O mesmo, afinal

Por Fabricio C. Boppré em 20/03/2019

Ainda me lembro muito bem de uma curiosidade que eu tinha quando criança. Era uma destas interrogações sonhadoras tipicamente infantis, cultivada durante as tardes longas e antigas que, hoje, quando rememoradas, mais frequentemente me fazem recuperar por alguns momentos as aventuras e despreocupações típicas da idade, mas também, vez ou outra, acabam por evocar uma certa monotonia ou tédio que eu experimentava em outras ocasiões, durante algumas poucas horas solitárias, poucas mas longas e morosas e que davam então a impressão de que estenderiam-se para sempre e não levariam a lugar nenhum, o tempo inerte dentro do reino do quarto infantil, o beliche e os pôsteres grudados nas paredes com durex, tudo implacavelmente silencioso e imóvel — o movimento mais frenético era o dos minúsculos fiapos de tecido que eu observava pairando pelo ar, brilhando sob a luz do sol que entrava pela janela perto do fim da tarde, coisinhas minúsculas no limiar da inexistência mas claramente visíveis contra o fundo de madeira escura do armário que havia numa das paredes. Quando elas flutuavam para fora do feixe de luz solar, era como se de fato deixassem de existir. Eram as horas quietas e vagarosas em que eu folheava alguns poucos livros lidos e relidos muitas vezes, escrevia qualquer coisa, sentia a luz do sol na pele para ter certeza de que também eu existia mesmo, esperava, e pensava. Uma lenta calmaria que deslizava mansamente para o tédio, porém não de todo mau ou indesejado. Eu gostava daquilo, na verdade. Ainda me lembro bem da sensação, de seu peso e suas cores, e uma das questões que me passavam frequentemente pela cabeça nessas ocasiões era, como será quando eu for adulto? Quando eu tiver, sei lá, 40 anos? Alguns destes receios, destes medos e vergonhas, terão eles sido eliminados? Será muito diferente? Haverá, em algum momento, alguma grande revelação, algum grande aprendizado, que mudará tudo? Creio já poder responder à mim mesmo algumas destas questões; creio compreender que alguns daqueles medos e apreensões não são resolvidos, apenas desvanecem-se, perdem o sentido, desaparecem ao longo do caminho sem que o percebamos. O próprio tédio some, assim como as horas livres que o ocasionavam. Outras coisas, no entanto, não mudam: eu ainda acordo, às vezes, com os punhos crispados, os polegares dobrados e um pouco doloridos debaixo dos dedos apertados. Ainda tenho um horror invencível a trânsito e carros, já tendo até mesmo jogado fora a carteira de motorista que tirei aos 18 anos e que praticamente nunca utilizei. Ainda prefiro, em geral, estar sozinho; ainda sinto grande reverência e agitação diante do mar. E outras coisas. Continuo sendo, na essência, o que já era desde o princípio, e não deixa de ser uma evidência disso perceber, a esta altura, algumas daquelas velhas perguntas renovando-se e brotando ainda em meu espírito, como se este jamais conseguisse permanecer apenas no presente, apreciando o aqui e agora, e preferisse ao invés disso manter-se em um estado de contínuas projeções, ocupado em medir, incessantemente, o amanhã contra o hoje, o virtual contra o real. Pois eu me perguntava dia desses: como será minha relação com estas músicas todas que venho acumulando — os concertos na memória e os discos nas estantes — quando eu for um tranquilo e recurvado velhinho? Será que a oportunidade que estou tendo neste breve exílio escocês de assistir a muitos concertos, às vezes dois ou três por semana — será que este excesso não irá tornar banal esta experiência outrora tão excitante, tão especial? Quando eu tiver, sei lá, 70 anos, ainda vou me animar este tanto que me animo hoje em sair de casa para ir a uma loja de discos (se ainda existirem) ou assistir e escutar música ao vivo? Eu pensava em coisas assim alguns dias atrás quando uma resposta completa e incontestável foi-me praticamente atirada à cara. Foi na última quinta-feira, quando fomos assistir ao Delta Piano Trio tocar Beethoven, Schoenberg e Lera Auerbach. As performances das peças dos dois mestres mais antigos foram brilhantes — o trio holandês é de fato incrível, duas moças e um moço que me pareceram extremamente habilidosos em seus instrumentos e conectados por um entendimento e uma harmonia bastante acima da média —, mas foi o Trio No. 1 da russa Auerbach que me tocou profundamente e me fez perceber que sim, a resposta para todas aquelas perguntas é sim, música vai continuar sendo para mim este combustível que é hoje, este alimento imprescindível e razão quase suficiente para a existência não só minha, mas de todo o universo. Algo desta magnitude, ao contrário de receios e incompreensões infantis, não desbota, não desvanece, não tem como desvanecer: tem o peso e o tamanho do oceano, sua perenidade, belezas e mistérios. E se ainda sinto que sou aquele do velho quarto infantil, das tardes solitárias de anos e anos atrás, perdidas no tempo mas bastante vivas na memória, então aos 70 é natural que eu continue sendo este cá de agora, e ainda aquele outro de lá, todos o mesmo afinal.

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Créditos da imagem: Delta Piano Trio em foto de autor desconhecido copiada daqui.



1 comentário:

  • Alexandre em 20/03/2019

    Que lindo cara! Consegui enxergar o teu quarto. E ao mesmo tempo revisitar minhas próprias lembranças.

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