Discos do mês - Julho de 2020

Por Fabricio C. Boppré há 1 semana e 2 dias

Talk Talk - Laughing Stock

Meu assombro diante das seis faixas deste disco é inesgotável e renovado sempre a cada audição, por isso peço vênia para citá-lo cá novamente. A intermitência desta música, seus momentos de indecisão e de tibieza; a voz permanentemente vacilante de Mark Hollis, que às vezes surge do nada, às vezes desaparece no nada; a ausência de melodias e de quaisquer outras formas de convicção, o que faz dela uma espécie distinta de música, uma espécie que parece que só pode se realizar plenamente no íntimo de quem a ouve com atenção… De toda essa delicadeza e de seus caminhos errantes (impossíveis de serem memorizados) emana uma beleza milagrosa, um enlevo que nunca falha em me deixar emocionado. Confesso sem vergonha nenhuma: muito frequentemente eu tenho vontade de chorar enquanto escuto a este disco, à sua música frágil e ao mesmo tempo profundamente viva, viva e comovente como um recém-nascido — música que pareça corroborar um dos poemas que emolduram o filme Stalker, de Andrei Tarkovsky (poemas escritos pelo pai do diretor, Arseny), aquele que afirma serem atributos da vida a fraqueza e a debilidade, enquanto que a força e a dureza estão ligados, na verdade, à morte. Quem, com alguma experiência neste mundo atroz, pode negar a evidente verdade disto? É bem provável que, na contabilidade final da minha vida, as horas passadas escutando a este disco correspondam a mais da metade das melhores e mais benéficas de todas as minhas horas.

Jan Garbarek - I Took Up the Runes

Aos meus ouvidos, muitos dos discos de Jan Garbarek soam como que revanches triunfantes da New Age. Garbarek é um músico de altíssimo gabarito, com uma discografia extensa e repleta de parcerias com mestres como Keith Jarrett, George Russell, Charlie Haden, além de gravações de música erudita com o Hilliard Ensemble (uma música seríssima que faz gelar o sangue), e, apesar deste currículo, em muitos dos trabalhos em que seu nome figura como artista principal há uma atmosfera New Age inconfundível, translúcida, reluzente. Será uma casualidade nascida de escolhas pouco ortodoxas em termos de arranjos e instrumentos, anomalia involuntária que devemos perdoar a Garbarek? (Sua recorrência provavelmente invalida essa hipótese.) Ou será que a New Age permanece realmente viva em algumas mentes e corações, condoendo-se daqueles que debocharam dela e o resultado deste desdém antigo e generalizado está aí, hoje, escancarado na carrranca grotesca dos líderes que elegemos, nas florestas destruídas, no futuro exterminado… ? Bem, talvez seja tudo um grande engano meu — talvez Garbarek seja apenas norueguês.

Yes - Going for the One

Das coisas esquisitas da pandemia: tenho escutado aos discos do Yes! Sim, Yes, sempre a banda que imediatamente me vem à mente quando quero fazer algum comentário venenoso contra o rock progressivo: “como gostar deste gênero se ele produziu coisas como Yes?”. Mas isso é apenas o meu lado maldoso; sempre fui capaz de ouvir um ou outro disco do grupo. Close to the Edge é algo que merece ser explorado com atenção e coração aberto: estabelecidas as devidas condições de pressão e temperatura, ele pode lhe transportar para um mundo bastante excêntrico e divertido de se habitar por pelo menos algumas horas (e o trecho acústico inicial de And You and I é, evidentemente, bem mais do que isso). São muitos os discos do Yes que ainda não escutei, e Going for the One era um deles até a semana passada. Algo me fazia pensar — sua capa, provavelmente, tão desinteressante se comparada às outras — que este já seria um disco de uma outra fase do Yes que não poderia nunca me interessar, a banda entrando nos anos 80 e se adaptando a sonoridades mais convencionais para não virar uma piada, iniciando sua versão da crise de identidade pela qual qual tantas outras bandas passaram naquela época, e nem todas são o Rush para sobreviver a isso, para sobreviver aos ternos com ombreiras e tudo mais. Pois bem, este disco não é nada disso; Going for the One é ainda o Yes borbulhante e lisérgico dos anos 70, imaginativo e delirante, que exige alguma boa vontade do ouvinte para sua fruição, sim, mas nem de longe algo muito superior à pré-disposição que já possui qualquer um que se senta para dar play e escutar a um disco do Yes. Decidi, no fim das contas, parar de fazer piadas com o Yes. Mas como a pandemia ainda vai longe e ainda tenho muitos outros discos da banda para descobrir, é bem provável que eu volte a fazê-las futuramente.

Iron Maiden - The X Factor

Calculo que os fãs de Iron Maiden que gostam do The X Factor sejam pessoas inscritas numa minoria menor do que a dos fãs do Metallica que gostam do Load e até mesmo que a dos fãs do Black Sabbath que gostam dos discos que não possuem nem Ozzy e nem Dio e nem mesmo Ian Gillan como vocalista. Ou seja: é pouquíssima gente. (E é bem provável que o grupo de pessoas inscritas simultaneamente nestas três minorias seja só eu mesmo…) O que dizer então do fato de que não apenas eu gosto do The X Factor, mas gosto muito deste disco, e o tenho como um dos meus cinco favoritos da banda? Pois é verdade, e não escrevo sob a influência de droga nem bebida alguma. Também não é o caso de ser fã do Blaze Bayley, o infeliz que teve o azar — poderia ter sido uma grande sorte, mas não, foi só um tremendo azar mesmo — de substituir o mais amado de todos os vocalistas do heavy metal, Bruce Dickinson, na mais amada de todas as bandas, quando esta se viu subitamente sem seu frontman em 1993; não, longe disso, e o demonstro declarando que o segundo (e último) disco lançado com Blaze empunhando o microfone, Virtual XI, é um enorme constrangimento, o pior de todos os discos do catálogo do Maiden. Ou seja, meu gosto pelo The X Factor é genuíno, é admiração verdadeira pelas suas músicas e pelo álbum como um todo, e a voz de Blaze é apenas um de seus componentes, algo que, isoladamente, não me chama atenção e tampouco me ofende. Trata-se, neste disco, de um Maiden um pouco menos bombástico, de produção esmerada e faixas que evoluem lenta e gradualmente, mais contidas e mais sombrias, recheadas de tensão e escuridão. Resulta disso uma sonoridade e uma atmosfera que eu adoro, contaminada desde o começo pela arte tétrica que estampa sua capa [*], e no meu pequeno mundo paralelo faixas como Sign of the Cross, Fortunes of War e Blood on the World’s Hands são clássicos indiscutíveis. Pena que a recepção ao álbum foi péssima (lembro de uma resenha na revista Bizz anunciando que a “donzela” havia morrido e tinham esquecido de enterrá-la) e daí seguiu-se o desastre de Virtual XI; daí, o fim da era Blaze e a volta de Dickinson em 1999. Nada disso, a bem da verdade, é muito surpreendente: trata-se, afinal, da banda que durante anos sustentou seus fãs com um dieta composta de The Trooper, Aces High e Run to the Hills. Ao menos os discos seguintes com Bruce Dickinson de volta ao grupo são muito bons e até resgatam, vez ou outra, as experiências de The X Factor (sem maiores protestos por parte dos fãs, pelo que me consta).


[*]: Possivelmente a menos cômica de todas as capas do Iron Maiden. Claro que todas o são — intencionalmente ou não — mas nesta a vontade de rir não é, me parece, o que logo acomete quem a olha. Há bastante coisa desconfortável nela. Na percepção da maioria dos fãs da banda, no entanto, por não ser explicitamente cômica (e por ser o disco o que é), a capa de The X Factor deve ser apenas “comicamente ruim”, enquanto que a capa de um, digamos, Powerslave seja algo muito sério e cheio de significados…

Categoria(s) associada(s): Discos do mês



1 comentário:

  • Sid Costa há 1 dia e 20 horas

    Acho que o megazord do Yes chega ao máximo de desenvoltimento no Going for the one, a partir daí é só revisionismo. Como vc deve imaginar, gosto de tudo desses caras, ao menos até o Going… mas acredito que a nata esteja entre o Time a Word e o Fragile, e sim, And you and I tá em outra esfera…

Comentar