Expo 86 (LP)

6/10

Por Vicente M., publicada em 26/08/2010

(publicada originalmente em 06/06/2010 como um post do blog, antes da seção do Wolf Parade ser publicada)

Wolf Parade

Vocês sabem que o Wolf Parade é uma das preferidinhas por aqui, então supõem que uma boa salivação produziu-se quando anunciou-se em 2010 o lançamento do terceiro disco da banda. O quarteto é dos poucos que representa alguma inovação no rock dessa década, não sendo exatamente pela capacidade de fazer discos transcedentais, mas por fazer músicas não-convencionais destinadas a um público tão impactado por imagem. Mas no caso do Wolf Parade, os óculos Wayfarer, a camiseta estampada ou o cabelinho não são o foco principal.

A obra desses canadenses sempre puxou para um resultado torto, quebrado. Ao mesmo tempo que seus discos são magnéticos para os ouvidos, a linguagem é confusa: vocais embriagados, guitarras sujas, tecladões e sintetizadores datados correndo junto de composições altamente melodiosas, essa a grande cartada dos caras. Tudo polarizado pela distinção das composições de Spencer Kruger e Dan Boeckner. E se Apologies To Queen Mary foi uma estréia de luxo, um conjunto perfeito de semi-hits para uma nova geração, At Mount Zoomer representou a elasticidade das composições, com a banda soando experimental, graças à liberdade permitida pela auto-produção e gravação caseira. Eis que Expo 86 chega à internet como mais um capítulo de mudança, mas, dessa vez, menos inspirada.

Novamente, sobressaem-se as diferenças entre as músicas escritas por Spencer e Dan. Spencer ainda responde pela face ébria do Wolf Parade, muito em função de seus vocais dissonantes e de seus teclados exóticos, sempre em primeiro plano. Mas enquanto suas faixas em At Mount Zoomer apresentavam ganchos escondidos em estruturas um tanto complexas, aqui elas soam burocráticas, o que é de supreender por pertencerem ao “dono” do Sunset Rubdown. Tem-se a impressão de que não se estava nas melhores safras para escrever um novo disco e, por mais que Spencer tenha tentado, suas faixas parecem girar em círculos, relutando em tangenciar como elas comumente fazem com tantos méritos. As exceções são In the Direction of the Moon com alusões ao reggae e What Did My Lover Say? (It Always Had to Go This Way), talvez a melhor do disco e quase uma continuação de Kissing The Beehive, do disco anterior.

Já Dan é o mesmo rocker de sempre e sua contribuição ajuda manter o corpo respirando. Entretanto, quem escutou Handsome Furs, seu projeto paralelo, perceberá que as novas músicas remetem àquela simplicidade, curta e grossa. Se anteriormente havia uma divisão entre o Wolf Parade e o Handsome Furs, em Expo 86 as faixas de Dan parecem compostas para seu projeto, embora executadas pela banda. Ainda assim, há acertos como Little Golden Age e Ghost Pressure, onde seus rocks matam a questão. O ponto alto é Yulia, que ajuda a lembrar como esse cara sabe escrever faixas irresistíveis.

Expo 86 transmite um ar de precipitação, de urgência em finalizar o projeto (o release do disco afirma que o álbum foi gravado em um curto espaço de tempo, uma resposta ao longo período dedicado ao álbum anterior). Infelizmente, a decisão por enfurnar-se num estúdio com um produtor e calendário rígido prejudicou o som do quarteto, que parece focado em fazer um álbum de hits, acessível, quando talvez fosse mais produtivo seguir a intuição experimental tão fortuita em At Mount Zoomer. De qualquer forma, há de se conceder uma dose de complacência à Expo 86: ele fatalmente embalará bons momentos em 2010.

Resenhas