Angels of Darkness, Demons of Light I (LP)

10/10

Por Vicente M., publicada em 18/02/2011

Earth

Os primeiros minutos de Old Black, faixa que abre Angels Of Darkness, Demons Of Light 1, transmite um ar de estagnação. O Earth vem de dois discos full-lenght que redefiniram o trabalho de Dylan Carlson, imersos em influências até então não cogitadas como o country e o gospel, reafirmados por um EP e alguns registros ao vivo que solidificaram ainda mais a nova vocação da banda. Ainda assim, Carlson foi fiel às suas raízes preservando a predileção pela ambiência e a ode ao clima funesto, descobrindo o lado mórbido que tais estilos musicais talvez relutassem em revelar.

Embora seu público, em sua maioria ligado ao metal, tenha demonstrado receptividade com sua nova proposta, estabeleceu-se um ponto onde Carlson extraiu - imaginava-se - à exaustão as possibilidades do seu novo som, de onde ele necessitaria mais uma vez remodelar sua obra sob pena de soar repetitivo ou pouco relevante. Mas Angels Of Darkness, Demons Of Light 1 engana nas primeiras audições, circundando à sua maneira os pontos explorados pelo “novo” Earth sem abrir mão de manipular a proposta pela sua própria ótica. Para tanto, Carlson substituiu as contribuições de Steve Moore pelos trabalhos de Lori Goldston (violoncelo) e Karl Blau (baixo).

Mais uma vez, tais mudanças no lineup corresponderam com sucesso no som. A utilização de um violoncelo contextualizou a abordagem sonora do álbum, acomodando a guitarra sob uma camada ríspida, melancólica e amarga, contrastando com os acordes vigorosos porém limpos de Dylan. Além disso, há o efeito que o instrumento “clássico” consegue agregar ao resultado, fazendo com que o ouvinte consiga sentir o cheiro do piso de madeira do velho salão de jogos. Embora o álbum não recorra à aridez de Hex, ele é impecável em equilibrar os elementos sonoros de cada instrumento, mostrando-se competente em acertar o andamento das músicas e dar mais objetividade ao som do Earth (ponto que talvez prejudicasse um pouco o disco anterior And The Bees Made Honey…). Desta forma, tem-se um trabalho genuinamente “Carlsonístico” (repetição, exploração de timbres e ondas sonoras) porém com uma fluência até então inédita para a discografia da banda.

Angels Of Darkness, Demons Of Light 1 sugere mais-do-mesmo em suas primeiras impressões, mas é bom o suficiente para transmitir algumas evoluções que da sutileza manifestam-se como triunfos eficazes para manter o som do Earth relevante. É um disco pulsante, digno de um compositor sob controle de sua arte, sempre disposto a redescobri-la por novos ângulos.

Resenhas