Meus discos preferidos de 2019

Por Fabricio C. Boppré em 14/01/2020

Vejo muita gente preambulando suas listas de melhores discos do ano com longas e escusadas justificativas para terem cedido ao impulso de fazê-las, quase que pedidos de desculpas por terem ousado enumerar seus álbuns favoritos dentre aqueles lançados desde a última vez que fizeram esse mesmo exercício, como se estas listas precisassem de um motivo muito nobre e elevado para existir e não fossem, antes de tudo, passatempos triviais que se contém em si mesmos, se definem por si só, e que só os lê quem quer — e quem quer é geralmente alguém que, sem maiores motivações metafísicas, simplesmente gosta de ler listas de preferências pessoais e de fazer também as suas próprias. É óbvio que o sujeito não ouviu todos os discos que foram lançados no planeta Terra em 2019; é óbvio que ninguém tem a pretensão de elencar os definitivos melhores álbuns de 2019; é óbvio que você é um indivíduo cheio de idiossincrasias e gostos pessoais e intransferíveis e blá-blá-blá. Que bobagem. Para além do inofensivo prazer de se elencar coisas preferidas, pode-se acrescentar que listas deste tipo são também recortes do que somos (ou fomos) e breves retrospectivas de fóro íntimo, na medida em que música, pelo menos para mim, nunca é apenas música, é algo que envolve toda a minha existência, e isso, não fossem os motivos mencionados antes, também bastaria para a existência delas. Portanto, sem mais pretextos ou desculpas — pois não me escapa a percepção de que também eu acabei escrevendo um preâmbulo meio inútil —, aí vai a relação dos meus 14 discos favoritos de 2019, ordenados alfabeticamente pelo nome do/a(s) artista(s) ou banda, seguida de alguns comentários sobre três ou quatro dos discos escolhidos:

  • Alban Gerhardt: Bach: The Cello Suites
  • Avishai Cohen: Arvoles
  • Evgeni Koroliov, Anna Vinnitskaya, Ljupka Hadzi Georgieva & Kammerakademie Potsdam: Bach: Concertos for Pianos
  • Full of Hell: Weeping Choir
  • Giancarlo Eliodoro Parisi & Rossella Perrone: Heitor Villa-Lobos: Lua Nova - A Preyer for Amazonas for Saxello, Zi Flûte and Guitar
  • Lower Dens: The Competition
  • John Coltrane: Blue World
  • Marissa Nadler & Stephen Brodsky: Droneflower
  • Mirga Grazinyte-Tyla, Gidon Kremer, City Of Birmingham Symphony Orchestra & Kremerata Baltica: Weinberg: Symphonies Nos. 2 & 21
  • Nick Cave And The Bad Seeds: Ghosteen
  • Patricia Kopatchinskaja & Camerata Bern: Time & Eternity
  • Pauline Kim Harris & Spencer Topel: Heroine
  • Sam Rosenthal, Nick Shadow & Steve Roach: the gesture of history
  • Sara Andon & Simone Pedroni: Cinema Morricone - An Intimate Celebration

O disco do Nick Cave e seus Bad Seeds é, realmente, extraordinário. Só fui escutá-lo alguns poucos dias atrás, e antes disso eu vinha lendo elogios muito entusiasmados ao álbum, coisas que foram me deixando curioso mas, depois de certo ponto, também receoso de que a expectativa toda que fui acumulando pudesse gerar uma grande desilusão acaso o álbum não fosse tão bom assim, coisa que cogitei possível quando lembrei que não sou lá grande fã dos dois álbuns anteriores de Cave, obras igualmente muito elogiadas e incensadas por aí. Cave parece ter sido alçado a essas alturas onde dificilmente algo seu será um dia mal recebido; é uma das grandes entidades de nosso tempo, e não sem méritos. A temida frustração, em todo o caso, não aconteceu. É um grande disco, bastante comovente, certamente um novo parâmetro para aquele velho argumento sobre a beleza das coisas que podem nascer do luto. Ghosteen não é, contudo, meu favorito do ano: o título fica com o disco de Patricia Kopatchinskaja, cujos dotes técnicos como violinista eu já comentei anteriormente. Outro de seus talentos, também já citado por aqui em outra ocasião, é a elaboração destes projetos que giram ao redor de um tema e que reúnem peças que atravessam épocas, estilos e compositores. Time & Eternity não pretende pouca coisa: trata-se de uma meditação sobre a condição humana e reúne música feita “out of the blood and tears of tortured souls”, de acordo com a própria Patricia. A ambição é grande; o resultado é maior ainda. O disco é fantástico, com seu repertório audacioso e abrangente, e a garra e a presteza habituais de Kopatchinskaja. Heroine, de Pauline Kim Harris e Spencer Topel, não fica muito atrás destes dois: também ele é belíssima música que parece flutuar um pouco acima da atmosfera pedestre e também ele versa sobre as grandes questões humanas — o tempo, a vida e a morte. Música continua sendo o melhor idioma para se conversar sobre isso tudo, como se pode ver. Por fim, um comentário sobre o Blue World: sim, eu sei, trata-se de um disco caça-níqueis, parte da insaciável exumação mercantilista da obra de Coltrane, o tipo de coisa que merece, no mínimo, desconfianças e questionamentos. Porém, é só colocar o disco para tocar e: como não amar? Como não amar o First Rays of the New Rising Sun do Jimi Hendrix, provavelmente o cadáver mais explorado da história da música com seus incontáveis discos ao vivo e compilações e sei lá que outras falcatruas a sair todos os anos, testemunhos que variam do mal-disfarçado ao completamente sem-vergonha da sanha usurária da indústria da música e dos herdeiros da obra de Hendrix, que não vacilam antes de pegar uma faixa lançada aqui, outra acolá, juntar em um novo disco e pronto, é só aguardar o som das caixas registradoras. E, mesmo assim, eu amo insofismavelmente o First Rays of the New Rising Sun, lançado 27 anos após a morte de Hendrix sem nem uma única faixa inédita. Ou seja: nos assuntos do coração, a voz da razão muitas vezes emudece. O que provavelmente é só uma forma condescendente de dizer que sou, moralmente, um fracote. O caso de Blue World é um pouco diferente: era música encaixotada, jamais lançada. Considerando que o selo de aprovação de Coltrane hoje é impossível, o dilema moral torna-se menos difícil: afinal, o mundo é um lugar melhor com mais músicas de John Coltrane disponíveis por aí.

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