Discos do mês - Julho de 2019

Por Fabricio C. Boppré em 03/08/2019

Sam Rosenthal, Nick Shadow & Steve Roach - the gesture of history

Há músicas que parecem desprovidas de movimento, como se fossem volumes estáticos de som, som derramado e estancado. Porém não raro é o caso de ouvir-lhes com atenção e descobrir que sim, elas se movem. Talvez the gesture of history não seja o melhor dos exemplos — está mais ou menos evidente que ela se move, mesmo para um ouvinte desatento — mas dar-lhe esse tratamento investigatório, ouvir o álbum para captar e compreender seus movimentos, as direções e sutilezas de sua enorme massa de som espectral, é das minhas diversões favoritas. Eu me amarro demais nesse tipo de som, seus longos e pacientes minutos, as restrições que parecem ao mesmo tempo amplas e nenhuma — amplas por causa do minimalismo da composição e da execução, nenhuma porque a música não se fia em nada de convencional, nada de popular, nenhuma estrutura ou concessão à coisa alguma: tão pouca coisa acontecendo em tão amplo e ilimitado espaço — e o grande e confortável vazio que vai se acumulando na mente de quem o escuta tem ainda por cima este precioso efeito terapêutico de pouco a pouco nos retirar deste mundo e nos fazer acreditar, por fim, em uma outra dimensão. “Efeito precioso” porque esta dimensão que ora habitamos, convenhamos, está cada vez mais difícil de tolerar. the gesture of history é quase que uma droga psicoativa sem a parte ruim de se consumir drogas.

Uriel - Arzachel

Como foi que consegui chegar aos 40 anos de idade sem nunca ter escutado sequer falar no nome de Steve Hillage? Descobri a música de Hillage faz apenas algumas horas (apesar de ela existir — existir em forma gravada, quero dizer — há precisamente 50 anos) e agora estou aqui, no momento em que escrevo isto, manejando dezenas de downloads, lendo sobre sua trajetória e suas bandas, anotando nomes de discos para comprar, e postergando o trabalho que eu deveria estar fazendo. Arzachel é, na verdade, um álbum do Uriel, a primeira banda de Hillage. E é fantástico, psicodelia que me lembra por vezes Hawkwind (devido à veia hard rock), outras vezes King Crimson (devido às afiliações cósmicas), e acho que basta deixar citados aí estes dois gigantes para dar uma boa medida do negócio. Aliás, essas bandas todas nasceram e lançaram seus primeiros discos entre 1967 e 1970; nesse mesmo período, Hendrix lançou todos os seus discos, sem falar nos três primeiros álbuns do Led Zeppelin e dos dois primeiros do Black Sabbath. Anos gloriosos, não?

Mark Isham - Mark Isham

Mark Isham é o sujeito responsável pela inesquecível trilha sonora do filme Never Cry Wolf. Escutei sua música pela primeira vez assistindo a este filme; depois, fui encontrando seus discos por aí, ocasionalmente, um aqui e outro ali, sem necessariamente procurá-los ativamente, mas eles sempre me apareciam pela frente — discos onde Isham toca seu trompete, brinca com os ingênuos e deliciosos sons da New Age, volta de vez em quando aos sintetizadores de Never Cry Wolf… Nada que vá mudar a vida de ninguém, mas uma muito aprazível mistura desses elementos todos, ao menos para cá estes meus velhos ouvidos que se acalmam e se deleitam com este tipo de som. Bem, a coisa é amena e tem seus limites, sejamos logo francos. Este disco de 1990, no entanto, me parece acima da média da criação de Isham, e isso em boa medida se deve à segunda faixa, I Never Will Know, que conta com a colaboração da cantora Tanita Tikaram. É o tipo raro de música (e que felicidade continuar descobrindo-as) que deve-se reservar para escutar em ocasiões especiais: a primeira manhã ensolarada das férias de verão; voltando para casa depois de uma longa e cansativa jornada; um dia antes de morrer. Já são cinco os discos que tenho anotados para ouvir um dia antes de morrer: Good God’s Urge, Laughing Stock, Automatic for the People, Glenn Gould tocando as Goldberg Variations, e agora este, por causa desta faixa. Espero que eu esteja com a agenda livre neste dia.

Thelonious Monk - Underground

As noites aqui em casa, quando já não são apenas os meus ouvidos ouvindo música, são dedicadas ao jazz. E o último disco da noite é sempre Thelonious Monk. Monk foi um dos maiores! Eu o colocaria em qualquer lista dos meus mestres do jazz favoritos — talvez não apenas na dos meus dois favoritos, da qual ninguém pode destronar nem Miles nem Coltrane. Mas em todas as outras ele tem seu lugar. Embora tenha sido um artista singular em muitos aspectos, nada, no fim das contas, resplandece mais do que seu piano: sua música e seu jeito de tocar possuem uma marca inconfundível — as notas vívidas e algo excêntricas, cada qual de importância nunca menor do que qualquer outra — assim como a guitarra de Hendrix tem também seu selo de exclusividade, e talvez de nenhuma outra dupla músico-instrumento eu consiga dizer tal coisa no mesmo nível de convicção. Este Underground nós escutamos numa sexta-feira de noite enquanto esvaziávamos uma garrafa de vinho português, e as trevas e seus demônios e seus sete príncipes e demais anjos caídos poderiam estar passando em procissão pela nossa rua naquele exato momento, sendo ovacionados e ungidos pelo povo, empossados como nossos novos e mais legítimos representantes agora que enfim caem todas as nossas máscaras, agora que decidimos que está tudo bem e assim será daqui por diante — e nada disso nos interromperia, nada disso quebraria o encanto e a felicidade de nosso pequeno reduto musical. Ao contrário: se tal procissão de fato passasse, ouvindo Monk eu poderia até mesmo acreditar que a qualquer momento um buraco se abriria no asfalto e um bafão engoliria a comitiva toda de volta para o quinto dos infernos. Só para não atrapalhar o som do piano de Monk.

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