Impressões auditivas, Vol. XVIII

Por Fabricio C. Boppré em 17/05/2020

  • Eu dificilmente percebo a tão incensada superioridade sonora dos discos de vinil. Não é frequente, mas acontece: o som da minha cópia da reedição do The Division Bell, lançada no aniversário de 20 anos do disco original, é exuberante. Escutá-la com fones de ouvido é incontestavelmente uma experiência superior. O trabalho feito na reedição do Superunknown do Soundgarden é outro que legitima a defesa apaixonada que os audiófilos fazem dos velhos discos negros. São casos específicos, evidentemente — reedições caprichadas em 180g, concebidas para não decepcionar quem já conhece os álbuns de longa data —, mas que comprovam a premissa da superioridade do formato.
  • Então que eu gosto do som do vinil, e posso até gostar muito, como visto acima; e é claro que o objeto vinil — sua densa e matizada escuridão, seu peso e sua presença incomparável — eu o prefiro muito em relação ao CD, cujos atrativos físicos praticamente inexistem, a menos que alguém consiga se afeiçoar por algo quebradiço, cheio de reflexos e de letrinhas diminutas… Nestes quesitos extra-musicais, não há como compará-los. Porém são os CDs os meus mais constantes companheiros musicais. Estabeleceram-se logo cedo em minha vida — tive bem poucos vinis antes do advento dos CDs — e continuo vivendo o mundo da música predominantemente através deles, por uma questão indisfarçável de conveniências — preço, espaço, etc. —, sim, mas que sinto que não diminuem em nada o meu prazer e o meu senso de aventura. A música que emana desses objetos, afinal, é o mais importante. Por isso eu também adoro os pequenos discos espelhados! E, enquanto isso, aos vinis, acaba calhando ficarem reservados certo exotismo ou excepcionalidade, o uso e o manejo em ocasiões especiais e a possibilidade de exaltação daqueles álbuns mais queridos. Talvez possa ficar bem resumido, no fim das contas, que tenho grande apego a qualquer coisa que carregue música. (E nem falei das fitas cassetes, que ainda tinham suas outras maravilhosas propriedades… Isso fica para uma reflexão futura.)
  • Peço licença para um último comentário sobre o The Division Bell. Este blog parece, nos últimos tempos, estar totalmente à sombra das esculturas que ilustram a capa deste disco, não é mesmo? O caso é que andei lendo algumas coisas sobre o último rebento do Pink Floyd (penúltimo se você considerar como genuinamente pertencente ao cânone floydiano o The Endless River, coisa que eu resisto um pouco em fazê-lo) e achei curioso o contraste entre as opiniões emitidas sobre ele na época de seu lançamento original, em 1994, e aquelas emitidas depois, em 2014, na época de seu relançamento em vinil. Comentaristas e fãs — casuais ou profissionais — não pareciam muito entusiasmados lá atrás, quando o disco veio ao mundo, antes da virada do milênio… Acho que se pode dizer, resumidamente, que as críticas foram em sua grande maioria negativas. Reproduzo o trecho de uma apenas, bastante representativa de várias outras: “avarice is the only conceivable explanation for this glib, vacuous cipher of an album (…)” (colhida daqui). Corridos vinte anos, já sob as luzes do século XXI, as resenhas que apareceram por ocasião do aniversário de duas décadas do álbum são bastante diferentes, bem mais generosas com o esforço final do trio Mason, Gilmour e Wright. Acho compreensível. O mundo em que vivemos já era bastante diferente em 2014 — decerto degradou muito depois disso, mas em relação à 1994 aquele 2014 já era um mundo cheio de cinismos e pessimismos, de nostalgias e fracassos. Em 1994 podíamos nos dar ao luxo de sermos críticos severos com o Pink Floyd; hoje, vendo capitularem uma a uma as esperanças e promessas daquela época, seríamos tão rigorosos assim? Creio que isso se reflete nas renovadas opiniões sobre o álbum: li gente considerando-o até mesmo uma consolidação final de tudo que o Floyd teve de melhor em sua carreira. Um exagero, evidentemente… Mas mesmo que consideremos a hipótese de opiniões deste tipo terem sido escritas por comentaristas atravessando crises de meia-idade (que suponho virem acompanhadas de grandes doses de nostalgia) ou por fãs cujo saudosismo merece cuidados clínicos, continuo achando que a diferença nas circunstâncias do mundo tem papel crucial nesta boa vontade que o disco encontrou em 2014. Não é, definitivamente, questão de não haver boa música contemporânea para se desbravar e apreciar — ela sempre haverá, isto é uma convicção inabalável minha. A necessidade humana de música, contudo, deve ter se aprofundado nestes tempos sombrios, e o instinto que outrora nos impelia à seletividade hoje talvez ceda espaço àquele mais básico da sobrevivência. O que está nas entrelinhas desta renovada apreciação do The Division Bell, na minha leitura, é que não podemos mais descartar um disco que, embora não seja um Dark Side of the Moon redivivo, pode perfeitamente ser mais uma pedrinha numa senda de salvação, algo em que podemos nos apoiar, e nos ajudar a sobreviver a este período turbulento e potencialmente aniquilador de nossas últimas esperanças — aquelas que sobraram das que tínhamos, em 1994, em tanta e tão variada quantidade que podíamos até mesmo desdenhar de algumas delas.
  • (Claro que o problema da reflexão acima é que estou me tomando como uma espécie de modelo ou norma geral. Em 1994, eu tinha ilusões e esperanças; alguém que tivesse os meus atuais 40 anos naquela época talvez já não fosse assim tão otimista… Analogamente, para alguém que tenha hoje seus verdes 15 anos, este mundo, apesar de tudo, pode perfeitamente afigurar-se ainda como uma grande e promissora aventura, com um prolongado futuro pela frente. Segue-se então que talvez seja tudo apenas uma questão de nostalgia e de crises de meia-idade [a quem pode se dar ao luxo dessas coisas…], invariáveis na vida de cada um e independentes dos rumos da humanidade, e os discos a medirem os otimismos e desesperanças de cada época serão, sempre, simplesmente, outros.)

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