Grand Prix (LP)

10/10

Por Eduardo Carli de Moraes, publicada em 06/2005

Publicado originalmente no blog Muminha

Teenage Fanclub

A adolescência é engraçada — e não somente pelo pipoco das espinhas pela cara, dos pêlos pelo corpo e da vozona de macho na garganta, mas pelo monte de contradições e desejos conflitantes que fazem essa época tragicômica da vida: que adolescente sabe ao certo o que quer ser? Olhando para trás, em direção aos discos que mais marcaram essa época de pesadelo que é a adolescência, acabo por descobrir altas contradições musicais. Eu parecia dividido em pelo menos dois “eus” (mas é claro que eram muitos mais!): um lado meu tinha aquele ímpeto rebelde e iconoclasta e se sentia atraído pelas Bestialidades Sonoras, pelas guitarras imundas, pelos gritos e urros mais raivosos –– música que tinha aquela indispensável característica de fazer todas as “pessoas normais” ficarem loucas de raiva e reprovação, e com dor de ouvido, claro. Já a tendência melancólica, a inevitável tristeza que por vezes dominava, solicitava algo de mais doce, carinhoso, amável… Na minha prateleira de CDs, conviviam sem briga os discos do Slayer, do Iron Maiden e do Nirvana com os do Belle and Sebastian, do Radiohead e do Teenage Fanclub. Os primeiros, ouvidos no volume máximo, pra infernizar os vizinhos e a família, só pra dar provas de rebeldia. Os outros, secretamente apreciados no escuro, com fones-de-ouvido e por vezes vergonhosas lágrimas inseguráveis. Através da música, era dada a mensagem para o mundo lá fora: ou te ensurdeço, ou não te escuto…

O Teenage Fanclub foi uma dessas bandas que mais marcou a minha adolescência, uma das que eu adorei com mais fanatismo, uma das que fizeram aqueles anos de pesadelo um pouco mais suportáveis, um pouco menos sombrios. Eu suspeito que aquilo que os jovens dos anos 60 descobriram ouvindo Help!, Rubber Soul, Sgt. Peppers ou Pet Sounds eu descobri ouvindo Grand Prix, Bandwagonesque e Songs From Northern Britain. O quê? A banda pop perfeita. Com tudo redondinho e impecável, sem uma nota fora de lugar, sem uma mínima desarmonia pra incomodar: música praticamente impossível de não curtir na hora, sem pensamento, sem juízo, na simpatia mais espontânea. Depois da experiência Teenage Fanclub, tirei pra mim uma lição que uso até hoje pra julgar a música: se eu tenho que pensar pra decidir se uma banda é boa ou não, essa banda tem muita chance de não ser realmente boa. Com o Teenage Fanclub eu nunca precisei pensar ou “procurar razões” para justificar se a banda era boa ou não: gostava de cara e pronto –– e quem precisa outra razão a não ser o sentimento?

Esse quarteto escocês de Glasgow nunca explodiu comercialmente em lugar nenhum (e mesmo nos EUA é banda pequena, nem tem certos de seus discos lá lançados), mas conseguiu compensar a falta de sucesso nas paradas com a conquista de um séquito extremamente fiel de fãs. São poucas as pessoas que chegam a conhecer o Teenage Fanclub; mas, dessas poucas, são muitas as que passam, daí em diante, a chamá-la de Banda da Minha Vida.

Os caras foram pescar nos anos 60 e 70 as maiores inspirações para o seu power-pop guitarrento e doce, erguendo, em plena década de 90, um monumento estupendo em homenagem aos seus heróis do passado: principalmente os Quatro Bês (Beatles, Beach Boys, Big Star e Byrds), mas também gente como Neil Young, Gram Parsons, Badfinger, entre outros. O nome da banda já entregava a intenção: o Fã-Clube Adolescente compunha melodias grudentas em adoração ao pop-perfeito do passado, com nenhuma intenção “revolucionária” ou “vanguardista”. E confesso que por vezes eu chegava a pensar que o que eles fizeram, muito mais do que somente um ato de adoração a grandes bandas antigas, era… superação.

Sim: cheguei a me convencer, com aquela tradicional pagação-de-pau exagerada característica de todo fã adolescente, que o Teenage Fanclub tinha superado qualquer banda dos anos 60 em termos de perfeição pop. Hoje já não tenho tanta certeza, e nem me importo em ter — afinal, não é preciso escolher entre o Teenage Fanclub e os Beatles, por exemplo, quando se pode ter os dois. O fato é que o Teenage Fanclub permanece ainda hoje como a principal referência do revival do power-pop nos anos 90, e é banda ainda insuperada por tantas outras que tentaram fazer o mesmo (Posies, Matthew Sweet, Cosmic Rough Riders, Shins, Sloan, Ash, Brendan Benson, …). E permanece o mistério: como é possível que o Teenage Fanclub, essa banda tão irresistível, não tenha vendido milhões de cópias e se mantenha ainda hoje como uma banda cult de baixas vendagens?

Grand Prix, segundo a opinião quase unânime dos fãs, é a obra-prima — se bem que haja quem prefira o lado mais “sujo” de um Bandwagonesque ou Thirteen, discos com um peso maior nas guitarras distorcidas, ou os discos mais “fofos” e baladeiros que virão depois, como Songs From Northern Britain e Howdy!. Mas Grand Prix, com sua produção cristalina, com suas guitarras menos feedbackadas e microfonadas, com seus vocais perfeitamente harmoniosos, com seu trabalho de equipe muito bem coordenado, é onde está reunida toda a verve dos Teenages. Um disco um tanto “humilde”, sem dúvida, que não se propõe a salvar o mundo, fazer espetáculo, revolucionar o rock ou instaurar uma nova vanguarda — e retrô, também, sem nenhuma grande ousadia. Mas eu não vejo como reclamar de um disco desses por ser um tanto “revisionista” e por soar como coisas que já ouvimos antes, pois tudo por aqui é inspiradérrimo, apaixonado, sincero, borbulhante de vida e de sentimento.

O ano era 1995, no miolo de uma década um tanto cínica e sombria, que tinha sido dominada até então pelo niilismo anárquico e suicida de Kurt Cobain e pelo punk ensombrecido de Seattle. Tempo de sombras. E o Teenage Fanclub ousou cometer um disco que ninguém ousava então: cheio de silly love songs cantadas sem um pingo de ironia, de cinismo, de rebeldia ou de escuridão. Esse quarteto de Glasgow, composto por jovens bem-educados e certinhos, não tinha nada a ver com a imagem do rock-star cabeludo, fedido, bêbado, autodestrutivo e comedor de groupies — chegaram mostrando que havia espaço para a doçura e para a delicadeza no rock dos 90. “Música de mariquinha!”, alguns vão dizer. Mas quem disse que só os machões marcam a história do rock? Bobagem. Na década da descrença, o Teenage Fanclub veio e disse, sem vergonha: acreditamos no amor, na honestidade e na gentileza! Divindades que estavam, naquela época, tão fora de moda. Fora de moda, sim, mas a moda é algo que não dura: e as divindades cultuadas pelo Teenage, no fundo, são atemporais e sempre terão seus cultuadores. E eu não me importo de estar entre eles.

Tudo bem que há momentos não tão perfeitos em Grand Prix, principalmente por causa das músicas do Raymond McGinley, o menos talentoso dos três compositores da banda. Sempre achei que o Norman Blake e o Gerard Love teriam feito melhor se tivessem barrado as composições de Ray, as três que eu menos gosto no disco (Verisimilitude, Say No e I Gotta Know). Apesar de serem perfeitamente audíveis e agradáveis, elas empalidecem em comparação aos grandes clássicos, que são mesmo da dupla Blake e Love (ouso dizer: o equivalente noventista ao Lennon e McCartey do passado). Infelizmente, Raymond não é o George Harrison do Teenage Fanclub. Minhas prediletas, até hoje, são Sparky’s Dream, com seu idealismo romântico exagerado, I’ll Make It Clear, com sua ingênua simplicidade, e, óbvio, o clássico dos clássicos, Neil Jung, talvez a melhor pepita da história do power-pop e séria candidata à Música da Minha Vida.

E as letras, que muito crítico sério considera o ponto mais fraco do Teenage Fanclub, podem mesmo parecer um amontoado de clichês românticos. À primeira vista, os escoceses não trouxeram nada de extremamente original ao formato, usado e reusado, da canção de amor. Mas nunca me importei muito com isso. Tudo parecia sincero, e era o que importava. E eu me lembro bem o quanto os caras do Teenage Fanclub conseguiam, por vezes, expressar exatamente o que eu tava sentindo: decepção por não conseguir concretizar certos platonismos (“It gives me pain when I think of you / And the things together we’ll never do”); cansaço e melancolia derrotista (“You’re tired and you’re broken / Your true feelings remain unspoken / You couldn’t hide behind your name”); sonhos amorosos bobalhões (“Just something simple and unaffacted / We’re getting closer than we expected”); sem falar nas frases bobocamente românticas, mas que, não tinha jeito, eu gostava (“Love is easy to define / Mine is yours and yours is mine / Through the pain, through the pain”).

Sim, já cheguei a desprezar o meu Teenage Fanclub, a achar que era uma banda “bonitinha demais pra ser verdade”, a encostar os CDs no fundo da gaveta e deixá-los tomando pó. “Lixo kitsch! Música de marica!”, dizia nos meus momentos mais rebeldes. Mas o fato é que sempre que eu ponho algum disco deles pra ouvir, e em especial o Grand Prix, isso me faz um bem danado: a vida fica instantaneamente mais leve, mais fácil, mais simples. Sem falar do prazer da memória: talvez os momentos de maior alegria da minha adolescência inteira tenham se dado ouvindo o Teenage Fanclub, esse refúgio musical contra as tempestades do mundo. Se eu pudesse escolher morar dentro de um disco, me exilando numa Casa de Música, esse seria provavelmente o meu escolhido. Como não posso, me contento em ir até esse Poço de Doçura que é o Grand Prix e pegar pra mim, vez ou outra, um pouco de alegria — com meu balde furado…

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