Impressões auditivas, Vol. XVI

Por Fabricio C. Boppré em 21/04/2020

  • Acho que nunca me entendi como um colecionador de discos porque isso seria rebaixar horrivelmente a profunda relação que mantenho com meus CDs e vinis e todo o resto. Uma forma mais justa de definir este vínculo seria algo como: “artifício pessoal contra a ordem natural das coisas, contra a sina à qual especialmente nós brasileiros parecemos todos previamente condenados: ter fé, para depois perdê-la”. Isso tem nome? Método filosófico? Sistema de defesa espiritual? Religião? É algo que se move muito mais por estas searas, enquanto que os esforços todos de organização e catalogação etc. — dos quais não estou isento — são apenas contingências da minha aplicada disciplina devocional.
  • Uma ocorrência que justifica este fervor: em um fim de tarde desses, profundamente desalentado após ler as notícias do dia no Brasil, estava eu distraído diante das estantes onde ficam os discos, esforçando-me para afastar da mente todas aquelas desgraças e nomes e fisionomias monstruosas lidas e vistas nos jornais, tentando de todas as formas me concentrar na escolha de algo para ouvir e me transportar para fora do mundo o mais rápido possível. Tudo era em vão. Meus olhos percorriam desatentos as muitas pilhas e fileiras de discos e não viam praticamente nada; aqueles nomes e fisionomias do noticiário continuavam me assombrando, nocauteando o meu espírito, impiedosamente esmurrando e pisoteando meu ânimo já esfacelado no chão. Foi então que de repente a esquisitíssima capa rosa-choque d’um velho vinil da Deutsche Grammophon com o Concerto para Violino de Beethoven (Christian Ferras no violino, Herbert von Karajan conduzindo a Filarmônica de Berlim), álbum que pertencera ao meu avô, finalmente fez minha mente e meu olhar entrarem em foco. Não muito distante dele, o Small Craft on a Milk Sea do Brian Eno — este em CD — passou também, subitamente, a clamar por atenção. A princípio me pareceu uma combinação bastante estranha, Beethoven e Eno, mas havia um tom audacioso nos olhares que eles me lançavam, confiantes e insolentes, e não resisti — aceitei-lhes o desafio. Finalizada a audição da dupla (primeiro Eno, depois Beethoven), o mundo estava renascido para mim.
  • Sobre o disco de Eno (em parceria com Leo Abrahams e Jon Hopkins), há um texto meu perdido por aí nos arquivos do blog. Se bem me lembro do que escrevi naquela ocasião, não tenho muito o que acrescentar.
  • O vinil, infelizmente, não está bem conservado, mas o concerto (na capa está escrito “Concêrto”) de Beethoven quase faz desaparecerem o chiado e os estalos que se manifestam mais fortes quando a agulha vai se aproximando do centro de cada lado — àquelas alturas, o encantamento já é irreversível. Que música magnífica! Logo percebi que tenho memorizadas longas passagens de seus três movimentos, e olha que não foram muitas as vezes em que escutei a esta obra antes… Ademais, é música sobre a qual não me atrevo a escrever. Basta que fique registrado seu efeito sobre mim naquele fim de tarde.
  • Algumas notas de ordem historiográfica sobre este objeto (o vinil) e sobre o que ficou perdido pelos caminhos de sua longa trajetória: se não foi o caso do meu avô ter em algum momento trocado a capa plástica que o protege, o logotipo e o endereço impressos neste plástico nos informam que ele comprou o álbum na Bruneti Discos que ficava na Rua Tenente Silveira nº 15, no coração do centro de Florianópolis (havia filiais da Bruneti em alguns centros comerciais e em outros locais da região central da cidade; nessa mesma unidade da Tenente Silveira, eu, algum tempo depois — por volta de 1990 — comprei meus dois primeiros CDs, a trilha-sonora do filme Young Guns II gravada pelo Jon Bon Jovi e o Scoundrel Days do a-ha; a loja — cujo interior e disposição das prateleiras de discos ainda me lembro muito bem — já não existe faz muitos e muitos anos); trata-se, o vinil, de uma edição brasileira lançada em 1971, que não estava ainda cadastrada nos Discogs, mas agora está; a capa, como mencionei anteriormente, é bastante extravagante, mas a contra-capa (esta aí em cima), em contraste absoluto de cores e humores, é muito boa: um munificente e heróico Karajan pairando e emergindo como que do fundo de uma caverna, portador solene da mensagem revelatória definitiva, esperando apenas que façamos silêncio para iniciar sua transmissão. Pausa para se pensar se estou mesmo falando sério. É claro que não; essa descrição de Karajan é pura galhofa exagerada minha. Pena que no canto inferior direito o velho e trágico lembrete engasga qualquer possibilidade de risada: “Companhia Brasileira de Discos - Disco é Cultura”.

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Créditos da imagem: contra-capa deste disco.



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