Experimental Jet Set, Trash And No Star (LP)

8/10

Por Alexandre Luzardo, publicada em 22/06/2001

Sonic Youth

Em 1993, o ano do “alternativo”, se vivia uma época em que qualquer disco lançado por qualquer banda de rock decente corria o risco de fazer um enorme sucesso. Todos estavam prestando atenção. E o Sonic Youth, a banda de rock alternativo por excelência, não escapou dessa expectativa.

Depois de uma sequência de três clássicos imortais, Daydream Nation, Goo e Dirty, o Sonic Youth estava se tornando um nome bastante conhecido. A banda e seus integrantes, Thurston Moore, Kim Gordon, Lee Ranaldo e Steve Shelley eram figurinhas carimbadas, citados por todos como ídolos da nova geração do rock que estava surgindo, influência fundamental dessa turma. Até na MTV o Sonic Youth vinha ganhando bastante espaço, especialmente com os videoclipes de 100% e Sugar Kane. Mas quando Experimental Jet Set Trash And No Star foi lançado, mais uma vez ficou claro que o Sonic Youth estabelece suas próprias regras, sem receio de experimentar e sem fazer concessões à música pop, mesmo que naquela época o rock alternativo fosse a palavra de ordem na música pop. É dito isso porque Experimental Jet Set Trash And No Star é uma espécie de ruptura com a linha que a banda tinha estabelecido com Daydream Nation e já vinha aprimorando desde anos antes. As guitarras continuam imprevisíveis, mas são mais econômicas e precisas. Já não é mais tão evidente aquela parede de guitarras distorcidas que dava densidade ao som da banda. E, com isso, Experimental Jet Set Trash And No Star é um desafio para o ouvinte médio que vinha se habituando ao Sonic Youth e de repente se vê diante do inesperado.

E são muitas as surpresas, a começar pela primeira faixa, a belíssima canção acústica (!) Winner’s Blues. Numa linha melódica que alguns anos mais tarde iria render o clássico The Diamond Sea, Winner’s Blues é apenas Thurston Moore na voz e violão. A gravação é grosseira, o som é abafado como o de uma fita demo mal acabada, e faz um contraponto bem interessante com a leveza e a pureza da melodia.

A estranhíssima Bull In The Heather é toda Kim Gordon. Com o seu vocal bem distinto e peculiar (vai do urro ao sussurro com uma classe que só ela tem), Kim transpira sensualidade em uma melodia esguia pontuada pelos mais excêntricos ruídos nas guitarras. O baterista Steve Shelley rouba a cena por alguns momentos com sua batida dançante. O curioso é que Bull In The Heather ganhou um videoclipe e quem melhor aparece em cena no vídeo não é nem Kim nem Steve, e sim ninguém menos que Kathleen Hanna (Bikini Kill), que aparece várias vezes dançando loucamente por entre os integrantes da banda.

Starfield Road traz as distorções de volta: com muita zoeira nas guitarras, tem mais de um minuto de introdução até Thurston entrar com a melodia, que vai evoluindo até um final inesperado, que leva de sobressalto a Skink, mais uma bela contribuição de Kim Gordon. Melodia bem lenta, na linha das músicas mais sinistras do Sonic Youth. Pense em Schizophrenia, mas sem distorções (cortesia da produção cristalina de Butch Vig). Na letra, Kim revela as verdadeiras intenções maliciosas da música com todo o seu requinte. Screaming Skull já é mais animada, e funciona como um resumo do melhor do rock alternativo da época; poderia tanto figurar num álbum como Bleach (aquele solo!) como no Doolittle sem problemas.

Self-Obsessed And Sexee é uma das melhores do disco. Thurston se aproxima de estruturas mais convencionais da música pop, o verso-refrão, ressaltado por um arranjo excepcional. Depois, Bone começa com bateria e baixo em estado de convulsão; logo em seguida entra uma melodia letárgica, quase imóvel (porém excelente) de Kim Gordon.

Androgynous Mind é no mesmo estilo de Screaming Skull, aquela reinvenção do punk-rock que o Sonic Youth faz com muita propriedade. Thurston talvez exagere um pouco no “hey hey it’s okay”, mas, na linha “hey ho let’s go”, até que funciona bem. Já Quest for the Cup tem dois momentos distintos, como se fossem duas músicas em uma. No primeiro Kim experimenta a sua melodia mais direta e minimalista possível. No segundo, mais uma vez fica evidente como o Sonic Youth (e Kim Gordon) foi importante para uma série de bandas com lideranças femininas surgidas nos anos 90, já que traz muitos elementos que Hole, Babes in Toyland e outros grupos assimilaram tão bem.

Waist Away é outro rock certeiro (e mais um com solo excepcional), enquanto que Doctor’s Orders é mais uma de Kim Gordon, onde ela manda ver um refrão dos mais cativantes. Tokyo Eye é a mais música mais insana de Thurston no disco, com vocal sussurrado e arranjo inusitado. A bateria é robótica, lembrando bateria eletrônica, acompanhada por uns efeitos de distorção (de guitarra?) que lembram os efeitos/sintetizadores das bandas ditas “industriais” como Ministry e Nine Inch Nails.

O rock mais intenso de In The Mind of the Gorgeous Reader é a última faixa com vocal de Thurston, e cabe a Kim Gordon, em Sweet Shine, a tarefa de encerrar o álbum. Em uma mistura improvável, Sweet Shine consegue ser suave e perturbadora. Levando o vocal com suavidade, na metade da música Kim solta um empolgado “WOOOOOOOOOOOOOHHHH I’M COOMING HOOOME”, cumprindo bem a tarefa de encerrar mais um disco instigante do Sonic Youth.

Experimental Jet Set Trash And No Star nunca vai ser o disco pelo qual o Sonic Youth vai ser lembrado. Mas é um álbum importante, pois a partir dele ficou definitivamente provado que o Sonic Youth jamais será “a nova sensação” das paradas, uma vez que a banda respondeu com ousadia e criatividade a um momento crítico, quando o público tinha a expectativa do “mais do mesmo” e se viu surpreendido e desafiado.

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