1996

Por Fabricio C. Boppré há 1 semana e 1 dia

Lembro-me de uns dias lá pelo começo do ano em que eu andava feliz com as notícias sobre os novos discos de duas das minhas bandas de rock mais queridas, o Pearl Jam e o Midnight Oil. (Eu ia escrever “mais queridas da juventude”, mas a quem eu enganaria?) Não havia porque resistir àquela alegria simples e sincera, e ponderações mais sérias acerca de sua pertinência — dada a calamidade em que este país se transformou — eu consegui obliterar e assim preservar mais ou menos intacto meu direito ou ilusão de gozá-la (a alegria) plenamente, quase como se estivéssemos ainda em 1996, como se não vivêssemos ainda a era das realidades paralelas e fascistas no poder fossem apenas a lembrança dos tópicos mais tétricos das aulas de história de alguns anos antes, duas ou três vezes por semana, sem dúvida as melhores de toda a minha vida escolar. (O professor, Renato era o nome dele, chegava em um Fusca um minuto antes da aula começar; fazia o trajeto da rua para a classe enfiando a camiseta para dentro das calças, botava para dentro da sala os alunos que o esperavam do lado de fora — “dispenso comitê de recepção”, dizia com meio-sorriso —, jogava as chaves do carro sobre a mesa, perguntava para alguém em que ponto havíamos parado na aula anterior e iniciava. Ele não trazia livros ou anotações, era só no giz e no gogó.) O disco do Pearl Jam já veio ao mundo e é ótimo, conforme dei minha opinião por aqui dia desses; o do Midnight Oil — que talvez sejam dois — ainda é o agradável enigma dos discos não-lançados, ainda é apenas espera e promessa, e bem que assim, pensava eu dia desses, assim sem ter sequer título e data de lançamento anunciados — mas já ocupando seu espaço em minhas expectativas e em minha imaginação — poderia ele permanecer por mais algum tempo indefinido, para que aquela pequena e persistente cintilação de alegria do começo do ano perdure mais um pouco…


Aguardar com alegria e esperanças o lançamento de um disco é (no mais condescendente dos julgamentos) uma minúcia, eu reconheço, dessas a que temos nos apegado para aliviar um pouco o fardo do acúmulo de Brasil em nossas mentes. Ocorre que aos objetos destas minúcias, às vezes, o tempo se encarrega de atribuir algum vulto, ou significado. Dias atrás eu escutava ao New Adventures in Hi-fi (lançado naquele inesquecível 1996 que nos deu também o No Code do Pearl Jam e o Breathe do Midnight Oil) e constatava com uma destas certezas súbitas e absolutas — destas que, embora todos os sinais necessários para reconhecê-la como tal já estivessem disponíveis no momento exato do fato (no caso, do lançamento do álbum), ela só poderia realmente passar a ser compreensível e expressável anos e anos depois, após muita água passada por sob a tal da ponte — constatava que este disco do R.E.M. é uma espécie de ápice de muitas coisas. Uma culminação do rock alternativo norte-americano, ou, de modo mais geral, do rock ’n’ roll que não é mera estética juvenil ou rebelde; de um gênero musical que ali na voz de Michael Stipe parecia atingir sua maturidade, a flor de sua idade; quem sabe até de um estado de espírito pós-guerras, pós-ditaduras, pós-diversas catástrofes que acreditávamos terem ficado para trás e que a partir de então nossa tarefa seria apenas evoluir, aperfeiçoar a humanidade. Sendo um ápice, hoje é fácil ver que dali por diante o caminho inevitável seria, na verdade, ladeira abaixo… Mas com estas reflexões eu pretendo, além de sublinhar a excelência deste álbum, reforçar as esperanças que me parecem ainda possíveis. Não acredito em perfeição (eu não diria que este é um disco perfeito) e minha intuição não me permite mais manter a antiga fé em um futuro longo e venturoso para a humanidade, mas acredito fervorosamente no New Adventures in Hi-fi e no que ele representa: nossos melhores momentos, nossos momentos sublimes. Estes momentos são as compensações das batalhas de uma guerra longa e já perdida desde há muito tempo, compensações que podem, em seus mais benditos resultados, fazer as batalhas e mesmo a guerra toda valerem à pena. Isso eu digo convictamente do New Adventures in Hi-fi. O fundo do vale em que hoje nos encontramos, aturdidos e desorientados, há de ser atravessado tendo isto em mente — a esperança de que haveremos de encontrar ainda alguns outros cumes pela frente.

Categoria(s) associada(s): Outros

Créditos da imagem: o R.E.M. em 1996, em foto de Anton Corbijn, copiada daqui.



Nenhum comentário.

Comentar