Big Blood

Por Fabricio C. Boppré em 05/12/2020

Preâmbulo: é meio triste constatar como, hoje em dia, eu dificilmente retenho na memória a circunstância em que descobri esta ou aquela banda que começo apreciar. Explorações no bandcamp; sugestões recolhidas de vídeos da Amoeba Records e de Baker’s Dozens do The Quietus; uma capa que me chame a atenção em algum dos muitos blogs que acompanho; a influência citada por alguém em alguma entrevista ou livro; a trilha sonora de um filme — são tantas e tão efêmeras essas fontes, e quase todas concentradas no enquadramento iluminado das telas dos computadores e demais dispositivos eletrônicos conectados à internet onipresentes em nossas vidas atuais, que torna-se praticamente impossível, na maioria das vezes, retroceder e relembrar o momento exato em que determinada banda entrou em nossas vidas. A individualidade desses momentos se perde nesta ampla e ofuscante planície de rotina e repetição. Muito diferente de como era antigamente, quando o ato da descoberta de uma banda especial tornava-se praticamente um capítulo na biografia de quem começava a interessar-se seriamente por música — aquele primeiro e mítico contato destinado a ser permanentemente evocado, dali por diante, sempre que voltássemos a escutar tal disco ou tal banda… Isto tudo, no entanto, não passa de uma futilidade, o tipo de nostalgia sentimental que, embora me acometa frequentemente, eu tenho a mais perfeita e cristalina consciência de que nada mais é do que remorso pela passagem do tempo, saudades da adolescência, etc. Mas eu gostaria de relembrar como foi que eu descobri o Big Blood. Gostaria mesmo. Não apenas porque, caso me lembrasse, eu poderia começar esse texto com algo menos choraminguento mas também porque eles acabariam ficando mais decentemente registrados na minha memória, na arqueologia da minha melomania, que é algo que eu cultivo com bastante carinho. Eles, definitivamente, mereciam isso. Mas tudo bem, vamos lá: acho que a primeira coisa que vem à mente quando se escuta ao Big Blood é “lo-fi”, música gravada em casa, sem aparatos profissionais, e eu sei que isso é algo bastante atraente para muita gente — inclusive tem quem trate essa circunstância como um sub-gênero musical por si só. Eu, contudo, nunca liguei para isso e sempre fui indiferente ao lo-fi — penso que uma gravação lo-fi pode ser boa ou ruim, mas não será uma coisa nem outra simplesmente por ser lo-fi (*). O Big Blood talvez nem seja tão lo-fi assim, já que alguns de seus discos soam bastante bem produzidos; talvez seja um lo-fi mais moderno, mais tecnologicamente bem equipado, pois para além do aspecto material de como as canções soam em termos físicos, há um espírito inegavelmente amador e espontâneo na música de Caleb Mulkerin e Colleen Kinsella, a dupla que parece ser o núcleo da banda. Eu apostaria que Caleb e Colleen — que são um casal, este da foto acima, e cuja filhinha, aquela ali fazendo graça entre eles, faz aparições ocasionais nos discos da banda — eu apostaria que essa adorável família mora longe da cidade, em uma casa construída por poucas pessoas às margens de um lago ou de uma floresta, provavelmente entre ambos, sem cerca e com cabras vagando soltas por perto; sua música absorve e devolve esses cenários, o vocal bruxólico de Colleen conjura coisas primitivas e pagãs. Outro rótulo que aparece frequentemente ao lado do nome da banda é “psych folk”, ou alguma variação desses termos, e acho que ao menos isto minha memória conservou do meu primeiro contato com a banda: não sou muito fã de “psych folk”, algo que andou em voga por aí recentemente e eu experimentei e não gostei de quase nada (excetuando o Mount Eerie), e por conta dessa experiência prévia eu estava com um pé atrás quando resolvi experimentar o Big Blood. (O que eu não consigo recapitular, precisamente, é por que, apesar de tudo, eu insisti em escutá-los…) Foi, enfim, uma bela surpresa descobri-los e adorá-los imediatamente. O que me soa tão bem na banda, em resumo, é certo aspecto ritualístico que vai além do já mencionado vocal bruxólico de Colleen (que é também artista plástica), uma modulação monocórdica de sons e melodias sugerindo fogueiras noturnas em clareiras na floresta, algo em evidente contraste com a eletricidade que vaza intensamente do som da banda, mas ignoremos esse detalhe, ou o atribuamos convenientemente à necromancia. O álbum mais recente do Big Blood, Do You Wanna Have A Skeleton Dream?, lançado no começo deste ano, tem um clima um pouco diferente deste descrito acima: Skeleton Dream soa mais como algo saído de um filme de David Lynch, o que, afinal, não é tão diferente e pode ser também bastante encantador. Mas eu prefiro os mais antigos, e se alguém que esteja aqui me lendo quiser experimentá-los também, minhas recomendações são estas: Dark Country Magic, Already Gone I, Already Gone II e Strange Maine 1​​.​​20​​.​​07. Sons de primeira da floresta psicodélica encantada.


* Música lo-fi me lembra o Dogma 95, aquele grupo de cineastas (dinamarqueses, se não me engano) que pregava um cinema sem música, sem iluminação, com um mínimo de tecnologia possível, etc. Eu achava uma bobagem, pois boa parte dessas coisas são o que fazem o cinema ser o que é, e os filmes do Dogma 95 acabavam se parecendo em sua maioria com filmes caseiros de família. Ou seja, uma coisa me lembra a outra, mas há essa diferença fundamental: enquanto música lo-fi não necessariamente é ruim ou boa, os poucos filmes do Dogma 95 que eu assisti eram todos bem ruins…

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Créditos da imagem: foto de autor desconhecido, copiada daqui.



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