Discos do mês - Novembro de 2019

Por Fabricio C. Boppré em 03/12/2019

Nos últimos dias, sempre que eu pensava no que escrever nesta edição de “Discos do mês”, antes de me vir à mente qualquer coisa para dizer a respeito dos discos do Bad Brains, do Ramones, do Bad Religion e do Bob Marley que venho escutando exaustivamente, ou sobre os discos do Charlie Haden e da Alice Coltrane a quem, quando cai a noite, tenho recorrido em busca de paz e regeneração — antes de qualquer coisa sobre música, o que me vinha primeiro ao pensamento era uma necessidade impreterível de comentar, lamentar, denunciar a desgraça que está acontecendo neste país, uma imposição exasperante de unir minha voz às outras pouquíssimas que têm se insurgido contra esta inacreditável destruição em andamento. Está tudo acontecendo aí às claras, como já aconteceu antes tantas vezes: censura, perseguição, prisões arbitrárias, o moralismo medieval que não aceita divergências de comportamento, racismo e violência explícitos, homicídios clandestinos onde ninguém vê e ninguém se importa, e as particularidades brasileiras, é claro: o genocídio agora praticamente permitido e liberado nas periferias e nas florestas. A benignidade, o respeito, a civilidade e o futuro indo para as cucuias, e parece que, definitivamente, não faremos nada para evitar esta tragédia. A urgência disso tem me sufocado, e escrever sobre qualquer outra coisa às vezes me parece fútil e até mesmo uma covarde cumplicidade. Lembrei-me dia desses daquele filme Judgment at Nuremberg, que mostra o julgamento não dos vilões de primeiro escalão do Terceiro Reich, não de Hitler, Goebbels e outros, mas sim de um punhado de juízes e advogados anônimos que, atuando na Alemanha durante o regime nazista, foram condescendentes com as atrocidades em curso naquele período, e, portanto, tiveram sua parcela de responsabilidade em tudo que se sucedeu. O filme é um manifesto poderosíssimo contra aqueles que deveriam barrar e punir os retrocessos civilizatórios, o desrespeito aos direitos humanos, a injustiça, mas não o fazem seja por covardia, seja pela perspectiva de ganhos pessoais, seja por compactuar com toda a monstruosidade, seja lá por qual motivo. Pois deve haver uma multidão de sicários desse tipo no Brasil hoje, e não apenas nas esferas jurídicas mas em todas as áreas que carregam algum tipo de responsabilidade social, tal a insensatez e a vileza colossais em curso livre aqui por essas terras. É arrasador. Tendo perdido o tempo de protestar (e tendo já antes perdido até mesmo o tempo de perceber a obviedade que seria não eleger um fascista presidente da república), parece que agora só nos resta torcer para que assim como aqueles juízes e homens do direito alemães foram, no fim, considerados tão culpados quanto Hitler, serão cá os nossos, um dia, considerados tão culpados quanto o verme assassino que ora preside o país. Teremos nosso Judgment at Nuremberg, enfim, quando o horror engolir a si próprio — torçamos para que não demore muito. Enquanto isso, se ao menos servir-me para manter o equilíbrio e a sanidade — um objetivo mais tangível do que inspirar alguma revolta ou levante popular, dada a insignificância da minha voz e deste meu espaço — me forçarei a continuar com estas minhas anotações sobre discos e música. Aí vai: Bad Brains é, de longe, o que mais tenho escutado nas últimas semanas; escuto a todos os seus discos com o mesmo deleite e as mesmas sensações libertadoras de expurgação pois é uma destas raras bandas que não erram, para quem o próprio conceito de acertar ou errar — “este disco é ótimo” ou “aquele é menos bom” — não se aplica, já que eles parecem não depender de esforço ou pensamento para fazer jorrar sua música; basta se reunirem, ligar os instrumentos e começar a tocar e gravar. É como se não houvesse necessidade de trabalho e planejamento, que pode ser mais ou menos bem sucedido: é apenas execução direta ou extravasamento de algo que já está ali, pronto e acabado, apenas esperando ser libertado. É Bad Brains, oras. Todos os discos são indistintamente maravilhosos. Ainda assim acho que consigo apontar um favorito, ou pelo menos um favorito momentâneo: Rock for Light, de 1983. Bob Marley é herói meu desde sempre, e só não o é de todo mundo pois ainda estamos longe de superar o racismo e a estupidez. Uprising traz o hino Redemption Song, onde Marley conclama que nos emancipemos de nossa escravidão mental, e que sorte a dele ter morrido tão cedo e assim ter escapado de testemunhar estes nossos tempos atuais, em que parece que não estamos mais nos emancipando de coisa alguma, pelo contrário — a escravidão mental é um aconchego só. Heróis de outro tipo, mas não menos heróis, eram os Ramones, e seu Acid Eaters é um dos meus discos favoritos e, na minha opinião, o melhor disco de covers de todos os tempos. (O melhor cover de Bob Dylan de todos os tempos não foi feito pelo Byrds, nem pelos Stones e nem mesmo por Jimi Hendrix: eu daria o troféu à versão de My Back Pages cantada pelo C. J. Ramone.) Por último, uma audição muito marcante de alguns dias atrás: comprei esse Come Sunday (em CD) sem nunca tê-lo escutado antes, porém sabendo que o nome de Charlie Haden impresso na capa, além de outros pequenos elementos espalhados pelo tracklist e pela arte gráfica do disco — sinais pequenos, mas que não passam desapercebidos pela intuição — eram um selo de garantia e não havia a menor chance de me decepcionar. Era a voz da experiência me falando serena e convicta, naquele dia, naquela loja, enquanto eu examinava o disco e considerava levá-lo comigo. Dito e feito: o disco é lindíssimo. Ao contrabaixo de Haden temos adicionado somente o piano de Hank Jones, e as músicas são como um longo mantra de paz e suavidade, uma corrente mágica, terapêutica, que me foi extremamente benéfica certa noite depois de um dia particularmente frustrante. É com música e experiência que eu me equipo para seguir adiante.

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