Febre

Por Fabricio C. Boppré em 15/02/2021

Peço vênia para deixar aqui, excepcionalmente bem no meio do mês, um relato abreviado sobre o que venho escutando por esses dias, motivado pelas vontades conjugadas de fazer algo de modo diferente do que costumo fazer e de passar um pouco de vergonha (dizem que ambas as coisas fazem bem: mudar os hábitos, de vez em quando, e rir de si próprio, sempre). Fevereiro tem sido, até o momento, quase que monotemático no que diz respeito ao meu cardápio musical: uma febre intensa de rock ’n’ roll. Deve ter sido uma noite muito mal dormida ou um sonho muito delirante aquilo que precedeu a manhã em que acordei com vontade de ouvir AOR, ou arena rock, ou pomp rock, ou seja lá qual for o epíteto cômico de sua preferência para esta música… cômica. Se você não sabe do que estou falando: Journey, Boston, Toto, Survivor, Michael Bolton — céus, até Michael Bolton eu encarei, uns dias atrás. Creio que Bolton ficou famoso como uma espécie de galã do soft rock, gravando discos para os quais (especulo) só obtia recursos e permissão após pesquisas de mercado confirmarem que tal punhado de músicas se cantadas por um sujeito vestindo tal roupa e estampando tal sorriso nas capas dos álbuns, sim, essa joça venderia o suficiente para que os acionistas do conglomerado do qual a gravadora era parte pudessem comprar mais um iate cada um e sobrasse dinheiro suficiente para custear as despesas do próximo ciclo: as próximas pesquisas de mercado, os próximos direitos autorais das composições a serem gravadas, o embranquecimento dos dentes de Michael Bolton, etc. Até que a coisa enfim se esgotasse e mais iates não pudessem ser comprados e Bolton fosse então descartado, o que, a essa altura, presumo que já deve ter acontecido. Antes disso tudo, no entanto, Bolton gravou alguns discos de hard rock bastante divertidos — divertidos, claro, para quem o conceito de diversão é algo próximo a esta coisa abrangente e desavergonhada que é o meu. O disco da imagem acima, por exemplo, eu desperdicei umas boas duas ou três horas da minha vida escutando-o na semana passada. Andei ouvindo também mais alguma coisa do Bruce Springsteen, de quem decididamente não sou fã, porém nas vezes em que, não sei se invadido por presságios sombrios ou simplesmente instado por um ânimo mais introspectivo, ele resolveu gravar uma música mais acústica e menos bombástica — álbuns como The Ghost Of Tom Joad e Devils & Dust — nessas ocasiões Springsteen até que não se sai tão mal. São discos que mesmo quem não é homem branco nascido nos EUA entre 1955 e 1980 pode conseguir, eventualmente, extrair algum prazer em escutá-los. Nem Bruce Springsteen e nem Michael Bolton, em todo o caso, podem superar o Journey, banda da qual tenho me tornado cada vez mais fã. Journey é maravilhosamente ruim! É brega, obsoleto e adorável. É a contraparte musical de filmes como este e este. Somente a psicologia por trás das engrenagens da indústria cultural é capaz de explicar como alguém pode gostar de todas essas tralhas… No fim das contas, o que de mais digno andei escutando por esses dias foi mesmo o Cult: esta sim é uma banda de rock ’n’ roll sobre a qual o sujeito mais escrupuloso pode se dizer fã sem maiores constrangimentos. Há um certo estado de espírito meu que só aceita discos do Cult — nestas horas, somente Ian Astbury cantando sobre seu irmão lobo e sua irmã lua pode me contentar e acalmar. É com bastante atraso que me dei conta: o Cult é uma das minhas bandas essenciais.

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