Dying Days
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Discos do mês - Dezembro de 2020

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Dezembro de 2020

Hachiku - I’ll Probably Be Asleep

Tem umas meninas por aí fazendo um som que faz com que tiozões criados à base de Smashing Pumpkins e Alice in Chains como eu desgraçadamente nos pareçamos com o que, quando éramos nós os jovens com a nossa nova e barulhenta música, pensávamos a respeito dos tiozões e das tiazonas de então que ouviam, sei lá, Deep Purple ou Roberto Carlos, ou dos mais eruditos com seus CDs de coleções de Mozart e Chopin: todos eles dinossauros(as) velhos(as) e reumáticos(as). Minhas incursões na música pop contemporânea às vezes rendem tiros n’água — Phoebe Bridgers eu achei completamente sem graça; a música de Billie Eilish foi além e me soou repulsiva — porém as boas descobertas recompensam plenamente o tempo dedicado. Creio já ter escrito sobre Lower Dens, xx, Warpaint, La Luz e Zola Jesus; esses nomes não são novos e nem novidades por aqui, mas deixo-os aí citados novamente para reforçar as sugestões e também para tentar traçar a fisionomia do tipo de som contemporâneo que me atrai (apenas as meninas do La Luz e seu surf rock talvez estejam meio deslocados neste grupo). O que andei descobrindo nas últimas semanas atende pelos nomes de Grimes, Japanese Breakfast e Hachiku. O disco de estréia de Hachiku (pseudônimo de Anika Ostendorf) é uma pequena pérola. Confesso que não foi de imediato que ele me cativou: uma certa letargia na voz da menina e no andamento das canções quase me fez descartar a ideia de ouvi-lo de novo. Porém alguma coisa, alguma melodia — talvez a própria mencionada letargia — ficou alojada a meio caminho do meu cérebro e tive que voltar a escutá-lo, e depois outra vez, e agora cá estou recomendando-o entusiasticamente. Anika é uma dessas artesãs cuja habilidade está nos detalhes, no equilíbrio entre sofisticação e simplicidade nas composições, no esmero da produção. E tudo isso, se for ela ali na capa do disco, é obra de uma garota que tem o que, 14 anos? Precoce é pouco.

Grimes - Miss Anthropocene

Ainda mais impressionante é a música que faz outra moça que prefere usar um apelido ao seu nome verdadeiro: Claire Elise Boucher, mais conhecida como Grimes. Claire é casada com Elon Musk, o que me parece um evidente sinal de mal gosto e/ou deficiência de caráter. Tal insensatez, no entanto, ou não se manifesta em seu trabalho musical ou então se perde completamente em meio às centenas de camadas que existem em seus disco. “Centenas" quase não é um exagero ou figura de linguagem: é difícil acompanhar tudo o que se passa em Miss Anthropocene, álbum que provavelmente constará entre os meus favoritos deste ano. É música essencialmente de estúdio, obra de computadores e de colagens, e não faço ideia de como ela deve soar ao vivo — o que, evidentemente, não faz diferença alguma neste momento em que a vida comunitária fora de casa está provisoriamente cancelada. É, certamente, oposta a de Hachiku: enquanto lá o que dá o tom é certo tipo de ofício minucioso em que mais coisas são omitidas do que inseridas, aqui a intensidade é quase sufocante, as ideias transbordam, os sons são caleidoscópicos e a voz de Grimes soa volátil e descarnada. A jornada como um todo é bastante laboriosa, mas vale muito a pena encará-la, nem que seja apenas para se ter uma noção das amplas e intrincadas possibilidades da música pop contemporânea, algo muitíssimo mais interessante e variado do que na época das Spice Girls. (Não sei se uso o termo “pop" com precisão aqui. Tenho a impressão de que Grimes faz parte desse universo, ainda que sua música seja muito mais exigente do que era aquela que entendíamos como pop até bem pouco tempo atrás. Se a música pop estiver realmente se sofisticando a esse ponto, isso é claramente uma boa notícia. É graças às mulheres, perceba-se novamente, que nem tudo regride neste planeta.)

Led Zeppelin - IV

Agora é o tiozão falando novamente. Não posso evitar: verão, para mim, é sinônimo de água salgada, longas caminhadas, leitura e vinho avançando na madrugada, e Led Zeppelin. Mas este ano, excepcionalmente, os dois primeiros itens terão que ser evitados (não tem mais praia escondida nem trilhas confidenciais em Florianópolis, ou pelo menos não durante a temporada de verão); o vinho, por força do excessivo tempo passado sedentariamente em casa, terá que ser cuidadosamente controlado; sobram os livros e o Led Zeppelin, o que, conquanto me sejam, de modo geral, suficientes, apenas muito remotamente poderão, sozinhos, me fazer sentir no estado de espírito do verão. Mas tudo bem; outros verões menos pestilentos haverão de vir. O III jamais deixará de ser o meu Led favorito, um dos meus discos de férias por excelência, porém o IV tem a maravilhosa voz de Sandy Denny em The Battle of Evermore, tem Going to California e a colosso inigualável de When the Levee Breaks, tem tanta coisa espetacular e inebriante que nem mesmo precisaria ter Stairway to Heaven, e de um disco que tem mas não precisaria ter Stairway to Heaven talvez não seja necessário acrescentar mais nada em seu favor. E é exatamente isso que farei — não acrescentarei mais nada, pois o mundo não precisa de mais textos sobre o Led Zeppelin.

Sarah Davachi - Gathers

Deve haver nestes meus relatos mensais e demais posts muito mais lamentação e rabugice do que seria de se esperar. Afinal, o sujeito que tem o privilégio de poder confortavelmente se estender em uma rede para dedicar uma inteira e ininterrupta hora de seu tempo ao desfrute de sons que lhe retiram deste mundo, tal sujeito definitivamente não é alguém que tem tanto assim para reclamar. O mundo está uma merda e não há grandes esperanças para humanidade? Oras, disso já se sabe há muito tempo. Estamos nos matando uns aos outros e destruindo a natureza da qual dependemos umbilicalmente? É assim desde um tempo muito remoto. O Brasil é a vanguarda da estupidez, da covardia e do atraso? Grande novidade. Afortunados como eu, que em meio a tudo isso ainda consigo achar tempo e estado de espírito para me dedicar ao mundo da música e pesquisar e descobrir novos sons e recomendá-los aos amigos e demais navegadores que acabam passando casualmente cá por este blog, penso que esses supremos sortudos deveríamos se abster de comentários inócuos sobre o catastrófico estado das coisas neste nosso planeta e em particular neste nosso país deplorável e se ater à tarefa mais benéfica e solidária de divulgar este sons, que são a parte positiva da humanidade, a parte capaz de nos dar ainda alguma esperança. Afinal, tal futuro pouco auspicioso talvez seja nosso destino inexorável desde sempre, completamente dissociado de circunstâncias atuais, que talvez nem sejam assim tão horríveis quando comparadas com as de outras épocas… Bem, prometo me esforçar neste sentido. Estou para escrever sobre Sarah Davachi desde aquele post sobre a Eliane Radigue, em que comento a proeminência das mulheres no mundo da música eletrônica experimental. Sarah é a nova geração; é, inclusive, um deleite ler suas entrevistas (há muitas delas pela internet) e descobrir suas referências e influências, sua paixão por instrumentos musicais de todos os tipos, sua forma peculiar de compreender e fazer música (ter trabalhado quando jovem em um museu dedicado a instrumentos musicais parece ter ainda hoje muita ascendência sobre tudo isso). Gathers, um dentre os vários discos lançados por Davachi em 2020, creio que seja um ótimo exemplar de sua serena e obstinada visão musical. Começa de forma emblemática: eu poderia jurar que o instrumento predominante da primeira peça, metódica e vagarosamente dedilhado, era um violão, quando é, na verdade — dentre todos! — um cravo. Não sou muito fã de cravo; compositores(as) como Davachi, contudo, têm essa habilidade de manipular a alma de seus instrumentos, torná-los outra coisa e não apenas por si mesmos, mas também ao criar ao seu redor todo um campo eletroacústico transfigurado, uma das feitiçarias da música experimental contemporânea que mais me intriga e encanta. Gathers segue mágico até o fim, dilatando e prologando o tempo, ao mesmo tempo texturalmente rico e minimalista, exigindo apenas alguma atenção e mente descansada para, em troca, oferecer sua jornada extra-corporal para o distante espaço onde não é preciso se preocupar com o futuro, ou, mais precisamente, com a falta de um futuro.

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