Discos do mês - Maio de 2020

Por Fabricio C. Boppré em 02/06/2020

Normunds Šnē & Sinfonietta Rīga - Pēteris Vasks: Viatore

Já pensei em iniciar uma série de posts cujo objetivo seria tentar converter seus eventuais leitores em fãs de música clássica. O (completamente óbvio e nem um pouco original) método: compilar as peças que acredito serem impossíveis de não se apreciar, aquelas cujas belezas transcendem as preferências de gêneros, de instrumentos, de épocas, etc. As Variações Goldberg de Bach e o quarteto de cordas número 14 de Schubert; a sonata D.960 do mesmo Schubert e a Sonata ao Luar de Beethoven; o quarteto de cordas número 8 de Shostakovich e o quinteto para piano de Schnittke; Shaker Loops de John Adams e Verklärte Nacht de Schoenberg… Na minha imaginação (talvez “fantasia” seja uma palavra mais precisa), bastaria ouvir qualquer uma destas com atenção para a mágica da conversão se realizar. Pois bem, um dos CDs favoritos aqui em casa durante a quarentena tem sido este Viatore, disco dedicado ao trabalho do compositor Pēteris Vasks e em cujo tracklist temos não apenas uma, mas duas peças que eu incluiria nesta lista: Musica adventus e a epônima Viatore. São banquetes completos estas obras do letão Vasks. São, para começar, muito bonitas naquilo que elas têm de irredutível, ou seja, sua natureza física básica, a propagação de ondas que se percebe antes mesmo de qualquer tipo de intermediação racional, de qualquer movimento reflexivo mental que vá além do mínimo necessário para a admissão delas, das ondas sonoras, em nós. Porém, por maior que seja este deleite inicial, ele logo se torna apenas uma pele, ou uma espécie de chamado, pois há muito mais nesta música — há toda uma série de desafios, de mistérios a serem desvendados abaixo destas límpidas superfícies. Daqui do meu ponto de vista me parece muito difícil resistir a isto tudo: o que as move? onde começam e onde terminam os ciclos que as compõem? que agentes interferem em suas evoluções? e serão elas a mesma música na próxima vez…? E por aí vai. Há ainda a sensação de quimeras em andamento; de um certo equilíbrio meticuloso e terrível, regido por algo que parece permanecer distante, paciente, uma entidade secreta a nos observar… Mas aí já estou entrando nos pormenores dos meus devaneios particulares. O fato é que temos neste disco um banquete sensorial e intelectual completo, e fica bem servido mesmo quem preferir ignorar todos estes incentivos à imaginação, todos estes desafios e chamados, toda forma de conjectura e investigação — ignore-se tudo isso e as simples sequências de sons que compreendem Musica adventus e Viatore continuam sendo música absurdamente bonita.

Pearl Jam - Gigaton

A artimanha de reduzir um pouco as expectativas que eu vinha nutrindo a respeito do novo disco do Pearl Jam — estratégia elaborada para evitar alguma grande decepção — acabou provando-se desnecessária: o disco é muito bom! Minha afeição por Gigaton foi quase imediata. Se bem me lembro, o roteiro das primeiras audições foi o seguinte: o lado A me deixou contente com a impressão de que a banda finalmente achou uma fórmula para aquilo que podemos, hoje em dia, esperar destes senhores em termos de rock ’n’ roll mais básico, mais afiado, coisa que, ao menos na minha opinião, eles vinham falhando em todos os discos desde, sei lá, o Binaural (porque gosto muito das faixas mais viscerais daquele disco). É como se fosse uma maturidade que está vindo à forcéps — mas, ao menos, está vindo. O lado B me soou um pouco irregular: aqui estão os engodos, Alright e Take the Long Way (antes que eu passasse a tolerá-la, esta última chegou a me parecer a pior música já gravada pelo Pearl Jam), mas também a ótima Never Destination — que dá ares conclusivos à impressão deixada pelo lado A — e aquela que é provavelmente a minha faixa favorita em todo o disco, Seven O’Clock, música que abraça um risco enorme em seu refrão, risco que poderia muito facilmente resultar em um equívoco terrível, mas, contra toda e qualquer previsão mais sensata, ela acerta, e é por isso mesmo um acerto imenso, um belíssimo acerto. Por fim, o lado C (a versão em vinil traz dois discos com quatro faixas em cada um dos três primeiros lados e apenas uma inscrição — “Is This You?” — no último) este terço final de Gigaton me intrigou e deixou em mim um grande espaço para que o disco crescesse. Coisa que, de fato, ele vem cumprindo. Algumas impressões soltas: que maravilha ouvir uma banda deste porte, com este enorme palanque que eles têm, achincalhar sem rodeios e nem meias palavras o pilantra vigarista que é o atual presidente dos EUA (Quick Escape é outra grande favorita neste tracklist); Buckle Up, assim que assentou-se em mim a estranheza de sua atmosfera ao mesmo tempo sinistra e descansada — uma música que parece esconder alguma coisa —, logo me fez pensar em certos momentos do Animals, do Pink Floyd, quando as vozes de Gilmour e Waters são muito difíceis de diferenciar (aqui a brincadeira é entre Eddie Vedder e o guitarrista Stone Gossard); Comes Then Goes, Retrograde e River Cross, pelo clima que instauram nos momentos derradeiros do disco — meio “natural mystic”, meio solene, algo já tentado anteriormente pela banda, mas cujo êxito mais notável, antes deste, estava na trilha sonora gravada por Vedder para o filme Into the Wild —, essas faixas e este clima final fazem do lado C o meu preferido e grande responsável pelo disco estar ainda em viés de alta aqui em casa. O que me faz lembrar de que quando o Lightning Bolt foi lançado, eu o escutei umas duas ou três vezes e cogitei sem maiores convicções que ele talvez merecesse mais algumas chances… Então passaram-se sete anos entre aquele álbum e este e, se a memória não me falha, eu não voltei a tirar o Lightning Bolt da estante. Coisa similar não vai acontecer com Gigaton: para mim, é o melhor disco da banda desde o Yield.

Ná Ozzetti - Meu Quintal

Já há muitos anos nós não temos canais de televisão aqui em casa, que é para — como diz o escritor Geoff Dyer em um livro sobre o filme Stalker — para não deixar “os idiotas entrarem em nosso lar”. A entoação da tragédia brasileira, e as vozes repulsivas e ideias asquerosas de seus atores principais, praticamente nada disso se ouve por aqui, e assim fazemos deste nosso pequeno espaço um recanto de paz e serenidade, com livros e discos por todos os lados, e velas, e paredes azuis e mantas trançadas por sobre os sofás. Refúgio e santuário, preservado da presença pestilenta de fascistas e de cúmplices de fascistas. Neste lar, nos últimos tempos, as vozes em português que não as de seus dois moradores costumam ser apenas as de Ná Ozzetti e de Mônica Salmaso, estes cantos femininos inundados de uma beleza tão terna e tão familiar, uma beleza que é das poucas coisas atuais que reconheço como algo genuinamente brasileiro sem que isso venha imediatamente acompanhado de náusea e de vergonha. Vozes em cujas companhias nos mantemos não apenas purificados e saudáveis, mas também esperançosos de que este excessivo pesadelo pelo qual passa o Brasil logo logo vai terminar.

“Meu quintal
Tem um sol
Bem maior
Que esse normal
Um luar
Colossal
Mapa astral
Diz que tudo
Vai dar certo”

(Composição de Ná Ozzetti e Luiz Tatit)

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