Jazz noite adentro

Por Fabricio C. Boppré em 13/12/2018

A banda — que mudava continuamente de formação e era ora um quarteto, ora um quinteto — tinha como líder um ilustre desconhecido, tão desimportante que no site do local anunciava-se um outro nome para aquela noite, e decerto não se deram ao trabalho de retificar quando surgiu a necessidade da substituição pois provavelmente não faria diferença para ninguém. O local, na cartografia do mundo, não importa. Era um porão. A música enchia o ambiente como só bandas de jazz conseguem fazê-lo: a substância sonora preenchendo o espaço sem subterfúgios, sem intermediários, puro ritmo e movimento humano. Talvez eu não saiba a definição técnica exata de “ritmo” — meus conhecimentos sobre teoria musical e seus termos constitutivos são quase nulos. Mas eu sei o que é uma boa banda de jazz tocando num porão. Nevava lá fora; a banda labutava, gotejava lá dentro. E dava risadas. Vieram-me à mente, diversas vezes, descrições de concertos de jazz lidas em muitos livros de Jack Kerouac. “Go! Go! Go!”. Comunhão, poetas mortos e enterrados em cemitérios quase irreais de tão distantes, impressões embevecidas sobre o céu noturno. Os temas e os entusiasmos adolescentes de Kerouac são os culpados por tanta gente torcer o nariz para os seus livros — “literatura juvenil”, já ouvi de muita gente; “não é literatura, é datilografia”, esnobou outro — e de fato há um tanto de leviandade em seus textos, e frequentemente uma recusa teimosa e inflexível de conduzir os pensamentos e as elaborações para sequer algumas poucas horas adiante, para qualquer coisa além do momento imediato… Uma boa trupe de jazz, no entanto, é capaz de nos fazer entender o valor deste agora absoluto, da transpiração, da atenção retilínea e sustentada no presente. É como se ela (a banda) propusesse um diálogo, e a música vem em nosso apoio para expressar(mos) algo que só através dela somos capazes, mesmo que não sejamos nós a executá-la, mesmo que estejamos ali somente assistindo-a. O jazz lida com algo de essencial, de comunidade e sintonia, que é difícil de definir. É um tipo muito especial de expressão, pela qual os adjetivos e nossas capacidades de descrição fazem muito pouco; em um nível muito mais verdadeiro do que na maioria dos casos em que este clichê é aplicado, é música para sentir e presenciar. Três sets, mais de duas horas de música para um minúsculo público rotativo, com apenas um punhado parecendo realmente interessado na música — e a banda foi até o fim, fez seu trabalho até a última nota, quando já era madrugada, esforçados operários em prol da causa maior. Porque se o jazz morre, morre este diálogo, e morre a humanidade.

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Créditos da imagem: Cool Jazz, de Debra Hurd, copiada daqui.



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