Around the Sun (LP)

6/10

Por Alexandre Luzardo, publicada em 01/2005

R.E.M.

Saiu em praticamente todos os lugares que esse álbum não é o bicho. E realmente não é. Faltou ousadia, em Around The Sun não se vê o R.E.M. se arriscando ou se renovando em novas sonoridades e estruturas. Quem acompanha o R.E.M. está acostumado a se surpreender entre um disco e outro, o que não é o caso aqui.

Não que seja a primeira vez, já em Reveal a banda vinha pisando em território seguro e conhecido, mas desta vez fica a impressão em várias músicas (The Worst Joke Ever, The Ascent Man, e a própria faixa-título) de que o R.E.M. parece estar no ‘piloto automático’, sem inspiração para oferecer um algo mais. O grande mote do álbum quando de seu lançamento foram as letras políticas, mas as letras não são incisivas o suficiente para ficar em primeiro plano, não tiram o foco das músicas. Pesando esses aspectos todos, Around The Sun acaba por ser um disco que não satisfaz. Na hipótese positiva, pode ter sido apenas um passo em falso, mas não deixa de ser um sinal de esgotamento.

Em algumas músicas, a banda fica no quase. Wonderlust por exemplo, é uma boa música, mas falta o brilhantismo que faria dela uma canção inesquecível. Também é o caso de Aftermath, com bela melodia, mas se perde no refrão, não se resolve em algo realmente impactante. Não são mais do que corretas. Electron Blue é a mais eletrônica do disco, com os teclados de Mills relembrando o que a banda já havia usado no álbum Up acompanhado por uma batida eletrônica bastante agressiva. No entanto, a melodia vocal é doce e contemplativa, destoando do arranjo, e não levanta a música.

Michael Stipe fica devendo especialmente na balada Make It All Ok, que passa longe do melhor que a banda já produziu, exagerando no sentimentalismo que a letra não ajuda a segurar. Seria o pior momento do álbum não fosse a inócua High Speed Train, com seu andamento repetitivo, arrastado e interminável, que parece não chegar a lugar algum.

E Stipe sempre foi um vocalista não menos que brilhante, mas algo incomoda nesse disco. Principalmente nas músicas onde ele canta num tom mais baixo (Make It All Ok, Final Straw, I Wanted To Be Wrong), há sempre uma espécie de ‘sopro’ no fim de cada verso. Claro, nada que se compare a uma Mariah Carey cantando, mas incomoda.

Leaving New York poderia ter sido o single redentor que daria ao R.E.M. o sucesso que a banda tem se ressentido, especialmente nos EUA (na Europa e no restante do mundo as vendas andam bem mesmo sem grandes singles). E a música tem todos os elementos para isso, é bem construída e melódica, tem um bom refrão e resgata no final o antigo hábito do R.E.M. de sobrepor melodias. A diferença é que Michael Stipe toma conta de todas as vozes, não abrindo espaço para o backing vocal sempre tão competente de Mike Mills. Com isso fica um certo desconforto, uma artificialidade que passa uma sensação de superprodução que não faz bem ao som da banda.

A grande canção é Boys In The Well, que começa só na voz e violão, abrindo espaço aos poucos para os demais instrumentos e culminando no melhor refrão do disco, pontuado por um tecladinho certeiro de Mike Mills. Já Final Straw remete aos momentos mais introspectivos de Out Of Time. Predominantemente acústica, propõe um clima mais intimista, se sobressaindo o violão, teclados e percussão leve acompanhando o vocal quase sussurrado de Stipe. I Wanted To Be Wrong, apesar da melodia um tanto previsível nos versos, dá um show de leveza e chega a surpreender com o jogo de vozes que serve de refrão marcado por pequenos ‘trovões’ da guitarra.

The Outsiders também funciona bem, mais uma canção com aquele traço de desesperança tão característico do R.E.M., com destaque para a frase de guitarra de Peter Buck no refrão. Já no finalzinho, a bateria retorna meio que anunciando a participação muito bem colocada e de muito bom gosto do rapper Q-Tip. Seria uma ousadia não tivesse o R.E.M. contado com um rapper em Radio Song, também de Out Of Time, doze anos antes.

É engraçado pensar que a carreira de uma banda é determinada por circunstâncias quase aleatórias. Num cenário favorável, alguma das boas músicas de Around The Sun poderiam virar hits e recolocar o R.E.M. no topo. Com isso, a percepção sobre Around The Sun seria a da volta por cima, mesmo com um álbum apenas mediano. Isso volta e meia acontece, é só olhar para o U2 de All That You Can’t Leave Behind. Mas como é bem mais provável que isso não vá acontecer desta vez, Around The Sun vai ficar na história da banda como um disco onde o R.E.M. ficou marcando passo. E dessa vez mesmo o maior fã não terá muitos subsídios para argumentar.

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