() (LP)

10/10

Por Fabricio C. Boppré, publicada em 15/10/2013

Sigur Rós

Este é o trabalho do Sigur Rós que, mesmo sendo essa a especialidade da banda e o seu aparente intento em todos os seus trabalhos, mais me desperta e instiga a imaginação, que me faz engendrar os mais surreais cenários, até mais do que o seu antecessor, o ultra-fantasmagórico Ágætis Byrjun. Pode ser uma experiência memorável ouvir, compromissadamente, este álbum de nome impronunciável — não que eu saiba pronunciar corretamente Ágætis Byrjun ou Með suð í eyrum við spilum endalaust, mas é possível pelo menos tentar —, disco praticamente todo feito de lentas construções sonoras nitidamente pertencentes à sucessão hereditária do Disintegration, do Cure, com suas músicas longas e espiraladas, camadas de som adicionando-se e subtraindo-se vagarosamente. Aqui, o enredamento entre som, tempo e ouvinte parece evoluir orbitalmente em torno de algo ausente, ou de matéria desconhecida, ou, melhor ainda, um redemoinho em câmera-lenta, alegoria que condiz mais com uma outra imagem projetada pelo álbum, a de exploradores desgarrados em um imenso oceano sonoro, paisagem etérea de um azul profundo, envolvente, laivos de luz aqui e ali tremulando e revelando momentaneamente texturas secretas subjacentes, tudo isso rodeado por sinistros recônditos que abrigam trevas indiscerníveis. É como se a beleza estivesse por toda parte, mergulhados que estamos nesse mar, mas sempre escoltada por uma sensação algo aflitiva e misteriosa, desassosego alimentado também pela estranheza onírica da voz e pela impossibilidade de se compreender o que ela está cantando (se é que este canto traz de fato algum significado em termos de conjunção de palavras em frases semanticamente coerentes; caso não, equivalentemente, o oceano tem aquelas criaturas abissais inacreditáveis, não tem?). Algumas músicas, como a 4 (as faixas não tem títulos), têm ainda fins repentinos quase truncados que tornam a sensação de falta de horizontes e de eminência de algo desconhecido ainda mais desnorteante, e há também uma outra faixa, a 6, que é conduzida por um determinado som que minha atroz ignorância sobre a técnica e os instrumentos musicais não me permite identificar como é produzido, mas é um som que prolonga-se, avoluma-se, um negócio meio orquestral que dependendo do seu equipamento de som e da altura em que você ouve a música, pode resultar naquele efeito sobressaltante de ar vibrando, as caixas de som rangendo levemente e os pequenos objetos físicos que estão por perto tremendo sobre suas superfícies — o ambiente reagindo àquela retumbante correnteza sonora que parece emprestar vida às coisas inanimadas ao seu redor, que então fazem ruídos, participam, aderem a um coro que passa a ser também a música. Algo a princípio incoveniente e desagradável, mas eu me acostumei a interpretar diferente e a admirar essas intromissões imprevistas que, embora plenamente compreendidas e calculadas pela física, podem também soar revestidas de transcendência, principalmente para quem gosta de depositar na ritualização de certos hábitos sua reserva de escapismo, de descanso intelectual, ou seja lá o que for, e também para quem já está, de todo modo, prostrado pelo feitiço da música ímpar desses islandeses, ébrio de sua beleza deslumbrante e ávido por alguma espécie de prolongamento material destes sons, algum irrompimento sobrenatural, coisa que só poderia mesmo originar-se a partir de uma fissura nas intransigentes leis universais deduzidas pela ciência humana, leis que de resto regem e explicam todas as outras horas de nossas vidas, e que bem que poderiam se dar por satisfeitas por isso.

[Pausa para emergir, respirar, e se reacostumar à luz do sol.]

Então o disco acaba e nos reencontramos seguros novamente, de volta ao mundo terrestre onde é possível permanecer seco, seguro e cônscio do que há ao nosso redor… Mas é igualmente oportuno saber que o ingresso de retorno para este outro plano onde o espaço físico não está totalmente mapeado em nossas mentes ou em nossos mapas, este portal está ali repousando na estante, pronto para proporcionar uma horinha de mágico retiro espiritual sempre que solicitado, sempre que o mundo real — onde normalmente somos “um ponto entre uma abscissa espacial e uma ordenada temporal”, como li em um livro de filosofia certa vez — estiver aborrecido e previsível demais.

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