Discos do mês - Maio de 2026
Fabricio C. Boppré |Imagem principal:

Crédito(s): mural do artista Solomon em homenagem a Riley Gale. Foto de autor desconhecido copiada daqui.
Texto:
Nine Inch Nails - Pretty Hate Machine
Suponho que, a esta altura, Pretty Hate Machine já cumpra todos os requisitos necessários para ser considerado um clássico. É de fato um disco excepcional, mas não é ainda um Nine Inch Nails completo e totalmente realizado, penso eu após ter passado alguns dos dias de maio em sua companhia. É como se a promessa da banda se mostrasse desde o início bela e perigosa diante de nossos olhos, algo inédito e prestes a libertar alguns novos demônios pelo mundo, mas não ainda — ainda apenas um ensaio, uma potencialidade. Que, para nossa sorte, acabou se concretizando e se tornando realidade, e se o mundo é hoje um lugar mais interessante do que era antes de 1989, este disco certamente tem sua parcela de responsabilidade nisto. Mas, com o passar do tempo, enquanto o NIN ia se transformando em algo gigante e sua música assumia ares de uma espécie de quarto escuro da humanidade, Pretty Hate Machine parece que foi ficando algo calcificado, agrilhoado ao seu tempo. Tornou-se um disco... menor? Talvez lhe faltem os músculos e a densidade de The Downward Spiral, talvez a personalidade mais original e menos clubber dos discos seguintes... Talvez seja um despropósito fazer estas comparações — a maioria dos primeiros discos das bandas deve soar imperfeita em comparação com as obras mais bem acabadas de suas maturidades — mas no caso do NIN é como se a banda estivesse ainda a um passo atrás de si mesma; como se Pretty Hate Machine pudesse ter sido um disco ainda melhor do que é e teria bastado para isso apenas uma dose a mais de coragem ou uma a menos de ecstasy. Dito isto, estou de pleno acordo que Terrible Lie, Something I Can Never Have e Sin continuam magníficas e justificam qualquer veneração que se queira dedicar a este disco.
Power Trip - Nightmare Logic
E por falar em potencialidades: uma que acabou não se realizando, infelizmente, foi a do Power Trip. Não por insuficiência ou falha deles, mas por conta da muito lamentável morte do vocalista Riley Gale, em 2020, aos 34 anos. Com apenas dois discos, Manifest Decimation de 2013 e Nightmare Logic de 2017, o Power Trip já estava entre as bandas favoritas de muita gente (minha, decerto estava) e não apenas por conta de seu crossover feroz de thrash metal e hardcore, mas também (e principalmente, talvez) por conta da figura rara e carismática de Riley Gale. Vocalista de banda norte-americana de metal cujas letras e entrevistas denunciavam as atrocidades da polícia e do presidente de seu país (que era, na época, este mesmo que hoje aí está novamente) e demonstravam empatia com minorias e imigrantes — isto não é algo que se vê todos os dias. Que falta faz este camarada. Nightmare Logic, o disco final da banda, é excelente do início ao fim, mas mencionarei rapidamente apenas o início, a primeira faixa, cuja fórmula todo mundo com alguma milhagem no ramo do metal já escutou centenas de vezes, principalmente nos discos do Slayer: a lenta introdução, cadenciada, preparando o terreno, deixando pressentir a explosão que está por vir... E ela vem. E como vem. A fórmula, como eu disse, é batida, mas com Soul Sacrifice o Power Trip criou, nesta minha opinião modesta, a expressão perfeita e definitiva.
Egberto Gismonti - Alma
Nine Inch Nails e Power Trip foram audições que me acompanharam na academia, em tardes de trabalho cansativo e circunstâncias outras que se beneficiaram do estrondo e da agressão destas bandas, de seus cenários distantes e anômalos, para me manter ligado e produtivo. Em outras situações e vinda de outro tipo de registro, o que de mais bonito escutei em maio foi a música do disco Alma, de Egberto Gismonti, lançado em 1986. É evidente que Gismonti põe no bolso essas bandas norte-americanas de rock/metal, bandas cuja música é muito difícil separar da performance e da surrealidade de suas imagens. A música de Gismonti, por outro lado, é arte encarnada em si mesma, repleta de territorialidade, de expressividade de vida real. Eu adoro ser esmurrado na cara por rock pesado e heavy metal, mas a arte poética de Gismonti está em uma esfera superior de apreciação. Nunca escutei um disco seu que não fôsse extraordinário, e olha que são muitos. Em Alma nosso herói ataca de pianista, sem se fixar exclusivamente na brasilidade que é marca registrada da maior parte de sua obra. Embora algo das florestas e de ritmos regionais apareça aqui e ali, a linguagem dominante no álbum é uma espécie de jazz universal, repleto de lirismo e improviso: em alguns momentos soa aventureiro e intrincado como outro de meus heróis, Cecil Taylor; em outros lembra um Keith Jarrett cheio de alegria e ternura; há uma outra faixa, Cigana, que atravessa o oceano, volta no tempo e se parece com uma delicada peça noturna de Debussy (Ruth, faixa-bônus da versão que tenho, é assim também). É música popular brasileira enxertada em moldes forjados em outras terras? É música do hemisfério norte digerida e regurgitada como arte brasileira — é antropofagia? Não sei. Sei que há momentos em Alma nos quais Gismonti parece se aninhar dentro da música e se distanciar do mundo, encerrado em linda instrospecção sonora. Sei que é bonito demais.
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