Discos do mês - Dezembro de 2018

Por Fabricio C. Boppré em 31/12/2018

The Necks - Unfold

É uma banda muito especial esta The Necks. Às vezes eu penso que poderia passar um dia inteiro — uma semana inteira, talvez — ouvindo exclusivamente aos discos deste trio australiano, pois este incrível som que eles fazem é música para qualquer momento: é música para trabalhar, para estudar, e ler, e cozinhar e jantar, lavar a louça e o chão do banheiro, e também — sobretudo isso — para sentar e escutar com calma e atenção concentrada. A longa discografia dos caras é uma alegria infinita: começa lá em 1989 e teve disco lançado ainda há pouco, neste funesto 2018 que se acaba — Body é o título deste último e ele me parece fundamentalmente diferente de seus antecessores, mas preciso ouvi-lo ainda mais algumas vezes antes de emitir um julgamento que diga algo mais do que isso. O disco que eles lançaram em 2017, por outro lado, escutei-o diversas vezes nestas últimas semanas e ele logo transformou-se em um dos meu favoritos: Unfold é longo e aventureiro, quatro faixas que logo de saída, já nos segundos iniciais de cada uma delas, deixam devidamente claro ao ouvinte que não irão desaguar em lugar nenhum, não vão decolar rumo aos desfechos apoteóticos tão comuns em determinado tipo de música jazzística e o tipo de coisa que o próprio Necks já fez com maestria em tantos e tantos discos. Não desta vez: aqui a sensação de desprendimento temporal é intensa e a ausência de linhas evolutivas, por vezes, soa desconcertante — a banda, mais do que em qualquer outra ocasião, solicita a atenção do ouvinte sem prometer absolutamente nada além de uma viagem sem destino conhecido algum, uma jornada por paisagens sonoras cuja razão de ser é simplesmente o que são, e não no que se transformarão. Embarque por sua conta e risco, eles dizem; você é louco se não embarcar, digo eu.

Steve Swell - Music For Six Musicians: Hommage A Olivier Messiaen

A premissa desse disco é homenagear o compositor francês Olivier Messiaen e o sexteto encarregado da missão — a partir de composições do trombonista Steve Swell — é uma banda de jazz. O resultado, no entanto, é maior do que a simples soma dessas partes. A obra de Messiaen sempre me soou ao mesmo tempo bastante estranha e fascinante, uma música impregnada de uma intrigante religiosidade heterodoxa, uma forma muito particular de expressão e veneração na qual parece estar codificado um caminho para a iluminação. E a transposição disso para o jazz não é, de forma alguma, uma idéia tão desarrazoada quanto pode parecer a princípio: o jazz é e sempre foi gentil e acolhedor para com vias alternativas e explorações, tanto é que há um sub-gênero próprio seu para abrigar os muitos e maravilhosos resultados desta hospitalidade, desta reciprocidade: o free jazz. E a coisa funciona muitíssimo bem neste disco: o entrosamento da banda para recriar os tempos e ritmos singulares de Messiaen — passagens que remetem à intricadas figuras geométricas traçadas nos céus ao invés de partituras — é fenomenal, um farto banquete para os ouvidos. Emoções caleidoscópicas se seguem, o espírito enigmático da música de Messiaen sendo constantemente evocado. Há ainda momentos em que o sexteto, insolitamente, soa quase como uma destas antigas big bands americanas, coisa da qual nunca fui muito fã, mas fico tentado a considerar que se Messiaen compusesse para big bands, talvez eu pudesse apreciar o resultado. Uma incrível aventura musical este álbum, título certo na lista dos meus favoritos de 2018 que pretendo publicar a seguir.

George Winston - Linus and Lucy: The Music of Vince Guaraldi

Dentre as poucas tradições que gostamos de cultivar — e mesmo estas sem nenhuma rigorosidade — estão, por ocasião do Natal, assistir ao It’s a Wonderful Life (possivelmente o filme que mais vezes assisti na minha vida) e escutar ao disco que o Vince Guaraldi Trio gravou como trilha-sonora para o especial natalino de 1965 da turma do Charlie Brown. Nada de árvore de Natal, nada de presentes, nada de festanças: somente isso, um disco e um filme. Pode parecer pouco, mas na verdade é muitíssimo: dois símbolos que acabam por transferir à data bem mais graça e significado do que costumam fazer os outros mais tradicionais citados anteriormente, que de resto, em minha opinião, nestes últimos tempos só serviram para obscurecer os reais significados pretendidos pelos cristãos quando estes apropriaram-se das antigas comemorações pagãs em torno do solstício de inverno e fundaram o Natal mais ou menos como o conhecemos hoje. E se nada disso fosse, ao menos rendem (disco e filme) um bom fechamento de ano com música e cinema do mais alto calibre: A Charlie Brown Christmas, afinal, é não somente um disco que eu gosto de ouvir numa época específica do ano, mas um dos meus discos favoritos de todos os tempos. Se já houve de fato algum milagre associado ao Natal e fora das narrativas religiosas, certamente é a gravação deste pequeno tesouro. Pois bem, neste último Natal cumprimos parte da tradição e assistimos ao maravilhoso filme de Frank Capra, precisamente no dia 25; A Charlie Brown Christmas, contudo, dessa vez cedeu lugar a Linus and Lucy: The Music of Vince Guaraldi, de George Winston. Trata-se de um tributo à música que Guaraldi compôs para os desenhos dos personagens concebidos por Charles M. Schulz, porém rearranjada para o piano solo, ou seja, Winston compila e recria usando unicamente suas duas mãos muitas das faixas do trio piano-baixo-bateria acrescido de coros infantis que Guaraldi utilizava para a gravação dos temas de Charlie Brown, Sally, Snoopy & cia. O resultado é ótimo: sempre me surpreendo com a pletora de sons que um pianista habilidoso é capaz de tirar do seu instrumento, a capacidade de sozinho — e acusticamente — criar mundos tão ricos e completos de música, e Winston é um destes mágicos. Seu piano soa livre e contagiante na inigualável Linus & Lucy, melodioso e audacioso em The Masked Marvell, paciente e nostálgico em Bon Voyage. Mas é nas faixas mais soturnas — este o toque especial dos temas originais de Guaraldi: a ternura e a delicadeza com que salientam os tons de melancolia que os desenhos, não obstante terem como público-alvo o infantil, sempre exibiram como um dos seus componentes principais, expressos principalmente nas desventuras e na personalidade de Charlie Brown — é aqui que o piano de Winston brilha de verdade, e os destaques são tantos que não vou nem enumerá-los.

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