Dying Days
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Discos do mês - Novembro de 2025

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Novembro de 2025

Crédito(s): Composição X, de Wassily Kandinsky.

Eu adoraria saber se os três primeiros discos do a-ha têm de fato méritos artísticos legítimos ou se minha enorme afeição por eles fica inteiramente explicada pelo fato de tê-los escutado muito cedo em minha vida, na época formativa em que nossas primeiras paixões são registradas com tal vivacidade em nossos cérebros que não há maturidade ou evolução intelectual que vá removê-las de lá. É uma banda pop orientada ao sucesso comercial e outras coisas menos confessáveis, não há dúvidas, mas Stay on the These Roads (para citar apenas uma faixa) me faz desconfiar que os rapazes tinham algo mais a oferecer. Ademais, nem sempre sucesso comercial vem desacompanhado de visão e expressão artísticas genuínas. Tenho esse preconceito, confesso, e não são poucos os exemplos que deveriam me tornar mais educado... Vou fazer disso uma prioridade de ano novo. Mentira, não vou não. Continuarei resolutamente fugindo do mainstream e dos algoritmos, escutando exclusivamente aos discos de minha própria coleção, aos outros que estes mesmos vão puxando para dentro dela e aos tantos outros que descubro em minhas observações atentas e leituras. Foi, por exemplo, observando um patch na jaqueta do Fenriz que descobri o Obliteration, o oposto musical total do a-ha, não obstante a mesma nacionalidade. Onde o a-ha é exuberância e juventude, o Obliteration é negrume e desespero. E quem acha que gostar simultaneamente destas bandas antípodas é incongruente é porque ainda não viveu o suficiente, não experimentou de tudo um pouco do que a vida tem para oferecer. Diga-se, em todo caso, que as searas que estão além do espaço entre estes dois pólos é o território amplo no qual tenho me refugiado com mais frequência nos últimos dias. Ter apenas uma ideia vaga do que escutarei — mas com algumas certezas sobre o que não escutarei — é uma orientação que passou a prevalecer em fins de novembro, outro mês tumultuado e cansativo. Laurie Spiegel e Ulver são alguns dos nomes que forneceram a música de formas mais livres que passei a buscar então. Ocorre que, às vezes, a música certa é imponderável. É um movimento de lógica onírica, uma viagem sem rumo certo, um espaço negativo. E, pedindo licença para divagar um pouco mais, talvez seja esta uma inclinação coerente com a impressão que tenho tido ultimamente de que meu aprendizado mais frequente tem sido, na verdade, uma espécie de desaprendizado. Um espécie de afrouxar, de desarme, de conciliação com a fluidez e o incerto. Despojar-se das sensações de controle e admirar o desconhecido, aproveitar o imenso da jornada... Algo a ser melhor elaborado outra hora, mas que confirma desde já — e uma vez mais — que é principalmente a partir da música que me acompanha dia após dia que tenho minhas melhores chances de extrair algum sentido desta vida.

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