Impressões auditivas, Vol. XII

Por Fabricio C. Boppré em 15/10/2019

  • Nunca liguei muito para o Magma, mas como faltavam ainda cerca de três horas para começar a apresentação do Necks, resolvi entrar na sala onde a lendária trupe francesa estava prestes a iniciar sua participação no Tusk Festival, que aconteceu em Newcastle neste último fim de semana. E mesmo não sendo fã da banda, devo admitir que coisas maravilhosas aconteceram naquele palco. Para começar, um show do Magma é longo, muito longo: começando às 20h10, a coisa toda durou umas seis ou oito horas, terminando às 21h50 — é, essa coisa de tempo fica um pouco embaralhada, comprimida. Aqueles vocais cheios de enfeites e piruetas e a tal da Kobaïan, a língua inventada pela banda, são chatíssimos, mas todo o resto é espantoso, e muito envolvente, e deve dar um trabalho dos diabos de compôr, ensaiar, etc. Neste conflito entre vozes apalermadas e seção instrumental deslumbrante, acho que o jogo fica 0 a 0, ou 14 a 14 (me refiro à placares de futebol). É um grande paradoxo esta banda, muita gente no palco e muitos sons se entrelaçando — na maior parte do tempo concordando uns com os outros, evitando quase sempre a tentação do virtuosismo individual, afinal, todo o conjunto já é uma grande demonstração uníssona de virtuosismo — tudo funcionando como algo que não deveria funcionar, mas funciona, ou então como algo que não funciona, mas deveria funcionar — deveria tanto funcionar que você chega a acreditar que funciona — não sei bem. O motor da banda, o propulsor principal deste vôo audacioso e tresloucado é o baterista e fundador Christian Vander, uma dessas figuras que se a humanidade fosse toda feita exclusivamente de indivíduos como ele já teríamos há muito tempo deixado a Terra rumo a outros planetas e outras galáxias, ou então já teríamos há muito sucumbido sob o peso de tanto vigor e extravagância juntos. Impossível saber o que viria primeiro. Para finalizar, acho que nunca vou me esquecer de um certo cheiro que havia na sala durante a apresentação, não sei se vindo da cerveja que ao ser derrubada por alguém atrás de mim misturou-se com o produto químico que havia sido utilizado para limpar o chão minutos antes e juntos se transformaram numa fragrância para lá de esquisita, ou se vindo dos desodorantes que aquela gente toda no palco utilizava e que com o inevitável suadouro se desprendeu e de carona com o gelo seco se espalhou pelo local — qualquer que seja a origem, ficará para sempre em minha lembrança como o cheiro do Magma, a banda que tem excesso de som, de gente, de história, e de cheiro. Foi divertido, no fim das contas (talvez eu deva dizer que o placar terminou 15 a 14 a favor da banda), mas estimo que só volto a escutá-los dentro de 35 anos.
  • Quanto ao Necks: os caras sobem ao palco, neutros e sóbrios, ouvem às palmas e aos assobios e se acomodam em seus lugares; segue-se então um breve silêncio, concentrados, e começam a tocar, e terminam, e você, se teve a sorte de presenciar, volta para a casa e não escreve nada a respeito, não ordena em palavras nenhuma reflexão sobre o que ouviu e assistiu, que é para não macular a lembrança, que é para conservá-la nesta forma original pré-pensamento — guardar apenas os sons e os movimentos, um fragmento de tempo inesquecível e irrecuperável.

Categoria(s) associada(s): Opinião

Créditos da imagem: Christian Vander em fotografia de autor desconhecido, copiada daqui.



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