Discos do mês - Dezembro de 2019

Por Fabricio C. Boppré em 01/01/2020

O que sempre me afastou — ou, digamos de maneira um pouco mais favorável à banda, o que sempre me impediu de gostar mais — do Legião Urbana foram aquelas canções onde Renato Russo colocou sua erudição literária e poética à serviço das pequenas crises e angústias juvenis, matéria que eu nem desacredito que possa render boa música, porém no caso do Legião, no mais das vezes, resultava num festival constrangedor de rimas infames e poesia adolescente de quinta categoria que, não fôsse a doença a levá-lo tão cedo (à Renato Russo), provavelmente teriam-lhe custado a vida não muito tempo depois, quando chegasse ele lá pelos 40 anos e, numa crise de nostalgia, resolvesse reler o que escrevera e cantara quando adolescente e o suicídio causado pela vergonha daquilo tudo, das rimas e das letras embaraçosas, teria sido então inevitável. Bobagens como Eduardo e Mônica e outras cujos títulos não me recordo. Mas Russo tinha também seus talentos, isso eu nunca neguei; sempre admirei muitas das coisas da banda, e só não as escutava mais vezes devido ao fastio que me causava este lado mais popular do grupo, que parecia cativar com mais força aqueles da minha geração (ou, ao menos, os da minha vizinhança) e sabotava as chance que eu poderia vir a ter de me aproximar mais da banda. Lembro que numa determinada época meus amigos só falavam em Faroeste Caboclo, se divertiam recitando toda a sua extensa letra, e eu achava aquilo um porre interminável. Enfim, perdi o momento Legião Urbana da minha adolescência, perdi-o por um descompasso causado também — talvez principalmente por isso — pelo meu logo manifestado amplo interesse em música, que acabou por me conduzir por outros múltiplos caminhos. (Dos que cantam na língua de Camões e Saramago, sempre me foram imprescindíveis apenas o genial Raul Seixas e aquilo de que gosto de gêneros genuinamente brasileiros, incluídos aí Nação Zumbi e Mundo Livre S/A; de resto, em termos de rock ’n’ roll made in Brasil, acho que posso dizer que passei largamente à margem.) Foi só aos poucos — finada a banda, amadurecido o espírito e esfriadas as querelas citadas acima — só aos poucos é que pude me dedicar a ouvir, vez ou outra, sem pressão e sem ressentimentos, o que eu realmente gosto do Legião Urbana, este nosso imperfeito Smiths tupiniquim: o álbum As Quatro Estações, por exemplo, considere-o quase que inteiramente bom, e até bem mais do que isso em suas duas primeiras canções, as soberbas (não menos do que isso) Há Tempos e Pais e Filhos, essa última cuja infinita repetição na época talvez a tenha estragado um pouco, mas não o suficiente para que não lhe seja mais possível reconhecer a excepcionalidade, a belíssima letra, a melodia — todo o conjunto musical, em suma. Eu diria, tranquilamente, que se trata de duas das maiores canções brasileiras de todos os tempos, mesmo considerando neste juízo todo o vasto catálogo de obras-primas dos nossos gênios do samba e da MPB em geral (e de Raulzito). Também os dois álbuns seguintes, V e O Descobrimento do Brasil, também estes têm seus ótimos momentos. Já A Tempestade, o último lançado enquanto Russo estava vivo, este já um disco mais complicado. Quem é daquela época deve se lembrar: a obra mais triste e confessional da banda, a melancólica despedida extra-oficial, já que seu líder e principal compositor tinha os dias praticamente contados. Não se falava da saúde de Renato Russo nesses termos explícitos, mas todos sabiam: o líder do Legião Urbana seguiria Cazuza muito em breve. E assim foi, e o disco, inevitavelmente, ficou marcado por aquela desolação toda; no que diz respeito às suas qualidades musicais, se for possível pensá-las isoladas daquele contexto, na minha lembrança de o escutar algumas vezes (meu irmão comprou o álbum quando ele foi lançado) era um disco de mediano para ruim, bastante aborrecido em alguns momentos, pouco convidativo para uma audição completa. Pois bem, resolvi escutar A Tempestade novamente alguns dias atrás, assaltado pela lembrança súbita de algumas de suas faixas, aquelas que permaneceram mais fortes em minha memória, e acabei me afeiçoando ao disco, tendo já depois disso voltado a ele mais umas três ou quatro vezes. Alguns de seus problemas continuam lá, conforme eu me lembrava: o excesso de teclados — que aos poucos parece que foi se tornando uma espécie de muleta no som da banda — e o excesso de faixas completamente descartáveis, mais — bem mais — do que costumo tolerar. Uma duração de 50 minutos, ao invés dos seus arrastados 67, faria de A Tempestade um CD bem melhor. Mas, ressalva feita, como eu dizia: passei a gostar mais do disco, ou, pelo menos, a compreendê-lo um pouco melhor. Natália é uma ótima faixa de abertura: dá o tom sem demorar-se quase nada (“Vamos falar de pesticidas/E de tragédias radioativas/De doenças incuráveis/Vamos falar de sua vida”) e termina com uma última e tocante tentativa de esperança (“É preciso acreditar num novo dia/(…)/A escuridão ainda é pior que essa luz cinza/Mas estamos vivos ainda”), algo que reverbera forte no espírito de nós brasileiros nestes tempos sombrios de desesperança quase total. Dezesseis é uma besteira intragável, mas 1º de Julho é excepcional, ao mesmo tempo uma das mais simples e mais ricas do disco. Em Música ambiente o teclado do meu conterrâneo Carlos Trilha funciona; em Longe do meu lado, falha miseravelmente. E o disco segue nessa toada irregular, excessivamente longo, penoso de se atravessar em alguns momentos, mas reflexivo e delicado em muitos outros, com algumas canções muito boas, e mesmo as adversidades todas pelo caminho, os desacertos e excessos — testemunhos, sobretudo, de sua humanidade posta à prova, de sua vida por um fio — mesmo algumas delas me atraíram, como costuma acontecer quando eu reconheço complexidade humana nos discos que ouço. Concebido e criado nas piores condições possíveis, A Tempestade é, afinal, um capítulo derradeiro digno e significativo para aquela que se alguém quiser chamar de a maior banda da história do rock brasileiro, de mim pelo menos é que não se ouvirão maiores discordâncias. (Desde que esteja claro, evidentemente, que o Sepultura trata-se de outra coisa.)

Como já foram muitas as linhas aí em cima, deixarei um comentário rápido sobre algumas outras audições deste último mês de 2019, esse ano grotesco, pavoroso, tristíssimo — o ano em que o Brasil tornou-se vanguarda naquilo que tenho como uma certeza cada vez mais inabalável: a humanidade não tem futuro. “There is no future”, como já dizia aquela música do Sex Pistols. “We’re only gonna die”, já dizia outra do Bad Religion. (Conta-se que William Blake teria obtido a compreensão absoluta da inviabilidade da raça humana quando, certa vez, presenciou um vizinho maltratando um pobre e esfomeado cachorro de rua. O que é o gênio: ele percebe num átimo, e na mais trivial das coisas, aquilo que o restante da humanidade pode levar séculos e toneladas de dados e estudos para compreender.) Mas, aos discos: adorei o novo Lower Dens, mesmo tendo ficado com a impressão de que ele vai gradualmente perdendo o fôlego e a graça. Somente sua primeira metade, no entanto, já o garantiria na minha lista de melhores de 2019. A trilha-sonora do filme jamaicano The Harder They Come — que traz Jimmy Cliff, Desmond Dekker, Maytals, entre outros — rendeu algumas horas de diversão e leveza em certo fim de semana aqui em casa (que nos seja perdoada essa fraqueza tão humana e talvez mais necessária do que nunca). E Villa-Lobos, bem, tenho escutado bastante ao nosso grande Villa para manter vivos e pulsantes meus vínculos com esta terra, com este naco de planeta que nos coube cuidar mas que estamos preferindo destruir, esta nação ou ideia de nação ou seja lá o que sejamos cujo esconjuro do nascimento sob os signos malditos do genocídio indígena e da escravidão parece que levará milênios para se dissipar, se é que o fará, já que em paralelo corremos uma maratona global contra os riscos cada vez mais insuperáveis de extinção em massa. Corremos para trás, no caso. A música de Villa — que não tinha como saber nada a respeito do aumento de temperatura na atmosfera e nos oceanos e tampouco sobre o tipo de gente que votaríamos para presidente no século 21— queria nos fazer acreditar que sim, que nós brasileiros estávamos no rumo certo para superar nossas maldições, que éramos o futuro, um futuro cercado de natureza deslumbrante, pássaros, paz, igualdade e prosperidade. Hoje, contudo, se em algum lugar ainda restam motivos para se acreditar nisso tudo — ou pelo menos para nos comprazer com as lembranças desbotadas de um futuro acalentado num passado já distante e morto e sepultado — estes estão confinados na música destes nossos mestres, e no caminho sinuoso de nossos rios e no fundo de nossas florestas, tudo longe, profundamente longe destas nossas particularíssimas noções contemporâneas sobre ordem e progresso, distante léguas infinitas do Brasil urbano, o Brasil da Avenida Paulista e da estátua da liberdade da Havan, o Brasil capacho de Donald Trump, o Brasil dos templos da Igreja Universal e da Odebrecht. O que de belo e auspicioso nos restou reside onde, do Brasil oficial, a vista já não alcança mais.

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2 comentários:

  • Sid Costa em 02/01/2020

    Acho que se tirar um terço do disco (Música de trabalho, Longe do meu lado, Soul parsifal, Leila e Aloha) teríamos um trabalho um tanto mais coeso. Sou suspeito pra falar do tal BRock, até os anos meados de 91 o máximo de transgressão era o Faith no More por causa do Rock in Rio ou Pink Floyd e Led, mas acho sim que a Legião tem esse estatuto todo. A carreira deles foi a mais regular, e nem falo de êxitos comerciais e sim das mais “obscuras” como Petróleo do Futuro, Andreia Doria, Mais do mesmo, Eu era um lobisomem juvenil, Montanha Mágica, A fonte ou Esperando por mim que refletem bem o trampo deles, sem falar no V que é um absurdo de bom.

    Cara, sei que vc gosta de Caetano, já ouviu o novo do Macalé?

  • Fabricio em 02/01/2020

    Não ouvi, Sid. Obrigado pela dica! Vou procurar.

    Cara, tenho me tornado cada vez mais fã do Caetano. Dia desses escutei pela primeira vez “Noites do Norte”. Que belo disco. Ia até citá-lo nesse post aí em cima, mas resolvi esperar para ouvi-lo uma vez mais. Tem muita coisa para prestar atenção nele.

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