computer (Karma Police, se não estiver delirando) do que a própria Nude.

Não é difícil render-se a essa nova etapa mais calma, no entanto. Principalmente quando entra a minimalista Faust Arp. Minimalista ao menos nos instrumentos, porque a letra é contínua, sem pausa para respirar, do estilo que me hipnotiza.

No matter what happens now
You shouldn’t be afraid
Because I know today has been
The most perfect day I’ve ever seen

A segunda parte do disco, mais meiga e fascinante, abre com Reckoner. Não é possível entender nada do que o Thom Yorke canta aqui, e, mesmo assim, sabe-se que é triste. Triste, mas não importa. Triste e belo; tristeza desimportante. Há vários instrumentos preenchendo o espaço, com certo ar de Arpeggi. A pequena pausa no meio da música é a representação sonora mais perfeita daquelas primeiras horas da manhã, em que só você está acordado, em que o mundo está tão quieto e só seu. E Reckoner desaparece lentamente, no mesmo ritmo da noite apagada pelo brilho do céu.

Uma pequena pausa para as letras, apesar de Reckoner ser ininteligível sem ajuda de um encarte ou pesquisa na internet. Primeiro esclarecimento: a interpretação para as letras de cada pessoa é, provavelmente, muito diferente do que o compositor tinha em mente. Segundo esclarecimento: isso não significa que essas outras interpretações estejam todas erradas. Terceiro esclarecimento: a maioria das letras perde sentido fora da música. O fato é, crianças do mundo, que este é o disco do Radiohead com as letras mais pessoais até hoje. A angústia com a humanidade e com o seu destino continua ali, mas ela está retratada em pequenos detalhes do dia-a-dia. (Claro, eu considero a ficção científica de invasão de corpos em Bodysnatchers como algo do dia-a-dia; a sua tolerância pode variar.)

House of Cards continua com o ritmo sonâmbulo, pouco amiga de descrições. Além daquele eco na voz do Thom Yorke, que nunca é exagerado. Apesar de ser uma das músicas mais belas da obra, vou me conter nos adjetivos. Como eu disse, não há nenhuma boa descrição. Sou salva por Jigsaw Falling into Place, com as suas muitas camadas de instrumentos, nenhuma especialmente esquisita. Ela é uma crítica cantada com uma voz tão doce que parece ser sobre um mundo bem distante de quem canta. Uma crítica a algo que já perdeu sentido. Então, “ah, ah, ah, dance, dance, dance”.

Videotape fecha o disco em um tom simples, piano e voz. Um fim nada apoteótico. Essa música encerra em si o que o Radiohead pode fazer, despido de frescuras: boa música. E essa é a característica mais marcante de In Rainbows como um todo: ele representa todo o universo à parte do Radiohead, mas na sua forma mais pura, sem tantas distrações. Lanço muitos superlativos à toa, mas não esse: ele é o disco mais perfeito da década. In Rainbows impele a buscar e impede achar explicações racionais para tal afirmação. É impossível explicar o reapaixonar-se, ou escolher combinações de palavras que façam jus ao disco. O melhor que resta são meias-palavras e inícios tímidos para descrever esse disco multiforme. Disco daqueles que se transformam em trilha sonora para qualquer momento da vida. Quem sabe esse é o disco da minha vida. Até a próxima década.

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