Discos do mês - Fevereiro de 2019

Por Fabricio C. Boppré em 05/03/2019

Pierre-Laurent Aimard - Messiaen: Catalogue d’Oiseaux

No ciclo de peças que compõem Catalogue d’Oiseaux, o compositor francês Olivier Messiaen transformou a música dos pássaros em música para piano. Ou extraiu do som dos pássaros um tipo de música humana. Ou traduziu a linguagem dos pássaros em um tipo de som humano. Ou qualquer coisa por aí, não importa. Ao longo da obra, que costuma passar fácil das duas horas se executada inteira, algumas das fronteiras entre essas categorias — som, música, linguagem — parecem desvanecer e revelar a visão mais ampla de algo que poderíamos chamar apenas de “ambiente”. E não só estas fronteiras caem: também aquelas entre seres humanos e animais selvagens, instinto e pensamento, técnica e natureza, também estas parecem diluir, ou regredir um passo antes da taxonomia, um passo antes do cérebro investigador e racional como o conhecemos hoje, quando não havia música, ou quando todo som era música e toda música era som. A intenção de Messiaen, pelo o que pude ler por aí a respeito de Catalogue d’Oiseaux, era não apenas recriar o som emitido pelos pássaros mas também seus habitats, suas relações com as estações, com a luz do dia e a escuridão da noite, etc. As peças são muito bonitas e as ferramentas adotadas pelo compositor na tentativa de aproximar-se deste seu poético e abstrato intento são uma variedade enorme de contrastes e coloridos, de mudanças de intensidade e velocidade, e sobretudo de silêncios. Não conheço muitas versões, somente esta do pianista francês Pierre-Laurent Aimard e outra do também conterrâneo de Messiaen Roger Muraro; Aimard me parece focar mais no aspecto poético do que no percussivo (Messiaen comparava o som de alguns de seus pássaros prediletos ao de pedras chocando-se umas com as outras – estranho elogio!), mas há também momentos “musculares” de proeza virtuosa, como na peça de número 9, La bouscarle. Talvez não seja música para qualquer um, tal sua liberdade e rarefação; para mim, seu apelo irresistível reside na visão que abrange arte e mundo natural, a tentativa de depurar uma coisa a partir da outra — arte a partir do mundo natural, ou mundo natural a partir da arte, tanto faz —, uma bela e reverente concepção de vida e natureza com a qual eu tenho me identificado cada vez mais.

Talk Talk - The Colour of Spring

A última semana de fevereiro começou bastante triste com a notícia da morte de Mark Hollis. Já no dia seguinte, segunda-feira de manhã cedo, aqui em casa nós traçamos e iniciamos nosso pequeno tributo à Hollis: um disco do Talk Talk por dia, durante a primeira refeição, em ordem cronológica de lançamento. Os dois primeiros são deliciosos para quem gosta de synth-pop; os dois últimos são obras-primas incomparáveis para quem gosta da vida. O disco do meio, The Colour of Spring, está perfeitamente colocado entre esses pilares: seus trejeitos de música pop oitentista são apenas penduricalhos em algo que começa a explorar muito, muito adiante. No dia em que o escutamos, quarta-feira, ele me impressionou bastante, bem mais do que em qualquer outra ocasião anterior, e voltei a escutá-lo mais algumas vezes nestes últimos dias. Começando com a segunda colocada no meu ranking da categoria “as melhores canções que utilizam coros infantis” — de acordo aqui com meus registros, Happiness Is Easy fica atrás somente de Cry Little Sister, de Gerard McMann, faixa da trilha-sonora do fime The Lost Boys, e ambas bem à frente da terceira colocada, Another Brick in the Wall, Part 2, de você-sabe-quem — e terminando com esta preciosidade chamada Time It’s Time, The Colour of Spring é, na verdade, muito melhor do que eu lembrava. Entre a primeira e a última faixa, demonstrações variadas de que Hollis não era um compositor comum, um músico entre outros, mas sim alguém de uma sensibilidade exclusiva, uma espécie de artesão determinado a lapidar, lenta e cuidadosamente, algo vislumbrado em sonhos, prestes a revelar ao mundo este seu achado extraordinário — os dois discos finais do Talk Talk e mais seu único solo, lançado em 1998 — e, em breve, silenciar, porque descobertas desse tipo não surgem o tempo todo, não nascem para suprir mercados, não se repetem a partir da simples intenção ou de rotinas de trabalho. Sentar para escrever, trocar idéias e tocar instrumentos com outros músicos, entrar num estúdio de gravação — não basta. Não me espantaria se nada como esses discos do Talk Talk surgisse nunca mais, mesmo que nunca mais seja um tempo bastante longo. Time It’s Time é uma música que justifica essa conclusão, uma música que encapsula algo que vai bem além de seus meios e sua duração: aquelas notas repetidas no fim da canção — um instrumento de sopro ou teclado, não sei bem, que se repete num padrão despretensioso e quase invariável e conduz música e disco para seu final em fade-out — há algo mais ali que não sei explicar. Talvez seja simplesmente o efeito deste inesperado desfecho, um som monocórdio e relaxado após alguns minutos de tumulto e esquizofrenia; talvez a promessa da música que estava para surgir na sequência; talvez algo bastante pessoal, que fale apenas comigo, como são tantas as canções que falam exclusivamente com um ou outro. Não sei. Mais um dos mistérios desta banda que gravou, ao mesmo tempo, tão pouco e incomparavelmente mais do que a grande maioria de todas as outras.

Midnight Oil - Armistice Day

Não posso terminar sem citar meus idolatrados australianos, a quem eu ouvia obsessivamente antes da morte de Hollis. Umas poucas palavras sobre este ao vivo Armistice Day, lançado no fim do ano passado: o disco é bom; o problema é a comparação impossível com o Scream in Blue. Qualquer álbum de rock ’n’ roll gravado ao vivo empalidece diante do Scream in Blue (opinião de um fanático, não precisaria dizer). Naqueles tempos, no auge da potência e da juventude, em muitas das faixas a banda soava exuberantemente descontrolada, quase que em combustão, quando então repentinamente, no meio de algumas delas — minhas favoritas — o grupo dava um jeito de se conter e embarcar em interlúdios instrumentais que eu sempre imaginei necessários para evitar que algum deles morresse de overdose de adrenalina no palco. Só para logo depois, claro, recuperado o fôlego, retomarem de onde pararam e finalizar a tempestade elétrica. Esse padrão está em Sell my Soul, Brave Faces, Hercules e Only the Strong, canções que transbordam melodia e agressividade, e muito melhores do que os hinos radiofônicos ultra-conhecidos da banda. Em Armistice Day, no entanto, Only the Strong já não soa mais tão perigosa, tão urgente quanto já fora um dia, o que deve-se compreender e perdoar ao Midnight Oil uma vez que também para eles o tempo passou e provavelmente chegou sob a forma de dores nas costas, fôlego reduzido, cordas vocais enfraquecidas, etc. Plenamente perdoados: limitações atléticas à parte, a mensagem que a banda tem para dar em Short Memory, US Forces, Put Down that Weapon, entre tantas outras, continua sendo dada de forma clara, insistente e necessária.

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