Impressões auditivas, Vol. VIII

Por Fabricio C. Boppré em 06/02/2019

  • Sempre que eu leio alguma notícia acerca desta terrível crise humanitária em que se transformou a questão da imigração — notícias absurdas que parecem estar todos os dias em todas as capas dos jornais: países barrando imigrantes, construindo muros em suas fronteiras; famílias fazendo travessias perigosíssimas pelo mar, arriscando suas vidas, morrendo afogadas; milhares e milhares de refugiados da guerra e da violência e da fome que por não terem dinheiro suficiente ou a cor certa da pele têm negado aquilo que deveria ser direito último e inalienável de todo ser humano, o de viver dignamente —, nestas ocasiões eu sempre lembro dos versos de uma música do Midnight Oil: “Don’t turn back the ships of freedom/back to the south China Sea/can you imagine/the first taste of freedom for the refugee?”. Esta música, Ships of Freedom, não está em nenhum dos LPs da banda; trata-se de uma b-side que aparece no tracklist do EP In the Valley, lançado na época do Earth and Sun and Moon (1993). Sua pertinência em relação aos nossos sombrios tempos atuais, no entanto, fez a banda resgatá-la e tocá-la em muitos dos shows da turnê de reunião que fizeram em 2017 (e vêm mais uns shows por aí). “Can you imagine the first taste of freedom for the refugee?” é muito bonito; a música toda é ótima. Só que escutá-la hoje em dia pode ser ainda mais angustiante: o travo amargo que ela provoca não vêm mais apenas das imagens e temas explícitos nas letras, mas também daquilo que já transcorreu desde então, retrocessos e processos de desumanização impensáveis até pouco tempo atrás. Supremacistas brancos desfilando por aí, democracias elegendo fascistas presidentes, o fim do pensamento e do conhecimento substituídos pelo facebook e pelo WhatsApp, e por aí vai. Perdoem-me a visão sombria, mas de 1993 para cá não foi só a capacidade de nos sensibilizarmos com a alegria de alguém que tem a chance de iniciar uma nova vida, em paz, em liberdade, longe de seja lá qual for a tragédia que o tenha expulsado de sua provavelmente querida terra natal — me parece que não foi só isso o que perdemos.
  • Durante muito tempo, sempre que eu escutava La Mer, de Claude Debussy, aquele belo e apoteótico final do primeiro movimento me torturava com uma lembrança incompleta, que insistia em não vir à tona: de onde eu conhecia anteriormente aquela melodia, aquele majestoso crescendo que anunciava o fim do movimento, lento e épico, uma das obras mais bonitas do repertório clássico? Pois eu já conhecia aquilo de algum lugar, tinha quase certeza que transposto para um outro contexto, alguma trilha-sonora, ou algo assim. E, às vezes, eu chegava muito perto de lembrar, tenho a impressão que chegava mesmo a agarrar no rabo da tão perseguida lembrança e que conseguiria enfim arrastá-la até o consciente e revelar-lhe por completo em plena luz do sol, só para então vê-la escapar, ligeira e manhosa, desvanecendo-se na torrente das notas finais da primeira parte do poema sinfônico de Debussy. Penso que era justamente o final do movimento o que sabotava a revelação que estava prestes a me acontecer: os bumbos e depois a orquestra silenciando faziam naufragar o processo rememorativo em andamento e que, tivesse apenas mais alguns poucos segundos de som no qual se mover, como um barco entrando água mas quase chegando à costa, provavelmente teria me feito lembrar da música em questão há muito mais tempo. Pois é, tomou-me alguns anos, e era sempre muito irritante… Até que dia desses, subitamente, lembrei: “Who wants to live forever…? Who wants to live forever?” Sim, a canção do Queen, trilha-sonora do filme Highlander, música que sempre gostei muito mas, por qualquer motivo insondável, nunca me vinha à memória durante meus esforços em desvendar o enigma de La Mer. De quebra, resolveu-se o dilema: como pode essa banda que acho tão ruim, tão exagerada e cafona, ter gravado uma música que acho tão boa? Aí está: plagiando Debussy.
  • Gravação recomendada de La Mer: Eugene Ormandy regendo a Philadelphia Orchestra.
  • Por falar em exagero e cafonice, mas do tipo que eu gosto: em 1998 o Iron Maiden costumava abrir os shows da sua Virtual XI World Tour com Prokofiev:


(Eu estava neste show: 6 de dezembro de 1998, na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, a primeira e única vez em que assisti ao Maiden e, provavelmente, a primeira vez em que escutei Dance of the Knights, parte do ballet Romeo e Julieta de Prokofiev.)

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Créditos da imagem: A Disaster at Sea , de Joseph Mallord William Turner, copiada aqui.



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