Eponymous (LP Compilação)
Normalmente as coletâneas são consideradas itens menores na discografia de um artista. E não sem razão, na maioria das vezes se trata apenas de uma maneira simplista da gravadora faturar. A idéia aqui não é contrariar a regra fazendo uma apologia das coletâneas. Até porque Eponymous não foge à regra, foi lançada pela gravadora I.R.S. no momento em que o R.E.M. assinava com a Warner, sendo então a última chance de seu artista mais ilustre trazer algum lucro para sua antiga casa.
Os dois tipos mais comuns para as compilações de um único artista são explicados pelos nomes. Os “Greatest Hits” são os maiores sucessos enquanto que o “Best Of” é para as melhores músicas, sucessos ou não (e os critérios são sempre subjetivos e dignos de controvérsias). Eponymous (uma maneira original de auto-intitular um disco) se encaixa melhor no perfil “Best Of”, simplesmente porque o R.E.M. não era uma banda que tivesse “maiores sucessos” na época. E talvez o que redime Eponymous como um grande disco seja justamente isso: numa época em que rock alternativo era verdadeiramente anônimo, uma coletânea como essa fez o caminho mais fácil para resgatar o passado do R.E.M. para o público que descobriu a banda três anos depois do seu lançamento, pós-Losing My Religion. Ou melhor, serviu para o público descobrir que essa banda tinha um passado.
E que passado…
Em Eponymous são revisitadas músicas dos cinco álbuns lançados pelo R.E.M. até então. Todos sem exceção hoje figuram nas infindáveis listas de melhores discos dos anos 80, mas que poucos tiveram oportunidade de ouvir na época. E a escolha das músicas da coletânea faz justiça (ou, ao menos tenta), só tem filé, o disco flui fácil da primeira a última faixa. E para não dizer que Eponymous não trazia nada de inédito, Radio Free Europe, o primeiro single do R.E.M., foi incluída na sua versão demo, e por sinal, com vantagem sobre o original. A música abre o disco num pique roqueiro ausente na primeira versão, a bateria ganha mais vida abandonando o tom pasteurizado da gravação que saiu no álbum Murmur. A seqüência de Eponymous é fantástica, com Gardening At Night mantendo a pegada rock mas introduzindo um ar contemplativo que é acentuado na reflexiva Talk About The Passion, que vem a seguir.
So. Central Rain é um capítulo à parte, trata-se de uma das melodias mais bonitas que o R.E.M. já produziu. Michael Stipe já disse em várias entrevistas que na época não tinha tanta preocupação com as letras, com o processo de criação mais voltado para a melodia, encaixando as palavras que dessem o melhor andamento possível à canção. É o mesmo caso da belíssima Driver 8, onde os versos se sucedem sem repetição de frases tornando a música ainda mais interessante a cada passagem. As melodias são tão boas que prescidem de rimas. E cabe ao ouvinte decifrar significados em versos como “The power lines have floaters so the airplanes won’t get snagged / Bells are ringing through the town again”. Cada um cria suas próprias imagens e as minhas são todas muito bonitas.
A maioria das músicas do disco tem jeito de hit mesmo não sendo propriamente sucessos. O caso mais notório é Fall On Me, onde, apenas em seu segundo álbum, o R.E.M. conseguiu sintetizar com propriedade as características que formam a identidade única da banda numa canção extremamente palatável e familiar mesmo para quem ouve pela primeira vez. É como se o R.E.M. tivesse nascido pronto e maduro. Estão lá as jangling guitars ou ringing guitars, ou qualquer que seja o termo usado para descrever as linhas da guitarra de Peter Buck, e o backing vocal preciso de Mike Mills que constrói um segundo refrão junto ao de Stipe, constintuindo duas linhas melódicas simultâneas num mesmo momento. É um recurso simples, mas que dá um toque de brilhantismo e riqueza à música. A mesma característica aparece em vários outros momentos, como na própria Driver 8 ou So. Central Rain, e brilhantemente em The One I Love. Aliás, esta última sim pode ser considerada um hit, tirado do álbum Document, que levou o R.E.M. para a Warner. Até hoje toca em rádio, apesar da letra obscura; na descrição do próprio Stipe, começa singela para depois surpreender, “essa vai para aquele que amo”, e então… “FIRE”.
Como instrumentistas, Buck, Mills e o baterista Bill Berry eram econômicos ao extremo, onde a virtude maior é a de encaixar o arranjo certo para cada música, sem virtuosismo fora de contexto. Um dos maiores acertos é o arranjo acústico com violões e piano (de Mills) para a (Don’t Go Back To) Rockville, que realça com perfeição o tom bucólico de melodia e letra. É praticamente impossível recriar a música em outro formato, a banda sabia como nunca levar suas canções ao melhor resultado possível. Outro exemplo é o solo de Peter Buck em The One I Love, simples ao extremo, mas inesquecível, pelo timbre e andamento.
Os únicos momentos do disco que não cabem na categoria ‘indispensável’ são em Can’t Get There From Here e Finest Worksong, onde a obra do R.E.M. soa perecível ao tempo. Ambas parecem um tanto datadas no contexto de hoje, mas ainda assim são como fotografias de época.
Eponymous encerra com It’s the End of the World As We Know It, que é o tipo da música que acontece uma vez na carreira de uma banda. A letra costura fragmentos de piadas internas (como os nomes com iniciais em L.B. que supostamente surgiu de um sonho), e inúmeras referências do que Stipe vinha lendo, ouvindo e vivendo na época. É uma música de boas tiradas, uma delas é “offer me solutions, offer me alternatives / and I decline”. E tudo isso embalado num rock pulsante e com um refrão que leva às últimas conseqüências a já citada característica da banda em sobrepor melodias. No final, o refrão vai se repetindo como um mantra, ora uma ou outra melodia toma a linha de frente e a sensação é de que a música poderia se estender eternamente. Trata-se de um clássico. Incontestável. Right? Right!
A partir de Eponymous, o R.E.M. seguiu pela década de 90 adentro até hoje, acertando, errando, e lançando álbuns memoráveis pelo caminho. E continua a despertar o interesse de ouvintes de diferentes gerações, que uma hora ou outra ainda terão de descobrir o R.E.M. da década de 80. E vão encontrar em Eponymous uma forma de fazer isso pela porta da frente.


