Pequenos grandes homens

Por Fabricio C. Boppré em 28/03/2020

No documentário Miles Davis: Birth of the Cool, disponível neste momento na programação do Netflix, há algumas cenas em que Miles aparece pintando, hobby adquirido na fase final de sua vida. Estas cenas mostram o pincel em suas mãos movendo-se sobre as telas naqueles gestos peculiares dos artistas, movimentos que nós, os destituídos destes talentos, nunca conseguimos entender de onde vêm — um deslizar gracioso e aparentemente aleatório, um sobe e desce suave que se parece também com um paciente jogo de clarividência. E também no palco Miles era assim: o olhar cuidadoso e concentrado nos músicos que o acompanham; o passo discreto em direção ao fundo do palco quando é chegada a hora de ceder o protagonismo a outro instrumentista; o erguer e o descansar vagarosos do trompete; o tempo das notas e o controle total do feitiço que elas exercem sobre as platéias à sua frente (uma das histórias mais deliciosas do filme — não lembro quem conta — relata que certa vez, nos ensaios preparativos para uma apresentação, Miles não dava direção alguma, não falava coisa com coisa, apenas dizia aos membros de sua banda que tocassem o que quisessem, que seguissem a inspiração do momento etc., quando alguém interrompe e diz que parecia tudo muito bom exceto que talvez o público não gostasse do resultado, ao que Miles responde: “deixem o público comigo”). O documentário é bom, vale a pena assistir devido às cenas com Miles e às entrevistas com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Archie Shepp, entre outros. Sua maior virtude, contudo, é a honestidade: o mítico trompetista não é preservado de suas muitas e enormes falhas. A mesma mão que pacientemente deslizava o pincel sobre uma tela e que empunhou o mais célebre trompete da história foi também usada para agredir mulheres algumas vezes. Antes de tratar disso, o documentário exibe uma ou outra tentativa de explicar o comportamento futuro de Miles: uma breve e especulativa menção aos conflitos entre seus pais, depois o episódio da coronhada que recebeu de um policial. Não tenho condições de compreender as consequências da violência e do racismo sobre a psique de suas vítimas; sei que é matéria complicadíssima. Meu pacifismo quase intransigente, contudo, me impele a repudiar qualquer instância da violência, sempre, seja lá qual for o histórico do agressor. Não consigo absolver Miles. É uma pena. Não importa o que a experiência continuamente me ensine sobre os humanos, eu sempre acho desconcertante essa convivência num mesmo corpo, numa mesma alma, de grande talento e cafajestagem rasteira, de elevada visão artística e vilania. Louis-Ferdinand Céline, Pablo Picasso, Richard Wagner, Miles Davis, Marlon Brando; anti-semitas, racistas, espancadores de mulheres, estupradores, há de tudo. Posso até conceder que uma coisa ou outra, eventualmente, deva ser relativizada pela força da cultura e das circunstâncias, e pelas já mencionadas implicações das muitas formas de opressão e hostilidade social… Mas violência contra quem não pode se defender, venha de quem venha, é algo que me incomoda profundamente. Saber que três dos meus maiores ídolos musicais — Miles, Jimi Hendrix e Jim Morrison — foram abusivos com mulheres é um pensamento que não me deixa muito feliz. (Morrison, garotão branco e californiano, certamente não tinha desculpa alguma.) Mas é assim a humanidade, essa mistura desvairada de alguns poucos grandessíssimos grandes homens somados à imensa maioria dos comuns e suas doses assimétricas de defeitos e virtudes, baixezas e generosidades, e todos nós, coletivamente, rebaixados pelo grupelho dos sórdidos convictos, os completamente degenerados que andam a levar, por estes dias, o conceito de desumanidade ao paroxismo. Qual será o saldo final dessa confusão é algo que desconfio estarmos cada vez mais próximos de descobrir.

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Créditos da imagem: Foto de autor desconhecido, copiada daqui.



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