4:13 Dream (LP)

5/10

Por Fabricio C. Boppré, publicada em 24/03/2009

Cure

O mundo pode ser dividido entre as pessoas que acham que o Cure já deveria ter acabado, e aquelas que não. Dentro desse último grupo, identifico três sub-grupos:

  • o primeiro é formado pelas pessoas para quem a existência prolongada ainda se justifica a cada álbum lançado, ainda que estes sejam escassos a partir da década de 90;
  • o segundo é um grupo de quatro pessoas somente, os quatro que hoje formam a banda — ou, vá lá, mais uma dezena de pessoas relacionadas, os roadies, parentes, empresários, o cabelereiro do Robert Smith —, para quem a coisa continua compensando pois é tudo divertido, as viagens, os shows lotados, e, claro, o dinheiro;
  • e há o terceiro grupo, que pensa que essa existência prolongada compensa pois assim mantêm-se viva a esperança de vê-los ao vivo.

Estou neste terceiro do grupo. Por mim eles não precisavam mais empilhar discos desnecessários — que apenas fizessem turnês. Vendo as datas e locais dos próximos shows da banda, vejo que não tenho ainda uma perspectiva real de assistir ao Cure em ação, mas ainda haverá chance enquanto Robert Smith não decretar que, enfim, irá se aposentar dos palcos.

Mas suponhamos que a alma de uma banda qualquer esteja na criação, na composição e no lançamento de novas músicas agrupadas em discos, regularmente. Nesse caso, sou bem simpático àquela idéia de que tal grupo deve se retirar de cena quando se percebe exaurido, sem a capacidade de criar algo melhor do que já criou. Ou, menos pretensiosamente, sem a perspectiva de criar algo que não soe como mera cópia de si mesmo, adequada aos novos tempos. Sair por cima, com o dever cumprido e o legado imaculado, e não estender seu tempo de vida, esperando pela ridicularização ou pela falta de interesse de seus fãs, para só então decretar o fim — isso me soa bastante honesto.

Claro, quem sou eu para dizer se o Robert Smith sente-se euxarido? Tampouco tenho noção se é significativa a quantidade de fãs que acham estes últimos discos interessantes. E também não sei se é a possibilidade de compô-los e lançá-los que mantém a banda na ativa. Mas eles continuam o fazendo, e alguém pode argumentar, não totalmente desprovido de razão, que, se isso diverte os caras, então estão mais do que certos, independente dos resultados. Justo. Mas também aos fãs é permitido colocar cada disco lançado em perspectiva e divagar sobre a banda e seus mais de 30 anos de carreira. Isso é divertido.

Mas, enfim iniciando este exercício opinativo, o trabalho sujo que alguém tem que fazer, penso que o Cure atingiu o ponto final ideal de sua discografia com o ótimo e bem dosado Wish, de 1992. Com alguma boa vontade, o digno Bloodflowers, de 2000, poderia fazer esse papel de canto do cisne, apesar de seu antecessor quase esquecido de tão fraco (Wild Mood Swings, de 1996). Mas então depois tivemos o disco auto-intitulado, de 2004, e esse eu achei bastante ruim. Robert Smith esgoela-se em composições que realmente não valiam horas e horas de estúdio. E aquela capa constrangedora? Bem, a capinha melhorou, e a música um tantinho também, neste 4:13 Dream, mas é um disco que também me faz pensar que a banda poderia ter tido um pouco mais de auto-crítica antes de decidir aumentar sua discografia. Bem, Robert Smith discorda de mim, e acha que o mundo necessita que ele continue batendo ponto nos estúdios. Ou simplesmente se diverte fazendo isso.

Pois qual seria exatamente o propósito de uma, digamos, Underneath The Stars? É a faixa de abertura de 4:13 Dream e remete bastante à Plainsong, a abertura de Disintegration, com sua introdução lenta e melódica, aquela melancolia outonal que é o protótipo do melhor Cure, na minha visão de fã da banda, e que está mais belamente executado justamente no Disintegration. Mas em Underneath The Stars é apenas uma fórmula, um resultado tal qual qualquer outro que Robert Smith poderia compor num dia de tédio. Aposto que se ele se sentar em sua escrivaninha e começar a escrever canções e compor melodias, uma atrás da outra, durante um dia inteiro, sairão umas 30 músicas similares. Provavelmente, umas dez serão mais legais do Underneath The Stars.

O disco começa assim com o pé esquerdo, mas, no conjunto da obra, até que tem seus momentos decentes. The Only One, por exemplo, lembra os melhores espasmos de pop alegre da banda, encontráveis em The Head on the Door e Wish. Claro, nada que chegue aos pés de uma Friday I’m In Love ou In Between Days, mas tem seu valor. The Real Snow White começa e me dá a impressão de ser uma sobra do disco anterior e suas tentativas mal-sucedidas de renovar a música do Cure, mas acaba surpreendentemente encontrando seu caminho e se redimindo em definitivo no refrão. Switch também se salva, com sua sonoridade que lembra algo da psicodelia urgente de The Top. E lá pro fim do disco tem-se uma ótima surpresa com Sleep When I’m Dead, uma música verdadeiramente legal. Li em algum lugar que trata-se de uma composição antiga, o que deve dizer alguma coisa.

Mas de resto são muitos os engodos, com o mais proeminente deles atendendo pelo apropriado nome de Freakshow, uma música repulsiva, descrevendo assim com alguma dose de boa educação. Outro momento emblemático deste período de senilidade da banda é This. Here and Now. With You, que vai desenrolando-se sem graça alguma e de repente explode num refrão afetado, parecido com alguns outros tantos que já apareceram neste mesmo álbum, com os efeitos na voz de Robert Smith extrapolando e funcionando como prova cabal de que os bons e velhos tempos das melodias naturais e arranjos perfeitos ficaram para trás. E que, para uma banda tão ligada a uma determinada era, reinventar-se talvez não seja algo possível de ser feito sem cair em descrédito.

Olhando sob um prisma positivo, umas tesouradas neste 4:13 Dream talvez rendessem um EP legal. Mas como full-length não funciona, é insuficiente, ainda mais carregando um nome — quase uma instituição — responsável por tantos trabalhos brilhantes. Não tem como não ouvir um disco do Cure com o nível de exigência (e o receio) lá em cima, e por isso a decepção diante de algo tão pouco inspirado e imaginativo acaba sendo grande, talvez desproporcional. Melhor seria se a banda se concentrasse em tocar por aí seu antológico acervo (enquanto aguentarem, logicamente) e apresentasse de vez em quando uma ou outra música nova, quem sabe lançando-as como singles na internet — se é para adequar-se aos tempos modernos, essa atitude provavelmente causaria menos danos. Pois, pela segunda vez seguida, lançar um LP não fez bem ao legado do Cure. E, a continuar assim, talvez eu perca até mesmo a vontade de vê-los ao vivo, à medida que mais músicas novas tendam a ocupar o espaço das músicas antigas nos shows. Daí sim, definitivamente, não haverá motivo algum para a banda continuar existindo.

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